O ex-presidente do Federal Reserve de St. Louis, James Bullard, foi um dos nomes sondados para assumir a cadeira de Jerome Powell e chegou a sentar à mesa com o secretário do Tesouro, Scott Bessent, durante o processo de seleção que já se arrasta há meses. Embora não tenha chegado à lista final de candidatos, ele diz, em entrevista exclusiva ao Valor durante rápida passagem por São Paulo, acreditar ter sido considerado ao cargo por ter uma visão crítica sobre o papel da autoridade e que o atual governo dos EUA busca um Fed mais “contido” em relação ao que foi nos últimos anos.
Otimista com o crescimento da economia americana no curto prazo, Bullard defende uma pausa no ciclo de cortes na próxima reunião do Fed. “Não acho que seja realmente preciso fazer todos esses cortes em sequência, de uma reunião para a outra. Há dados faltando e leituras realmente muito boas da economia como um todo. Acho que poderiam esperar”, argumenta. Ainda, de acordo com o ex-dirigente do Fed, há espaço para a retomada dos cortes no ano que vem, mas as preocupações com a inflação permanecem, à medida que não há confiança de que ela esteja retornando para a meta de 2%. “Existe uma probabilidade de que a inflação volte a subir”, diz. “Não acho que os mercados estejam preparados. Eles não estão se comportando como se esse cenário fosse possível, mas há probabilidade.”
Valor: Qual a sua visão atual para a economia dos EUA?
James Bullard: Estou otimista em relação à economia dos EUA. Acho que ela vai reacelerar na primeira metade de 2026. Ainda não temos todos os dados do terceiro trimestre, mas vemos um ritmo de crescimento bastante rápido e muito diferente do que muitos analistas previam no início deste ano, quando a guerra comercial estava no auge.
Valor: Quais são as razões?
Bullard: O novo governo conseguiu aprovar seu projeto principal no Congresso, com elementos que são e podem começar a surtir efeito ainda agora no quarto trimestre, mas especialmente na primeira metade de 2026. Além disso, há um boom de IA [inteligência artificial] acontecendo nos EUA. Então esse investimento está sustentando o crescimento da economia. O mercado acionário dos EUA está muito forte. Assim, a metade superior da distribuição de renda se sente confortável, e por isso está consumindo — e isso representa a maior parte do consumo. Claro que nem todos vão bem, mas quando você olha para o indicador, esses são alguns dos pontos principais. Os EUA estão realmente em boa forma.
Valor: O cenário não parece dar apoio a novos cortes de juros. Qual a sua visão para política monetária?
Bullard: Eu vejo esses cortes de juros que estão ocorrendo agora mais como uma normalização do que como uma tentativa de afrouxar a política monetária. O comitê tomou ações muito agressivas para conter a inflação nos últimos anos e elevou bastante os juros, de zero até acima de 5%. Conforme a inflação caiu, foi natural querer normalizar a taxa básica, mas esse processo ainda não está totalmente completo. Por isso, acho que o Fed está reduzindo a taxa básica mesmo com a inflação ainda acima da meta. É um desafio de comunicação complicado, mas é basicamente o que está acontecendo.
Valor: O Fed vai cortar os juros em dezembro? Qual é sua visão para os próximos passos?
Bullard: Há muito debate sobre a reunião de dezembro. Acho que foi mais fácil fazer os dois primeiros cortes de juros, de setembro e outubro, e vai ser mais difícil fazer um terceiro corte consecutivo. Não acho que seja realmente preciso todos esses cortes em sequência, de uma reunião para a outra. Há dados faltando e leituras realmente muito boas da economia como um todo. Então, acho que eles poderiam esperar para fazer novos movimentos, digamos na reunião de janeiro, março, abril ou maio. Em algum momento na primeira metade de 2026.
Valor: Como o Fed pode comunicar a pausa?
Bullard: O comitê está dividido, então uma forma típica de compromisso no comitê é dizer “vamos em frente e cortar, mas vamos nos comprometer a não fazer novos movimentos na próxima reunião”, ou “não vamos cortar, mas diremos que faremos isso na próxima reunião”. Então isso frequentemente serve como base para um compromisso no comitê. Neste caso, não está muito claro qual caminho seguir.
Valor: Teremos um mini ‘forward guidance’ para a próxima reunião?
Bullard: Sim, exatamente. Eles poderiam dizer: “Não fizemos nenhum movimento nesta reunião, mas é muito provável que façamos em janeiro”, ou poderiam dizer: “Nós nos movemos nesta reunião; é muito improvável que façamos outro em seguida.” O comitê provavelmente quer ver mais dados antes de fazer o próximo movimento, então pode ser mais prudente esperar até janeiro. Em um sentido macroeconômico, não faz muita diferença se você se move em uma reunião ou na outra. Mas, na prática, se o comitê fizer um corte de juros agora e depois os dados forem na direção errada, é difícil desfazer isso e dizer: “Vamos elevar a taxa novamente.” Eles geralmente não se comportam dessa maneira. Então seria mais fácil dizer, acho eu: “Vamos apenas esperar mais uma reunião e aí seguir adiante.”
