Na onda de más notícias nas últimas semanas que compromete o projeto de reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã merece um lugar destacado.
A guerra é corrosiva para o presidente no plano da economia e da opinião pública. Quanto antes acabar, melhor para Lula. Alíquotas zeradas de PIS e Cofins para a importação de diesel e subvenção a produtores e importadores, principais itens do pacote anunciado nesta quinta-feira pelo governo, podem se tornar medidas paliativas caso o fechamento do estreito de Ormuz se prolongue. Não impediriam o impacto inflacionário de um novo Choque do Petróleo, exatamente durante a campanha eleitoral. Deve afetar o setor produtivo também, com solavancos nas exportações de carne para o Oriente Médio.
Na esfera da opinião pública, política externa é um tema tóxico para Lula. Expõe o presidente a debates nas redes sociais e na mídia em que a direita é mais organizada e mobilizada do que a esquerda. Foi-se o tempo em que política externa não mobilizava o eleitor, destaca o professor Feliciano Sá Guimarães, do Instituto de Relações Internacionais da USP, estudioso tanto do impacto do cenário externo na política doméstica brasileira quanto da influência dos temas mundiais no debate virtual.
A comprovar o raciocínio de Sá Guimarães está um relatório do Instituto Democracia em Xeque (IDX), elaborado a pedido desta coluna, sobre o debate da guerra do Irã no público digital brasileiro entre 28 de fevereiro e 10 de março.
O IDX captou nada menos que 3,7 milhões de postagens brasileiras sobre a guerra nas plataformas Youtube, Instagram, Facebook, TikTok e X. Entre 19 e 20 horas de 28 de fevereiro, dia do início do conflito, o tema foi mencionado 54 mil vezes em 60 minutos.
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Deste fluxo o IDX pinçou 19.342 publicações de influenciadores e agentes políticos, que produziram durante os dez dias de análise 307 milhões de interações.
A direita foi responsável por 40% das postagens e das interações. A esquerda publicou 26% do total, mas gerou apenas 12% do engajamento. O centro é irrelevante no debate: fez 2% das postagens e teve 8% das interações. O noticiário da imprensa operou como vetor que tracionou a circulação. Direita e Esquerda foram vetores de repercussão, mas ficaram a reboque do que a mídia tradicional divulgou.
A narrativa da direita destacou o caráter altamente repressivo do regime do Irã e o envolvimento do governo daquele país com o patrocínio de organizações terroristas. A mistura de política e religião também se fez presente, com menções ao choque do islamismo com a cultura ocidental judaico-cristã. Não faltaram associações do governo Lula ao regime dos aiatolás, com a lembrança da visita do então presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad ao Brasil em 2009 e do vice-presidente Geraldo Alckmin ao Irã em 2024.
A esquerda argumentou que houve uma violação ao direito internacional, uma agressão de caráter imperialista e morte desnecessária de civis. Alertou para o risco de uma escalada em uma guerra regional mais ampla que leve a um colapso econômico global.
Sá Guimarães, que viu o estudo, comentou que a presença da esquerda no debate, ainda que minoritária, surpreendeu. Ele levanta a hipótese que seja um subproduto de uma mobilização digital contra Israel provocada pela retaliação desproporcional daquele país contra a população civil palestina na Guerra de Gaza. A resposta brutal do governo de Netanyahu ao ataque terrorista do Hamas de outubro de 2023 quebrou a onda de solidariedade inicial, que no Brasil teve como alavanca a identificação da população evangélica com o judaísmo.
A continuidade da guerra é ruim para Lula porque alimenta uma discussão em que o presidente muito mais perde do que ganha, de acordo com Sá Guimarães. “Existem cinco temas salientes na política externa, que afetam o debate público no Brasil: Venezuela, Irã, Israel, Palestina e Trump. Este conflito atual só não trata da Venezuela”, comentou.
Especialistas em pesquisas eleitorais desprezam a questão externa como motivador de voto no Brasil. Política Externa jamais aparece no rol de preocupações do eleitor. Não é um decisor de voto, mas é um elemento aglutinador, que mobiliza a plateia e a leva a tentar estabelecer alinhamentos. No caso da guerra da Ucrânia em 2022 a proximidade com a Rússia gerou constrangimentos tanto a Lula quanto a Bolsonaro e a soma foi zero. No caso da guerra atual é diferente: Lula se empenhou muito tanto agora como em seu primeiro governo em transformar o Irã em um aliado estratégico. A guerra por si só não decide voto, mas reforça a polarização no Brasil de uma forma que torna mais difícil ao petismo atrair o eleitor que a rechaça. E o impacto na economia deve bater direto na avaliação de governo.
Fonte: Valor Econômico
