Por Lucianne Carneiro — Do Rio
05/07/2022 05h01 Atualizado há 4 horas
Das famílias aos pequenos negócios: as compras nos supermercados precisaram de adaptações para dar conta dos preços mais altos. Redução de quantidade, mudança de marcas, pesquisa de ofertas e suspensão da compra de algum produto são as principais estratégias citadas para lidar com o impacto da inflação no orçamento.
Para dar prioridade a frutas e legumes para o filho Gael, de um ano, Bianca Kelly Gonzaga Pereira, de 26 anos, tem deixado fora do carrinho do supermercado proteínas mais caras como a carne e supérfluos que costumava comprar antes, como biscoitos e doces. Com os R$ 300 que fazia as compras para o mês há alguns meses, agora só consegue abastecer a casa por no máximo duas semanas.
“Somos três pessoas em casa, contando também meu marido. Com o que gastava para o mês, agora só dura, no máximo, duas semanas. A gente tem comido mais ovo e linguiça, a carne ficou muito cara nem dá para pensar. Deixei as besteiras de lado e pesquiso bem mais os preços atrás de promoções, vou comprando aos poucos”, conta.
Saídas para comer fora ou pedidos de comida por “delivery” foram hábitos abandonados pela família; “A gente saía para comer ou pedia [pelo] iFood. Agora, um hambúrguer dá R$ 40. A gente teve que cortar esse lazer, não dá para arcar com um gasto desse”, diz.
A aposentada Jerusa Maria Alves Prado, de 73 anos, também tem na ponta na língua a diferença no preço de suas compras. Com uma nota fiscal de R$ 418 do supermercado na mão, diz que o gasto não saía por mais de R$ 200 há alguns meses: “Tudo aumentou. Feijão, manteiga, açúcar, carne, frutas, queijo… Material de limpeza está uma fortuna”, afirma.
Mesmo as marcas que costumavam ser mais em conta tiveram alta de preço, nota ela, e está difícil fazer substituições de marcas. “Com esses preços, a gente acaba ficando mais nos produtos básicos”, diz.
A redução de quantidades foi a alternativa encontrada pelo aposentado José Monte Novo, de 79 anos, para fazer as compras continuarem cabendo no seu orçamento. A cada ida ao supermercado, diz, é um susto.
“Cada dia pensa uma coisa de preço e é outra. Toda vez é um susto. Não tem outro jeito. O que eu levava cinco [unidades], levo dois. O que eu comprava dois, agora não compro nenhum”, diz. Por uma compra de apenas cinco itens, pagou R$ 47. Na sacola, apenas pão (dois tipos), queijo, melancia e laranjas.
Fundador de uma empresa que hoje fornece cerca de 200 refeições por dia, Bruno Braga Miquelino, de 45 anos, sai todo dia em sua bicicleta percorrendo supermercados atrás de promoções para garantir o preço mais baixo possível para os insumos. Embora também tenha fornecedores, diz que a pesquisa é fundamental para garantir as ofertas que vão ajudar a melhorar sua margem de lucro afetada pela inflação.
“Os preços aumentaram muito. Um quilo de frango, que há uns meses saía por R$ 12, agora está mais de R$ 20. A gente tem que ir onde está mais barato, tudo para amenizar essa inflação”, diz ele, conhecido como “Bruno Mineiro”, já que é natural de Peçanha (MG).
A pesquisa é ainda mais necessária, segundo ele, porque não consegue repassar grande parte do aumento de seu custo para o preço das refeições. O prato de frango à parmegiana, por exemplo, que custava R$ 20, aumentou para R$ 22. Esse aumento de 10%, no entanto, conta, ficou muito abaixo do que foi a alta do seu custo.
“Mesmo repassando só uma parte tem gente que reclama. Por isso a gente precisa pesquisar muita promoção, para segurar um pouco a perda da margem”, afirma.
Além das pesquisas permanentes de preços de insumos, Miquelino lançou recentemente refeições em embalagens menores, de 350 gramas, e também opções de caldos e sopas. Se o preço médio das refeições fica em torno de R$ 20, esses novos produtos têm preços mais perto dos R$ 15.
Fonte: Valor Econômico
