Por Bloomberg
19/07/2023 05h02 Atualizado há 4 horas
Em meio à desaceleração do crescimento econômico, a China lançou um plano para impulsionar os gastos dos consumidores em quase tudo, de móveis a eletrodomésticos. Mas economistas alertam que esse estímulo é insuficiente para ter impacto significativo na recuperação da economia.
Autoridades locais serão encorajadas a ajudar os moradores a renovar suas casas e a população terá mais acesso a crédito para comprar produtos de uso doméstico, segundo o plano que envolve 13 departamentos governamentais.
As medidas chegam um dia depois de a China ter divulgado um crescimento abaixo do previsto no segundo trimestre, afetado pela queda nas vendas no varejo, aprofundamento do declínio do mercado imobiliário e pelo desemprego recorde entre os jovens. Os gastos relativamente fracos em eletrodomésticos, móveis e materiais de decoração neste ano motivaram a criação do plano, afirmou ontem o vice-ministro do Comércio da China, Sheng Qiuping.
O pacote de 11 medidas tem por objetivo “liberar o potencial do consumo das famílias”, segundo o comunicado divulgado no site do Ministério do Comércio.
O plano não deu muitos detalhes sobre a possibilidade a transferência direta de dinheiro que muitos investidores tinham a esperança de ver. As medidas são “muito tímidas”, disse Larry Hu, economista-chefe para China no Macquarie, acrescentando que medidas direcionadas ao mercado imobiliário e a obras de infraestrutura provavelmente teriam um impacto maior na economia.
Na apresentação de ontem, o Ministério do Comércio destacou principalmente as medidas no lado da oferta. O governo informou que orientará as plataformas de comércio eletrônico e as fabricantes de produtos de uso doméstico para que se expandam em áreas rurais e ofereçam serviços baratos de renovação das casas.
Plano chega após a China ter divulgado um crescimento abaixo do previsto no 2º trimestre
O governo também desenvolverá polos industriais para a fabricação desses produtos.
As autoridades chinesas têm sido cautelosas neste ano em lançar estímulos. Cortaram os juros básicos apenas uma vez e têm lançado apenas medidas pontuais direcionadas, como a extensão das isenções tributárias na compra de veículos elétricos. Na semana passada, as autoridades também prorrogaram a orientação para que as dívidas das incorporadoras sejam roladas, com o objetivo de reforçar um setor imobiliário em crise.
O índice de ações de empresas ligadas ao consumo discricionário no CSI 300 fechou em alta de 0,4% ontem, após dois declínios seguidos, com os traders reagindo positivamente ao anúncio do plano.
A desaceleração das vendas de móveis têm sido um empecilho ao crescimento geral das vendas no varejo desde o colapso do mercado imobiliário no fim de 2021. O estoque de móveis também está alto.
Sheng, do Ministério do Comércio, disse que os produtos de uso doméstico têm longas cadeias de suprimentos e um tamanho de mercado considerável – de forma que as medidas direcionadas iriam ajudar a elevar o consumo geral e, portanto, a economia.
Mas os planos do governo para estimular as vendas de eletrodomésticos – e de veículos elétricos – não são suficientes para representar uma “virada” da mesma forma que seriam políticas destinadas a estabilizar a demanda imobiliária, segundo Hu, da Macquarie. Medidas que canalizem recursos para obras de infraestrutura por meio de bônus especiais e dos bancos encarregados de políticas governamentais também beneficiariam a economia, acrescentou.
Segundo o plano, os consumidores receberão apoio para comprar eletrodomésticos inteligentes, enquanto as regiões onde as condições forem adequadas deverão fornecer subsídios ou empréstimos com desconto para compras de materiais de construção de baixa emissão de carbono.
As instituições financeiras também serão incentivadas a reforçar o apoio ao crédito para compras de bens de uso doméstico, segundo o plano. As taxas de juros e os prazos dos empréstimos deverão ser definidos em níveis “razoáveis”, acrescenta o documento.
Será difícil que as medidas tenham grande impacto na macroeconomia em razão da fraca confiança do consumidor, segundo Xing Zhaopeng, do Australia & New Zealand Banking Group. “Acho que as políticas deveriam se concentrar na confiança.”
Xing considera que seriam mais promissoras para o consumo medidas como o novo projeto-piloto na província de Zhejiang, no Leste do país, que eliminará as restrições para que as pessoas possam registrar-se como residentes urbanos na maioria das áreas da província.
No início do ano, o consumo impulsionou uma retomada econômica na China, mas agora o ímpeto vem perdendo força. Dados econômicos oficiais divulgados na segunda-feira levaram vários bancos, entre os quais o Citigroup, a reduzirem suas previsões de crescimento para a China em 2023, com alguns até alertando para o risco de que a meta de cerca de 5% do governo não seja alcançada.
Fonte: Valor Econômico