O crédito privado viveu uma explosão nos últimos anos. Até abril, havia 164 casas com foco em títulos de renda fixa privados — CDBs, LCIs, LCAs, CRIs, CRAs, debêntures e FIDCs. Em 2019, eram apenas 60. Ou seja, o número de gestoras de crédito privado avançou 173%, apontou a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima).
A demanda foi tanta que os spreads chegaram a ficar comprimidos no passado. Porém, o movimento se inverteu e os títulos de crédito privado recuperaram parte do prêmio posteriormente.
Mas é preciso cuidado. Nem toda taxa atrativa significa uma boa alocação, alertaram os painelistas Fayga Delbem, head de crédito na Itaú Asset, Gustavo Lendimuth, diretor da Santander Corretora, e Marilia Fontes, sócia-fundadora na Nord Research, durante o Congresso da Planejar nesta quinta-feira, 17.
“A grande preocupação é qual é o tamanho que o crédito privado precisa estar — e deveria estar — na carteira de cada investidor. Nos últimos anos, pela Selic alta, pelo desempenho do crédito, a gente viu o crédito ganhando uma representatividade maior do que o devido. Vimos um público 100% da carteira em crédito. Eu sou uma entusiasta, gosto muito da classe, mas, sem dúvida, ela não pode ser a única”, diz Delbem.
Isso porque uma taxa mais alta no crédito privado normalmente está associada a uma empresa com maior risco. Casos recentes mostraram como é necessário analisar com cautela os fundamentos da companhia e, principalmente, não deixar a taxa ser o único fator de decisão.
“Em um revés, a liquidez some completamente. Vimos com Raízen, Grupo Pão de Açúcar (GPA), Casas Bahia. Na hora de o investidor tentar reduzir aquele risco, ele não consegue liquidez”, comenta Fontes.
Ela ainda usa uma analogia para dimensionar o risco. “Crédito de risco baixo: 1 em 1 mil vai quebrar. Médio: 1 em 100. Alto risco: 1 em 10. Isso é para o investidor ter a noção de que não é livre de risco. Pegar fraude no balanço, por exemplo, é uma das coisas mais difíceis. Você precisa da elite dos analistas. A gente tem que partir do pressuposto que aquele balanço está correto. Tem que confiar nas equipes de auditoria.”
Por isso, afirma Lendimuth, a recomendação de um crédito individual nunca começa no momento em que o produto é oferecido ao cliente. “A análise do risco nunca termina”, pontua. Para ele, quando o investidor financia uma empresa, é preciso olhar para frente. “Até porque o próprio negócio muda, o mercado muda e o cliente muda também.”
Quanto de crédito ter — e como montar a carteira?
Não existe, segundo os painelistas, uma proporção única de crédito privado que sirva para todos os investidores. O tamanho da posição depende do perfil, do apetite a risco e do horizonte de investimento. A preocupação, porém, não deve estar apenas na quantidade de crédito dentro da carteira, mas também em como esse crédito está distribuído.
Delbem chama atenção para a necessidade de diversificação tanto entre as diferentes classes de ativos quanto dentro da própria renda fixa. Isso significa evitar uma concentração excessiva em uma única empresa, setor ou tipo de crédito. Uma carteira pode combinar, por exemplo, crédito tradicional, crédito de infraestrutura e ativos no exterior, de acordo com o perfil do investidor.
A diversificação também pode ser feita pela forma de acesso ao crédito. No investimento direto, o investidor compra os títulos individualmente e consegue ter maior controle sobre prazo e duration da carteira. Já os fundos permitem pulverizar os recursos entre diferentes emissores e delegar ao gestor a análise e o acompanhamento dos ativos.
“Ambos têm seu espaço na composição da carteira do investidor. O principal benefício que eu vejo de forma clara nos fundos é a capacidade de você pulverizar dentro de um fundo de investimento”, afirma Delbem.
Para ela, essa pulverização pode ser relevante porque acompanhar individualmente dezenas ou centenas de grupos econômicos é uma tarefa mais difícil para o investidor. Em um fundo, a análise e o monitoramento ficam concentrados na gestão, que também pode negociar volumes maiores no mercado secundário.
Esse mercado, aliás, vem ganhando espaço e pode mudar a experiência do investidor com o crédito privado. Segundo Delbem, o volume negociado no mercado secundário cresceu de forma expressiva nos últimos anos, ampliando as possibilidades de entrada e saída dos ativos. “Uma forma de investimento não anula, sem dúvida, a outra. Elas se complementam”, afirma Delbem.
A discussão, portanto, não é apenas sobre quanto o crédito privado paga, mas sobre qual risco está por trás daquela remuneração, quanto daquele risco cabe na carteira e como o investidor poderá reagir caso o cenário mude. É justamente nesse ponto que os painelistas destacam a importância do acompanhamento após a compra do ativo.
Fonte: Exame