Valor: Que decisão o sr. apoiaria em dezembro?
Bullard: Eu apoiaria esse caminho de dizer para não agir em dezembro, mas prometer que, se os dados vierem conforme o esperado, eles provavelmente estariam dispostos a seguir adiante e fazer um movimento.
Valor: Vemos os membros do comitê realmente divididos. Dada a sua experiência no Fed, como acha que Powell vai lidar com isso?
Bullard: Tudo vai depender de quantas pessoas ele consegue trazer para o consenso nesta reunião, mas eles frequentemente acabam se comprometendo também com o caminho da política monetária, não apenas o movimento específico daquela reunião. Então a questão é quanto eles vão se comprometer para a primeira metade de 2026. Há membros que não acham que deveriam se comprometer com nada. Então, nesse sentido, há uma grande divisão.
Valor: Como acha que as coisas vão se desenrolar se o comitê ficar ainda mais dividido, especialmente quando Powell for substituído?
Bullard: Cada presidente tem seu próprio estilo, e uma nova pessoa que assumir terá sua própria maneira de gerir o comitê. Neste momento, não está exatamente claro como isso vai funcionar. Mas eu diria que, durante meu mandato, Ben Bernanke foi mais colaborativo. Ele queria mais ouvir as opiniões de todo o comitê. Ele quis democratizar o comitê, e fez isso. E, desde então, os chairs subsequentes, Janet Yellen e Jay Powell, seguiram o mesmo caminho. Mas é possível que um novo chair seja mais parecido com Greenspan ou Volcker.
Valor: O senhor esteve pessoalmente em conversas com o secretário Bessent sobre a possibilidade de se tornar o próximo chair do Fed. Na sua visão, o que Bessent e Trump parecem buscar em seu candidato?
Bullard: Bem, o secretário Bessent disse publicamente que quer ver um Fed que seja, de certa forma, contido, em comparação com o que tem sido nos últimos 15 anos. Acho que eu era um candidato natural — mas não cheguei à lista final — porque eu fui um crítico de dentro do Fed e também tenho muita experiência, então eu sei muito bem como o Fed funciona. Assim, potencialmente, eu poderia levar adiante essa agenda.
Valor: O senhor está preocupado com a independência do Fed?
Bullard: Há o caso da Lisa Cook. Houve acusações contra ela, que ela nega, e o presidente tentou demiti-la com base nisso. Não acho que seja aceitável que os partidários possam simplesmente fazer acusações contra alguém e isso significa que essa pessoa tem que deixar o cargo. Isso é uma espécie de demissão arbitrária. Precisa haver algum tipo de processo para que a pessoa acusada possa responder, de preferência em um tribunal. Se permitirmos isso, vai corroer dramaticamente a independência do Fed. Então acho que a Suprema Corte vai decidir a favor de Lisa Cook nesse caso, acredito.
Valor: O cenário atual preocupa?
Bullard: É apenas pressão partidária de ambos os lados. É preciso ter alguns limites em torno disso para que as pessoas possam se defender de acusações. Outra maneira de lidar com isso seria que os partidários não fizessem essas acusações, mas não acho que seja possível impedir isso. Poderia ser instituído um processo que tornasse isso difícil, e no qual realmente seria necessário obter uma condenação por algo antes que você pudesse demitir alguém. Seria um padrão muito mais rigoroso.
Valor: Acredita que hoje a independência do Fed está garantida com as leis e o histórico que ainda estão em vigor?
Bullard: Até agora funcionou muito bem, porque as pessoas têm interpretado a parte de “por justa causa” do Federal Reserve Act como significando que você realmente não pode demitir ninguém, exceto em circunstâncias excepcionais. Se o Congresso quisesse revisitar isso seria ótimo, mas provavelmente não o farão. Portanto, caberá à Suprema Corte decidir o que essa expressão realmente significa.
Valor: O governador Miran, indicado por Trump, divergiu nas últimas decisões, defendendo cortes de juros maiores. Devemos esperar que os próximos indicados por Trump adotem postura semelhante?
Bullard: Stephen Miran é um economista. Ele apresenta bons argumentos baseados nos dados. Ele acredita que a taxa neutra é mais baixa e que você poderia cortar mais e mais rápido. Ele não vê a inflação como uma grande ameaça neste momento. Não sei se ele está convencendo todos no comitê, mas essas são questões razoáveis para argumentar e debater.
Valor: Como avalia os riscos de cada parte do duplo mandato do Fed neste momento?
