A posição do Brasil no ranking global de renda variável, considerando ofertas de ações e vendas de participações em blocos, voltou a cair. O país está agora na 19ª posição, atrás de mercados como Arábia Saudita, Bélgica e Israel, depois de perder 12 colocações em apenas três anos.
Se retirada do cálculo a venda de ações por meio blocos, em que um lote de papéis é negociado sem que haja uma oferta pública, o Brasil seria superado também por Cingapura.
O mercado brasileiro ficou muito restritivo para a renda variável nos últimos anos, por razões locais e globais. A percepção é que poderá se aquecer depois de agosto, passadas as férias de verão no Hemisfério Norte, dado o fluxo de entrada de estrangeiros que tem sido visto na bolsa. Esse movimento deve favorecer a valorização doa ativos e pode ajudar o Brasil a retomar alguns postos.
No entanto, ainda não entrou nos cálculos qual será o impacto do tarifaço sobre produtos brasileiros anunciado na semana passada pelo presidente americano, Donald Trump. A medida gerou volatilidade adicional aos mercados, mas a percepção inicial é a de que o fluxo de capital que tem se direcionado aos emergentes ainda beneficiará o país.
O Brasil estava entre os dez maiores mercados de renda variável em 2023, na nona colocação, depois de ter figurado em sétimo lugar em 2022 e em décimo em 2021. Porém, no ano passado, o país registrou uma queda brusca, para a 18ª colocação. O mercado local tem sido penalizado pelo ambiente de juros altos e, com isso, está perto de completar o quarto aniversário sem nenhuma oferta inicial de ações (IPO, pela sigla em inglês).
O levantamento, feito pelo Bank of America para o Valor, mostra que o país registrou até o momento cerca de R$ 17,6 bilhões (US$ 3,2 bilhões) em operações de renda variável que foram distribuídas a mercado, incluindo os “block trades”, que são os leilões em bolsa de valores para a venda de posições de acionistas. O dado não considera a oferta subsequente de ações da fabricante de autopeças Fras-le, precificada no fim da semana passada, um dia depois do anúncio de Trump. A operação movimentou R$ 400 milhões. Por ser de pequeno porte, não altera, de toda forma, a posição do Brasil.
Nesta semana, ainda haverá a oferta da Gafisa, que poderá chegar em R$ 100 milhões, mas tem apenas R$ 27 milhões garantidos pela Planner. A corretora, único coordenador da oferta, assegura a colocação da oferta-base. Na prática, trata-se de um aumento de capital e não é esperada demanda de mercado.
Dentre os maiores blocos para vendas de ações neste ano estão o da Vale, com a Cosan como o acionista vendedor, e a operação em que o Pátria reduziu a participação na rede de academias Smartfit. Entre as poucas ofertas subsequentes de 2025, está a da Caixa Seguridade, que movimentou R$ 1,3 bilhão e teve como objetivo recompor a liquidez mínima exigida no Novo Mercado da B3Cotação de B3. Outra operação foi a da empresa de tratamento de resíduos Orizon, de R$ 635 milhões, com a participação de acionistas e do fundo EB Capital, que suportaram a transação.
O mercado fraco para oferta de ações se reflete na redução das receitas dos bancos de investimento que atuam na área de renda variável (ECM). Conforme dados da consultoria Dealogic, que coleta dados de mercado de capitais em todo o mundo, no primeiro semestre as receitas oriundas dessa atividade somaram US$ 35 milhões no Brasil, recuo de 14,2% ante o visto em igual intervalo de 2024.
O país registrou até o momento R$ 17,6 bilhões em operações de renda variável que foram distribuídas a mercado
Nos Estados Unidos, que também observaram nos últimos anos um mercado menos pujante para ofertas de ações por causa da volatilidade e dos juros altos, o nível de atividade agora está em alta. Neste ano, o volume financeiro já chega a US$ 122 bilhões, colocando o país no topo da lista. Em segundo lugar, aparece a Índia, que ultrapassou a China, em uma consequência da guerra comercial.
Na América Latina, alguns países têm registrado uma retomada das ofertas de ações. A Argentina anotou a primeira operação em oito anos, em meio ao otimismo de investidores estrangeiros com as medidas econômicas do presidente Javier Milei. O HSBC vendeu ações que ainda detinha do Banco Galicia, em operação que movimentou US$ 660 milhões. No México, a Fibra busca um IPO de cerca de US$ 400 milhões.
A fatia brasileira hoje no mercado global de renda variável está em apenas 1% – foi de 2,8% em 2022. Isso significa que a participação do país está muito inferior à representatividade do Brasil no Produto Interno Bruto global, que hoje é de 2,5%.
O corresponsável pelo banco de investimento do Bank of America no Brasil, Bruno Saraiva, reconhece que o mercado local perdeu relevância, mas o fluxo estrangeiro que tem sido observado na bolsa pode ajudar. “De três a quatro semanas temos mais conversas de capital de longo prazo para investir no Brasil”, diz.
De acordo com ele, há uma demanda reprimida de empresas para buscar captação via oferta de ações. No entanto, isso só deve acontecer no ano que vem, tendo em vista o fim do ciclo de aperto monetário no país. “Estamos construtivos para 2026, com mais fluxo vindo aos países emergentes, ajudando o Brasil a voltar a ter uma representatividade nesse mercado”, afirma.
O responsável pelo banco de investimento do UBS BB, Anderson Brito, diz que a bolsa brasileira teve um número limitado de ofertas, mas o segundo semestre caminha para ser mais aquecido. Segundo ele, com a valorização de uma série de ações, mais “follow-ons” devem ocorrer, feitos por empresas que estão na alta histórica ou outras que vão precisar acessar o mercado de ações para ajustar a estrutura de capital e reduzir o endividamento.
Para o responsável pela área de renda variável do Goldman Sachs no Brasil, Fabio Federici, depois de um semestre de atividade fraca no mercado local, as perspectivas são positivas para a segunda metade do ano. Com a bolsa local subindo mais de 30% em dólar no ano, o cenário começa a se abrir para transações, segundo ele. “Vemos um segundo semestre com novos block trades e com ‘follow-ons’ primários para redução de alavancagem e alguns casos mais pontuais para a realização de investimentos”, afirma.
Em relação às aberturas de capital, em um primeiro momento, Federici acredita que poderá haver empresas buscando as bolsas nos Estados Unidos.
Fonte: Valor Econômico


