“A China passará a aplicar ao setor agrícola a mesma lógica de desenvolvimento que levou ao crescimento industrial nas últimas décadas: foco em pesquisa, foco em tecnologia e direcionamento de capital”, afirma a especialista em China Larissa Wachholz, sobre as mudanças que começam a redefinir a política agrícola da segunda maior economia do mundo.
Considerada uma das principais especialistas brasileiras em relações sino-brasileiras, agronegócio, investimentos, infraestrutura e políticas públicas, ela é senior fellow do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI) e integrante do Comitê Consultivo do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC). Larissa falou a um grupo de cerca de 30 produtores rurais, empresários e desenvolvedores de sementes no Brasil que embarcaram para uma missão técnica ao país asiático nesta semana. A Forbes Agro embarcou junto e nos próximos dias conta os detalhes dessa viagem. O roteiro coincide com a implementação do 15º Plano Quinquenal, que transforma agricultura, sementes e biotecnologia em prioridades estratégicas do governo chinês.
Segundo Larissa, a segurança alimentar passou a ocupar um novo patamar dentro das prioridades de Pequim. O abastecimento deixou de ser apenas uma política voltada à produção agrícola para integrar a estratégia nacional de estabilidade econômica e social. “Por que o governo chinês está tão preocupado com segurança alimentar? Porque eles têm 1,4 bilhão de pessoas para alimentar, porque isso na China derruba sistemas, causa grande instabilidade social e tudo que o Partido Comunista Chinês não quer é instabilidade social.”
A mudança ganhou força após uma sequência de crises que expôs vulnerabilidades na cadeia de abastecimento. Entre 2017 e 2018, a peste suína africana reduziu pela metade o rebanho de suínos do país, principal proteína consumida pelos chineses. Em seguida vieram a pandemia de Covid-19 e o aumento das tensões comerciais com os Estados Unidos, fatores que reforçaram a necessidade de ampliar a produção doméstica e reduzir dependências externas.
Ao mesmo tempo, a China enfrenta outro desafio estrutural. O país envelhece rapidamente. A política do filho único, implantada na década de 1980 e posteriormente flexibilizada, produziu uma mudança demográfica que hoje preocupa o governo. Há mais pessoas se aposentando do que nascendo, cenário que deverá reduzir a população nas próximas décadas e ampliar a pressão sobre produtividade, automação e inovação tecnológica. “Algumas estimativas dão conta de que a China poderá ter em 2100 aproximadamente metade da população que ela tem hoje. Então é realmente uma queda bastante importante.”
Por isso a tecnologia passou a ser tratada como política de Estado. Robótica, inteligência artificial, mecanização, biotecnologia e agricultura digital fazem parte da mesma estratégia que nos últimos anos transformou a China em uma potência na produção de veículos elétricos, painéis solares e inteligência artificial.
“A China passará a aplicar ao setor agrícola a mesma lógica de desenvolvimento que levou ao crescimento industrial nas últimas décadas: foco em pesquisa, foco em tecnologia e direcionamento de capitais.”
Segundo Larissa, a decisão também responde ao objetivo histórico do país de reduzir dependências tecnológicas em setores considerados estratégicos. “A China nunca quis depender de tecnologia estrangeira para levar a sua grande produção agrícola adiante.”
No caso das sementes, o governo atualizou a legislação do setor, ampliou investimentos em pesquisa, flexibilizou regras para organismos geneticamente modificados e passou a direcionar recursos para empresas e centros de desenvolvimento. “As sementes se tornaram uma grande prioridade estratégica nacional da China. Na ponta da agricultura, os chips são as sementes.”
O modelo está baseado em planejamento de longo prazo e sua execução é dada como certa. A cada cinco anos, o governo estabelece prioridades econômicas e tecnológicas que orientam investimentos públicos, financiamento, pesquisa científica e políticas industriais. Para Larissa, esse mecanismo ajuda a explicar a velocidade com que o país reorganiza setores considerados estratégicos. A recuperação da suinocultura após a Peste Suína Africana é um dos exemplos para mostrar como as metas anunciadas por Pequim costumam ser recebidas fora da China, muitas vezes com ceticismo por serem consideradas ousadas demais.