Bullard: No lado do mercado de trabalho, muita gente comentou sobre o crescimento lento do emprego durante o verão nos EUA. Mas o último relatório de setembro mostrou 119 mil novos empregos, um número melhor do que se pensava. O ponto principal é que a política de imigração mudou bastante: antes, esperávamos cerca de 150 mil empregos por mês; agora, a estimativa caiu para perto de 50 mil. Muitas pessoas não ajustaram suas expectativas a essa mudança e citam o crescimento “lento” como motivo para reduzir a taxa básica. Na realidade, 119 mil empregos estão bem acima do nível de equilíbrio (steady state), considerando a política de imigração, o que explica por que outros indicadores do mercado de trabalho não mostram essa desaceleração.
Valor: A que dados se refere?
Bullard: O desemprego ainda está baixo para os padrões dos EUA, provavelmente perto da taxa natural. Os pedidos de seguro-desemprego seguem muito baixos e outros indicadores do mercado de trabalho continuam sólidos. Do lado da inflação, porém, ela continua elevada. Então a visão do comitê tem sido de que eles devem permanecer moderadamente restritivos para combater a inflação, dado que parece que o restante da economia está indo muito bem. Essa é uma posição razoável de se ter e, portanto, estou mais preocupado com o lado da inflação do que com o lado do mercado de trabalho agora.
Valor: O sr. disse que estava preocupado com a inflação. Por quê?
Bullard: A inflação não caiu nos últimos 18 meses nos EUA. Houve muito sucesso após as medidas adotadas em 2022, e os preços começaram a recuar quando o Fed passou a agir de forma muito agressiva em relação ao combate à inflação. Mas, desde então, a inflação não voltou ao patamar de 2%. Essa “última légua” precisa ser monitorada. Isso não seria um grande problema se houvesse confiança de que a inflação está se aproximando lentamente de 2%, que é o cenário-base do comitê. Mas existe uma probabilidade de que a inflação volte a subir. Não acho que os mercados estejam preparados para isso; não estão se comportando como se esse cenário fosse possível, mas há uma probabilidade.
Valor: O Fed ajustaria sua postura caso a inflação voltasse a subir?
Bullard: É isso que deveria fazer. No entanto, o Fed não parece comunicar-se nesses termos. Eles demonstram confiança de que a inflação continuará a cair. Talvez estejam certos, mas existe outro cenário possível.
Valor: O senhor acha que a política monetária ainda deveria ser restritiva?
Bullard: Ela ainda está um pouco restritiva. Ainda exerce alguma pressão baixista sobre a inflação, mas ainda levaria cerca de dois anos para chegar a 2%. Acredito que essa é a direção adequada. Porém, o problema aparece se a inflação voltar a subir. Se isso acontecer, o comitê terá de agir rapidamente.
Valor: O senhor acredita que a taxa neutra nos EUA aumentou?
Bullard: Sim. Acho que está um pouco mais alta do que esteve durante grande parte do período de 2009 a 2019. Atribuo isso, em parte, ao crescimento mais rápido e à melhora da produtividade. Também há a demanda contínua pelo dólar como moeda de reserva global. Esses fatores elevam um pouco a taxa natural. Não muito, mas um pouco. Assim, para a taxa real, talvez algo ao redor de 1,25%, e com 2% de inflação, isso levaria a algo como 3,25% para a taxa básica.
Valor: O Fed foi longe demais no ‘quantitative tightening’ e na redução do balanço?
Bullard: O comitê decidiu interromper a redução do balanço e agora parece que, em algum momento, eles voltarão a comprar títulos do Tesouro. Acredito que isso conflita com o que o Tesouro deseja. O secretário do Tesouro prefere um balanço menor, e não está totalmente claro como isso será conciliado com a visão do novo presidente do Fed. O comitê também deseja usar ‘quantitative easing’ apenas em circunstâncias excepcionais. Ainda há muitas questões em aberto sobre o balanço e seus objetivos de longo prazo. Ele está significativamente maior do que costumava ser, e não está claro se precisa permanecer nesse tamanho. O Fed também paga juros sobre as reservas, o que tem implicações para a estabilidade financeira que, acredito, ainda não foram testadas. Ainda falta muito para chegarmos a um entendimento comum sobre onde estamos.
Valor: Observamos alguma pressão nos mercados monetários em outubro. Isso preocupa? Tem relação com o aperto do balanço?
Bullard: Antes, havia muito mais tolerância à volatilidade nos mercados, enquanto diferentes participantes gerenciavam sua liquidez, e deixava-se que esse processo ocorresse. Não é necessário eliminar totalmente a gestão de liquidez. Existem mecanismos permanentes, e os agentes podem usá-los se quiserem, mas têm sido relutantes. Esse é um ponto que ainda pode ser ajustado.
Fonte: Valor Econômico
