A turbulência que atingiu o mercado de crédito privado desde março reduziu o apetite por fundos do segmento e aumentou a procura por títulos bancários, em busca de maior segurança. O resultado é um rendimento de CDBs, por exemplo, bem mais modesto frente ao CDI. A rentabilidade mensal nominal foi de 1,01% ao mês em janeiro, frente a um CDI de 1,16%, para 0,72% em junho, para um CDI de 1,12%. No semestre, a média ficou em 5,30% e o CDI, em 6,84%.
Segundo relatório da área de pesquisa do BTG Pactual, o estoque de CDBs, de R$ 2,9 trilhões em maio, cresce 8% no ano, e o de Letras Financeiras, de R$ 1 trilhão, 6,7%. Já o de LCI, LCA e LIG, que apresentaram forte crescimento no ano passado, está estagnado em relação a dezembro, em R$ 1,2 trilhão.
A mudança de humor em relação ao crédito privado aconteceu após os pedidos de recuperação extrajudicial de Raízen e GPA, dona da rede Pão de Açúcar, e de dúvidas em relação ao balanço da Aegea. A sequência de eventos levou a uma alta dos prêmios de risco, principalmente nos fundos de infraestrutura, e muitos amargaram cota negativa em março e abril.
Dados da área de pesquisa do BTG Pactual mostram que, no ano até 19 de junho, os fundos de crédito privado acumulam captação líquida negativa de R$ 85 bilhões, o que corresponde a 5,1% do patrimônio líquido, depois de dois anos de forte procura.
O relatório destaca que o ritmo vem desacelerando, de R$ 31 bilhões em abril e R$ 20,8 bilhões em maio para R$ 4,6 bilhões no mês passado (até 19). O desempenho também vem melhorando, segundo o estudo. A rentabilidade foi a 114% do CDI em maio e elevou o retorno acumulado no ano para 99% do CDI.
Começamos a ter vontade de aumentar as alocações, mas as oportunidades ainda não estão claras”
A captação dos fundos de infraestrutura também está negativa em R$ 20 bilhões no ano, equivalentes a 6,5% do PL. Em crédito privado, as alocações da Nau Capital, um multifamily office, estão no menor patamar dos últimos quatro anos, segundo o CIO Mauricio Valadares. Para ele, a queda dos prêmios de risco verificada até fevereiro vinha tornando ruim a relação entre risco e retorno.
Com a alta dos spreads (ou seja, queda dos preços dos papéis), bons negócios podem começar a aparecer e a tendência é que as alocações aumentem. “Começamos a ter vontade de aumentar as alocações, mas as oportunidades ainda não estão claras.” Atualmente 80% da carteira estão em papéis com avaliação de risco mais alta, os chamados “high grade”.
Pesquisa da área de pesquisa do banco ABC Brasil mostrou, pela primeira vez neste ano, maior otimismo de gestores. Considerando as debêntures em CDI, 56% dos investidores esperam aumento de pelo menos 10% nas emissões. Nas incentivadas, o número é de 47%.
Conforme a pesquisa, que ouviu 88 investidores, contribuiu para a visão mais construtiva a redução da expectativa de alta dos spreads. Para 66%, haverá estabilidade ou redução dos prêmios de risco. No primeiro trimestre esse número era de 21%.
Para Alexandre Silverio, CEO da Tenax Capital, está cada vez mais claro que a barra vai subir no segmento. “Os gestores vão precisar ser mais seletivos, porque a dispersão entre os papéis vai aumentar.” Mas ele também acredita em retomada. “Houve um ajuste de preço razoável e o nível atual já está mais atrativo.”
Fonte: Valor Econômico


