Após quatro reuniões consecutivas em 2025 reforçando a mensagem de “juros em patamar restritivo por um período prolongado” com manutenção da Selic inalterada, a primeira reunião do Conselho de Política Monetária (Copom) em 2026 deve marcar uma mudança na sinalização — pelo menos é o que o mercado espera. O consenso é de uma última manutenção da taxa agora, ainda em 15%, abrindo espaço no comunicado para o corte na próxima reunião, em março. Para os especialistas, a atividade surpreendendo positivamente e a inflação ainda persistente, especialmente a de serviços, dificultaram o início dos cortes já em janeiro.
A visão do mercado e dos entrevistados pela Capital Aberto é que o balanço de riscos do Copom inclui fatores como expectativas de inflação ainda desancoradas, mercado de trabalho sobreaquecido, e o risco de uma eventual depreciação persistente do câmbio.
Para o banco BMG, a expectativa é de manutenção em janeiro, com o início do afrouxamento monetário tendo início apenas em março. Segundo Flávio Serrano, economista-chefe do Banco BMG, os dados recentes de atividade, principalmente no mês de novembro, acabaram indo na direção ideal para o Banco Central (BC) ficar um pouco mais confortável e começar a cortar a taxa de juros. Segundo o monitor do Produto Interno Bruto (PIB) da FGV, o PIB brasileiro subiu 1,1% em novembro ante outubro, crescimento de 1,9% na comparação com novembro de 2024.
De acordo com o economista, o cenário está indo na direção do esperado, de desaceleração da atividade gradual, a melhora da dinâmica de inflação, bem como a melhora das projeções de inflação, mas na questão da desaceleração, boa parte dos dados de novembro surpreendeu para cima, “o que acabou atrapalhando um pouco”. “A reancoragem das expectativas de inflação é parcial apenas, e parou um pouco de melhorar. Temos o IPCA esse ano de 4%, para o ano que vem 3,80%, para os demais anos 3,5%”, diz Serrano. “Elas não seguiram melhorando, e mesmo na questão da inflação, apesar da dinâmica melhor, a inflação de serviços ainda incomoda, ainda está um pouco alta. Juntando tudo isso, talvez janeiro seja um pouco cedo para começar a cortar. Acredito que está mais para março ou abril.”
A visão na Rio Bravo é similar. Para Evandro Buccini, sócio e diretor de gestão de crédito e multimercado da Rio Bravo, mesmo que a inflação esteja mostrando comportamento benigno, ela é puxada majoritariamente por comercializáveis e bens sensíveis ao câmbio, o que não engloba a dificuldade que o BC tem tido em lidar com a inflação de serviços mediante um mercado de trabalho ainda sobreaquecido.
Na análise do Conselho Federal de Economia (Cofecon), que acredita “ter passado da hora e reduzir a Selic”, o corte também não deve vir tão cedo. “O ritmo de crescimento do PIB brasileiro caiu de 4% em meados de 2024 para cerca de 2% no fim de 2025. A expectativa para 2026 é de 1,5% e o BC tem se mostrado nada sensível a essa novembro. Dessa forma, infelizmente não se deve esperar qualquer redução substantiva na Selic, nem mesmo uma redução no início desse ano”, opina Júlio Miragaya, conselheiro do Cofecon.
Para a Suno Research, a expectativa também é de que o Banco Central mantenha a taxa Selic em 15% a.a. na reunião de janeiro, preservando a estratégia de cautela adotada ao longo dos últimos trimestres e aguardando maior confirmação dos sinais já observados nos dados antes de iniciar o processo de flexibilização monetária. Mas avaliam “que o Comitê pode promover um ajuste marginal na comunicação, preparando o terreno para o início do ciclo de cortes em março de 2026, em 0,50 p.p”, diz economista-chefe da Suno Research, Gustavo Sung, em nota. A casa projeta uma Selic de 12,5% a.a. no final deste ano, IPCA de 4,0% em 2026 e de 3,8% em 2027.
As projeções de inflação do Focus seguem diminuindo — todavia, os economistas avaliam que o país ainda está um pouco distante da meta, mesmo apresentando recuperação. Para Serrano, essa melhora se deu muito em função de bens industriais e alimentação no domicílio. Já Buccini vê que a desinflação tem andado de mãos dadas com a melhora do câmbio e condições de oferta de produtos agrícolas, como um todo. Para o IPCA de 2026, a previsão do Focus é de 4,02%, segundo o Boletim do dia 19, de 4,05% na semana anterior. Já para 2027 é de 3,80%, inalterada nas últimas semanas.
Para os especialistas, mesmo que a questão das tarifas tenha aparentemente assentado, o ambiente externo também segue como possível fator de risco para a inflação doméstica. Tanto o aumento tarifário dos EUA, que gera preços mais altos internamente, afetando o IPCA, quanto tensão geopolítica, que impactam preços do petróleo (consequentemente combustíveis) e dólar, podem ser pontos de atenção. Para Miragaya, do Cofecon, esse efeito do ambiente externo na inflação se dará apenas de forma moderada e pontual, exceto se a agressiva política externa norte-americana levar a uma acentuação da crise política externa e provocar forte elevação do dólar ante o real.
Sem mudança drástica
Serrano acredita que o comunicado desta reunião venha com uma leve modificação, sem “mudanças drásticas”, mas com algumas “mudanças marginais”, como substituir o “por um período bastante prolongado” para “suficientemente prolongado” ou retirando o trecho que “não hesitará em subir a taxa de juros caso julgue necessário”. Mudanças sutis, mas que podem fazer muita diferença na parte de expectativa para o início do ciclo de corte de juros. Caso essa alteração não ocorra, a probabilidade de corte em março deve cair significativamente. Buccini também espera uma alteração no estilo de comunicação para algo mais ameno.
Sobre o ritmo dos cortes, o início em março é unânime, mas resta dúvida sobre a intensidade. Para os economistas, há a chance de redução de 25, mas não é improvável que o comitê comece já com 50bps, dado o nível muito restritivo da Selic. A expectativa é de juros finalizando o ciclo de cortes em um patamar de 12%.
Ainda entram na conta do trabalho do BC lidar com a volatilidade esperada para 2026, considerando as eleições no Brasil. Para Buccini, a elevação dos gastos públicos e essa incerteza só afetarão a conduta do BC se afetar dólar, essencialmente. Há fatores macroeconômicos que podem exercer pressões baixistas ao dólar (Trump, por exemplo) ao ponto de a volatilidade histórica das eleições não causar o devido impacto depreciativo na moeda. Já Serrano menciona que o período eleitoral a partir do segundo semestre tende a produzir mais volatilidade nos mercados, e com as reações para determinado candidato, o câmbio pode ser afetado e ficar mais alto. No entanto, em relação ao fiscal, um problema mais estrutural, deve “continuar pesando um pouco”, independentemente dos gastos desse ano, mas “já é uma preocupação consolidada” e integrada na visão de riscos dos agentes do BC.
Fonte: Capital Aberto
