PEQUIM — Na China, as vendas de imóveis novos caíram para o nível mais baixo em mais de 15 anos e os preços dos apartamentos usados estão despencando. Milhões de famílias, afetadas pela desvalorização de suas casas, reduziram seus gastos. Os governos locais, que dependem fortemente do setor imobiliário para arrecadar receitas, estão com dificuldades para pagar seus funcionários públicos.
No início do ano passado, muitos na China temiam que uma guerra comercial com o presidente Donald Trump pudesse ser o maior desafio para a economia. No entanto, o superávit comercial geral da China aumentou no ano passado, enquanto o verdadeiro problema para Pequim se revelou uma crise no mercado imobiliário que começou há quatro anos e vem se agravando a cada mês.
Apesar de todos os problemas econômicos desencadeados pela lenta crise do mercado imobiliário chinês, os estatísticos da China continuam a relatar um crescimento econômico previsivelmente estável, impulsionado por um boom nas exportações que gerou um superávit comercial recorde de US$ 1,19 trilhão em 2025.
Nesta segunda-feira, 19, o Departamento Nacional de Estatísticas informou que a economia da China cresceu 5% no ano passado, exatamente o mesmo que no ano anterior. A taxa de crescimento oficial atingiu a meta do governo, estabelecida em março, pelo segundo ano consecutivo.
A economia chinesa se expandiu de outubro a dezembro a um ritmo que, se prolongado por um ano inteiro, representaria uma taxa de crescimento de 4,9%.
As exportações robustas estão compensando o fraco consumo das famílias urbanas e rurais. Em novembro, as vendas no varejo mal cresceram em relação ao ano anterior, marcando o pior desempenho mensal do consumo desde o início da pandemia de covid-19. Em dezembro, as vendas no varejo caíram 0,1%, mesmo após o fraco desempenho de novembro.
“De um modo geral, a economia nacional manteve o ritmo de progresso constante em 2025, apesar das múltiplas pressões”, disse Kang Yi, comissário do departamento de estatísticas, em uma coletiva de imprensa para anunciar o desempenho da economia.
A construção civil e outras atividades imobiliárias representaram aproximadamente um quarto da economia chinesa até 2021. Portanto, a forte desaceleração do setor prejudicou famílias e indústrias em todo o país.
“A forte queda no setor imobiliário explica quase que totalmente o fraco desempenho econômico dos últimos três anos”, escreveu Zhu Tian, professor de economia da China Europe International Business School em Xangai, em uma análise publicada em novembro.
Arrependimento
A recessão também provocou arrependimento entre os compradores. Zoe Zhao, uma funcionária pública de 27 anos em Xi’an, cidade no centro da China, comprou um imóvel com seus pais em outubro de 2024, depois que os preços despencaram, apenas para vê-los cair ainda mais.
“É difícil dizer que não me arrependo, mas pelo menos posso me consolar com o fato de que este apartamento é para eu morar”, disse ela. “Ainda bem que não compramos no auge.”
Dados oficiais mostram que os preços caíram um quinto desde 2021 — aproximadamente a mesma queda média em todo o país durante a crise imobiliária de 2008 a 2010 nos Estados Unidos. Dados não oficiais, no entanto, indicam que as quedas de preços na China são pelo menos duas vezes maiores.
Descontos de até 80%
O número de transações estagnou, principalmente para apartamentos recém-construídos. Um relatório divulgado no mês passado pela China Index Academy, uma empresa de pesquisa imobiliária, afirmou que os imóveis anunciados para venda permanecem no mercado por uma média de 22,2 meses antes de serem vendidos.
Os compradores têm exigido descontos de até 80% em relação ao pico do mercado em 2021. Os vendedores têm se recusado a aceitar perdas tão elevadas, o que levou ao congelamento do mercado de apartamentos em muitas cidades.
Sam Radwan, CEO da Enhance International, uma empresa de consultoria imobiliária de Chicago, afirmou que, em 45 anos acompanhando o mercado imobiliário em mais de duas dezenas de países, nunca viu imóveis ficarem tanto tempo sem vender como agora na China. Durante suas recentes viagens pelo país, ele disse que os profissionais do setor imobiliário continuam extremamente pessimistas.
“Você conversa com todo mundo, e eles sabem que não há solução”, disse Radwan. “Isso não vai se resolver na próxima década.”
A queda nos preços abalou a confiança no mercado imobiliário, antes considerado o lugar mais seguro para investir as economias das famílias. Os líderes chineses agora buscam restaurar a confiança no mercado.
Censura
As autoridades governamentais começaram a censurar fortemente as postagens online pessimistas sobre o mercado imobiliário em Pequim e Xangai no final do ano passado. A divulgação pública dos índices de preços de apartamentos do setor privado mais conhecidos também foi suspensa.
Governos locais têm tentado adquirir apartamentos não vendidos de construtoras em dificuldades para transformá-los em moradias populares. Mas a queda na arrecadação de impostos e vendas de terrenos significa que os governos locais não podem subsidiar essas transações.
Sem grandes descontos — algo que as construtoras relutam em fazer —, os governos locais sofrerão grandes prejuízos com o aluguel dos apartamentos, disse Radwan.
Qual é a fórmula da crise
A causa dos problemas do mercado imobiliário é uma vasta oferta de moradias recém-construídas, aliada a um declínio no número de casamentos e nascimentos a cada ano, o que diminuiu o ímpeto para a compra de novas casas.
A China tinha cerca de 40,88 metros quadrados de moradia para cada homem, mulher ou criança vivendo em cidades em 2024, um aumento em relação aos 31,59 metros quadrados de apenas 15 anos antes.
Era menos de 10 metros quadrados por pessoa antes da morte de Mao Tsé-Tung em 1976.
c.2026 The New York Times Company
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Fonte: Estadão