Depois que a doença eliminou cerca de metade do plantel de suínos entre 2017 e 2018, o governo estabeleceu um cronograma para recompor a produção. “Todos nós, brasileiros e outros estrangeiros, achamos que foram excessivamente ambiciosas e ousadas. E nós decidimos não acreditar”, afirmou. Mas a China reorganizou o sistema de produção, investiu em digitalização e tecnologia e avançou na recuperação do rebanho. “Acho que vale a pena ouvir o que os chineses têm, quando eles se impõem e como pretendem fazer, e não apenas já partir da dúvida, que é uma atitude que vejo com frequência no Brasil.”
Então, o que a China quer?
Mas a estratégia chinesa da não dependência não significa que o país deixará de importar alimentos. Para Larissa, esse é um dos equívocos mais frequentes quando se analisa a relação comercial entre Brasil e China. É fato que o país asiático já produz volume suficiente para atender às necessidades calóricas da população e que agora o desafio está em sustentar um padrão de consumo que mudou rapidamente nas últimas décadas.
“A China não precisa do Brasil para não passar fome. Onde ela precisa do Brasil e de outros fornecedores específicos é na diversificação.”
A transformação começou com a migração em massa da população do campo para as cidades. Hoje, cerca de 65% dos chineses vivem em áreas urbanas. O aumento da renda modificou a dieta da população, elevando o consumo de carnes, frutas e alimentos processados. Na avaliação da especialista, esse movimento explica boa parte do crescimento do agronegócio brasileiro nas últimas duas décadas. “O Brasil passou a ser um grande fornecedor, principalmente de soja para produção de ração animal, na medida em que ocorreu a maior migração que o mundo já viu do campo para a cidade.”
Essa nova classe média chinesa consolidou um padrão de consumo que exige uma oferta permanente de alimentos de maior valor agregado. “A classe média urbana quer comer carne todo dia, quer chupar manga doce, quer ter acesso a uma uva de mesa de qualidade, quer frutas para as crianças todos os dias. Essa expectativa não existia há 20 ou 30 anos.”
Ao mesmo tempo, Pequim trabalha para reduzir a dependência externa em produtos considerados estratégicos. Um dos exemplos é a carne suína. Outro envolve a soja. Embora a China continue sendo o maior comprador mundial do grão, o governo passou a investir em genética, melhoramento de sementes e aumento de produtividade para reduzir a necessidade de expansão das importações.
Isso ajuda a explicar a declaração do Ministério da Agricultura da China, que previu as importações de soja para o ano-safra de 2026/27 em 95,5 milhões de toneladas métricas, uma queda de 7,6% em relação ao ciclo anterior, por causa do encolhimento do plantel de porcas. Larissa diz sobre a necessidade de o Brasil acompanhar as mudanças na demanda chinesa que, segundo ela, não é a de interromper as compras externas, mas conter o ritmo de crescimento dessa dependência. “O problema não é a China continuar importando 100 milhões de toneladas de soja por ano. A questão é como chegar a um patamar que não provoque uma elevação contínua dessa necessidade.”
Larissa também lembra que a vulnerabilidade ficou evidente durante o agravamento da disputa comercial entre China e Estados Unidos. Dependente de grandes fornecedores externos, o país passou a considerar estratégico ampliar sua autonomia tecnológica no campo. “Por que ela se deu vulnerável na soja? Porque ela era vulnerável.”
Isso significa que acompanhar essa transformação é mais importante do que discutir se todas as metas chinesas serão cumpridas. O que deve orientar produtores, empresas e formuladores de políticas públicas é a direção escolhida pelo país. “Eles estão comprometidos com isso e vão colocar recurso e capital para aconteça.” E mudança também abre novas oportunidades para o agronegócio brasileiro. A transição energética conduzida pela China, por exemplo, deverá ampliar a demanda por matérias-primas destinadas à produção de combustíveis sustentáveis para aviação e navegação, além do etanol de milho e de novos produtos de base biológica. “Isso não deve ver isso como necessariamente prejudicial ao Brasil. São mudanças na dinâmica chinesa que podem representar oportunidades, na medida em que a gente consiga colaborar mais com a China do ponto de vista da tecnologia e da competitividade.”
Fonte: Forbes Brasil


