No momento em que as maiores empresas de tecnologia dos Estados Unidos seguem entregando resultados expressivos e que governos ao redor do mundo não dão sinais de que pretendem ajustar os gastos públicos, o Citi Wealth sustenta uma visão otimista para o mercado acionário americano e pessimista para os títulos soberanos de longo prazo. Com a proximidade das eleições locais, a exposição ao Brasil também foi reduzida, à espera de uma sinalização sobre a política fiscal.
Em entrevista ao Intraday, o estrategista-chefe de portfólio do Citi Wealth, JP Coviello, avalia que as ações das ‘large caps’ dos EUA devem continuar entregando lucros robustos, diante da visão de que o ciclo da inteligência artificial ainda está apenas começando.
“Alguns dos resultados que vimos no segundo trimestre reforçaram nossa visão de manter uma posição acima da média nesses papéis, especialmente em algumas empresas de computação em nuvem entre as ‘hyperscalers’. Amazon e Microsoft, por exemplo, estão crescendo a taxas realmente impressionantes. A Amazon está fazendo um negócio de quase US$ 200 bilhões crescer 40% em relação ao ano anterior, o que é excepcional. O crescimento robusto no longo prazo continua vindo dos lucros das empresas americanas”, diz.
Os riscos relacionados às incertezas sobre os modelos de negócios das empresas como Anthropic e OpenAI, que têm sido as principais usuárias da infraestrutura construída pelas ‘hyperscalers’, são monitorados de perto, segundo Coviello, mas os primeiros sinais de retornos dos investimentos trazem alívio à tese.
“As ‘hyperscalers’ controlam a maior parte da capacidade computacional global e, para manter essa posição, precisam continuar investindo. Na nossa visão, para usar uma analogia, o bolo vai crescer. Sejam modelos de código aberto ou fechado, no fim, se tivermos modelos mais eficientes em termos de custo, isso provavelmente significará, como temos visto até agora, um maior uso de tokens e, portanto, um maior uso geral por parte dos usuários”, afirma.
No espaço da renda fixa, a visão do Wealth do Citi se mantém pessimista para os títulos de longo prazo. “O motivo por trás da substituição de parte da nossa posição em duration por ouro está diretamente relacionado ao que consideramos uma trajetória fiscal realmente insustentável. Os gastos fiscais ao redor do mundo parecem muito pouco propensos a diminuir. Quando olhamos ao redor do mundo, seja nos Estados Unidos ou na Europa, não temos muito interesse em manter posições na ponta longa dessas curvas de juros por causa das trajetórias fiscais”, diz.
No Brasil, a proximidade das eleições e as incertezas sobre a política fiscal do país fizeram a divisão de gestão de patrimônios do Citi reduzir a exposição “otimista” em ações brasileiras e, neste momento, há uma postura de espera por uma sinalização relacionada ao fiscal.
“Retiramos a posição em fevereiro porque, ao analisarmos historicamente episódios de desempenho superior dessa magnitude do Brasil em relação aos EUA, vimos que eles raramente se sustentaram. Então, foi uma visão tática e um momento para fazer uma pausa e monitorar a situação à medida que nos aproximamos da eleição. Foi uma oportunidade de avaliar como estão as pesquisas. Elas parecem muito apertadas”, afirma.
Os fatores que levaram ao investimento em Brasil no fim do ano passado, no entanto, ainda se mantêm presentes: um mundo de crescimento elevado com inflação alta, o que favorece países exportadores de commodities. Uma sinalização fiscal, neste contexto, pode aumentar o otimismo com o país. “Com certeza seria muito bom. Acho que, de uma forma ou de outra, parece inevitável. Dependendo de quem vencer, parece que haverá necessariamente um anúncio fiscal. Vamos monitorar isso e, depois, a sustentabilidade das medidas”, aponta.
Em conversas com o Valor ao longo do ano, investidores estrangeiros vinham argumentando que um quarto mandato de Lula não seria motivo de maior cautela, já que seu modo de governar já é amplamente conhecido pelos players. Mesmo assim, houve forte retirada de recursos do país em agosto.
“Você pode conhecer o Lula, mas também precisa conhecer seu portfólio. Se as coisas começarem a se voltar contra você, não acho que os investidores permanecerão posicionados por muito tempo”, diz.
“E ainda veremos, porque um Lula em um quarto mandato, pensando em seu legado, pode ser diferente de uma versão anterior do Lula, para melhor. Mas ainda não temos como saber isso”, avalia Coviello.
A recomendação atual para o Brasil é “neutra” no portfólio do Citi Wealth. Os juros, segundo ele, só devem cair de forma mais contundente com um encaminhamento do problema fiscal. “Estamos em um ambiente macroeconômico que deveria favorecer o Brasil. Depois que atravessarmos esse período de incerteza, ficará mais claro qual será o rumo”, afirma o estrategista. O Wealth do Citi ainda mantém uma leve posição “overweight” em mercados emergentes da Ásia, dada a exposição da região ao tema dos semicondutores e memória.
Fonte: Valor Econômico


