O mercado de crédito privado teve um “soluço” nas últimas semanas, ampliado pelos pedidos de recuperação extrajudicial de Raízen e GPA, dona da rede de supermercados Pão de Açúcar. Após um período movimentado para captações, a mudança no cenário macroeconômico e na percepção de risco de algumas companhias fez com que investidores se afastassem de novas ofertas, obrigando bancos a manter na própria carteira parte das emissões que estavam na rua.
A leitura é que houve um afastamento relevante do investidor pessoa física, que estava com liquidez após os pagamentos feitos pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC) decorrentes da decretação de liquidação extrajudicial do Banco Master e de outras instituições do conglomerado. A seletividade, contudo, também foi percebida nos fundos.
Os casos foram crescendo nas últimas semanas. Um dos exemplos envolve uma emissão da Edge, empresa do grupo Cosan que atua no mercado livre de gás. A companhia emitiu R$ 600 milhões em debêntures corporativas e 100% dos papéis ficaram com bancos. A Engie fez uma oferta de R$ 2 bilhões em títulos incentivados, e cerca de R$ 1,1 bilhão foi encarteirado pelas instituições financeiras. A transportadora de gás NTS captou R$ 2,2 bilhões e 60% dos títulos ficaram com os bancos que atuaram na operação.
Antes disso, a Cocal teve 96% de sua emissão de R$ 350 milhões em debêntures absorvida pelas instituições financeiras ligadas à oferta. Em uma emissão de R$ 400 milhões de certificados de recebíveis imobiliários (CRI) da Opea, R$ 366 milhões ficaram com bancos. Outra debênture de R$ 550 milhões da rede de ensino Cruzeiro do Sul teve 90% nas mãos dos bancos, enquanto a emissão de R$ 3 bilhões da Rede D’Or teve apenas 26% dos papéis distribuídos ao mercado, com o coordenador da oferta ficando com o restante.
O diretor financeiro da Rede D’Or, Otavio Lazcano, afirmou ao Valor que o caso da companhia do setor de saúde é diferente, visto que historicamente a empresa não faz esforço para venda de suas debêntures e que, com isso, tradicionalmente os bancos ficam com mais papéis. O executivo destacou ainda a situação financeira confortável da companhia.
Porém, no geral, a situação se deteriorou nas últimas semanas. O sócio do Pinheiro Neto Advogados especializado em mercado de capitais Luiz Felipe Fleury Vaz Guimarães disse que os últimos eventos de crédito elevaram a dificuldade de colocação das ofertas. Segundo ele, em algumas operações, nem mesmo o aumento das taxas seria suficiente para destravar a demanda, diante de um ambiente de maior aversão ao risco. “Esse problema está mais relacionado com eventuais dificuldade das empresas emissoras, de elas não performarem, do que efetivamente com taxas”, afirmou.
No momento, a aversão ao risco atingiu diferentes perfis de emissores, e não apenas os mais alavancados. Empresas de setores semelhantes aos das companhias em reestruturação, porém, parecem ser as mais afetadas, disse Guimarães. Segundo ele, as empresas sem uma necessidade imediata de emissão estão optando por aguardar.
Não é que falte liquidez no mercado de crédito privado, mas há uma elevada incerteza, tanto em relação à guerra no Oriente Médio quanto sobre os eventos de crédito recentes, afirmou o executivo de um banco de investimento que atua diretamente nas ofertas de dívida. Segundo esse interlocutor, a prova de que o momento é delicado é, que até mesmo operações incentivadas de grandes emissores – que costumam ter bastante apelo para o público pessoa física -, não venderam quase nada.
Esse tipo específico de papel já vinha, há algum tempo, em um ciclo de compressão das taxas, o que também ajuda a explicar a reação mais cautelosa de investidores. Um gestor de crédito disse que o desenho das operações, com taxas baixas, tem deixado os compradores insatisfeitos, levando os bancos a exercer uma porcentagem maior da garantia firme concedida na emissão dos títulos.
Segundo esse gestor, em algumas operações a estratégia tem sido a de comprar os papéis no mercado secundário, quando as taxas estão mais atrativas. Isso acaba minguando a demanda nas ofertas primárias.
O resultado prático da situação é que empresas que planejavam acessar o mercado estão ajustando cronogramas para evitar o cancelamento das ofertas. Alguns bancos que previam fortes volumes de emissões de dívida para o primeiro semestre – considerando uma antecipação de captações por causa das eleições – passaram a revisar suas estimativas com a perspectiva de um segundo trimestre mais fraco.
Bernardo Carneiro, sócio do escritório Lefosse, disse que o mercado de crédito segue funcional, diferentemente de 2023, quando congelou após os casos envolvendo Americanas e Light. “Alguns gestores estão mais cautelosos.”
O sinal de alerta, porém, parece ter acendido. Felipe Vidal, gestor de fundos da Sparta Investimentos, afirmou que os casos consecutivos de recuperação extrajudicial levantaram preocupações no mercado sobre a qualidade de crédito e fizeram o investidor lembrar do que aconteceu em 2023, quando Americanas e Light entraram com pedidos de recuperação judicial. “Naquela época, os eventos geraram um forte movimento de resgates nos fundos de crédito, que não observamos agora, mas que pode vir a ocorrer à medida que ficar claro para o investidor que o risco de crédito está latente.”
Ainda assim, segundo ele, a exposição de fundos a GPA e Raízen, somadas, é estimada entre R$ 3 bilhões e R$ 4 bilhões, bem abaixo dos R$ 12 bilhões de Americanas e Light em 2023. “O mercado atual também é maior do que naquela época, e os investidores estão mais acostumados com a volatilidade nas cotas de fundos de crédito devido aos eventos dos últimos três anos”, disse Vidal.
No geral, em momentos de maior estresse, os títulos negociados no mercado secundário passam por fortes oscilações, o que acaba mexendo com taxas e com o ritmo do mercado primário. Desta vez, curiosamente, o movimento de queda no secundário tem sido um pouco mais contido, segundo gestores.
No caso do GPA, o anúncio do pedido de recuperação extrajudicial não pressionou significativamente as taxas de debêntures, uma vez que parte do risco já estava embutido nos papéis. “O mercado antecipava uma deterioração há bastante tempo. Há seis meses, os preços já estavam estressados”, disse Pedro Breviglieri, gestor de crédito da Reach Capital. As operações da varejista também estavam concentradas em investidores institucionais que já acompanhavam as negociações com a companhia.
Do lado da Raízen, porém, os títulos são mais pulverizados e com maior presença de pessoa física. Houve deterioração dos preços a partir de outubro, após o rebaixamento de ratings por agências de classificação de risco, mas é esperado que mais gente tente se desfazer dos títulos conforme o papel for remarcado nas carteiras.
Leonardo Ono, gestor de crédito da Legacy, afirmou que os recentes casos de reestruturação já estavam no preço do mercado, mas o contexto pode mudar com eventos ainda não mapeados.
Procuradas, as empresas citadas não comentaram.
Fonte: Valor Econômico
