Por Sun Yu, Cheng Leng e Tom Mitchell — Financial Times, de Pequim, Hong Kong e Cingapura
26/05/2022 05h01 Atualizado há 5 horas
O primeiro-ministro da China, Li Keqiang, reconheceu ontem que a segunda maior economia do mundo pode ter dificuldades para registrar um crescimento positivo no trimestre atual, e pediu às autoridades que ajudem as empresas a retomarem a produção depois dos lockdowns relativos à covid-19.
Os comentários de Li Keqiang, transmitidos para dezenas de milhares de autoridades em um vídeo interno, ressaltam as dificuldades que o governo do presidente Xi Jinping terá para atingir sua meta de crescimento anual de 5,5% e ao mesmo tempo combater os surtos da variante ômicron.
A última vez que o crescimento da China entrou em território negativo foi quando a produção despencou 6,9% no primeiro trimestre de 2020, em comparação com igual período de 2019, depois que a pandemia de covid-19 encerrou um período de crescimento ininterrupto de mais de 30 anos.
A controvertida política de covid-zero de Xi paralisou a atividade em Xangai, a maior cidade da China, assim como em partes de Pequim e dezenas de municípios menores. Milhões de pessoas em Xangai estão confinadas em suas casas há dois meses ou até mais.
“Vamos tentar garantir que a economia cresça no segundo trimestre”, disse Li, de acordo com uma transcrição que o “Financial Times” verificou com três fontes que foram informadas sobre os comentários do premiê. “Esta não é uma meta elevada [evitar uma contração da economia] e está muito longe de nosso objetivo de 5,5%. Mas temos de realizá-la.”
No primeiro trimestre deste ano, a China registrou um crescimento anual do Produto Interno Bruto (PIB) de 4,8%.
Li acrescentou que a economia “de certo modo estava pior do que” no início da pandemia, nos primeiros meses de 2020. Ele salientou que o desemprego entre as pessoas de 16 a 24 anos chegou a 18,2%, o mais alto de sua história, enquanto a taxa de desemprego entre os trabalhadores migrantes também subiu drasticamente.
Uma versão resumida dos comentários do primeiro-ministro, com seu apelo para que se alcance um “crescimento razoável”, foi veiculada no principal noticiário noturno da TV estatal chinesa.
Li instou as autoridades presentes, entre elas os vice-primeiros-ministros Liu He e Han Zheng e o presidente do banco central, Yi Gang, a ajudarem as empresas a retomarem a produção.
“O avanço não é satisfatório”, disse o premiê. “Algumas províncias relataram que apenas 30% das empresas foram reabertas… Essa proporção precisa subir para 80% dentro de pouco tempo.”
Ele acrescentou que a liquidação de empresas aumentou mais de 23% ao ano abril, quando toda a cidade de Xangai entrou em um lockdown que afetou as operações comerciais em todo o leste da China. De forma geral, as pequenas e médias empresas do setor privado, que são responsáveis por metade ou mais das receitas do governo, da produção econômica e do emprego, foram as mais atingidas.
De acordo com a transcrição, Li não mencionou a estratégia de covid-zero de Xi, mas reiterou a importância das medidas de prevenção. “Devemos garantir que o bom funcionamento das cadeias de fornecimento e a prevenção da covid sejam alcançados”, disse ele. “Muitas pequenas e médias empresas e autoridades locais me disseram que vivem seus piores dias.”
O Escritório Nacional de Estatísticas informou na semana passada que as vendas no varejo caíram 11% no mês passado, em comparação ao mesmo mês do ano anterior. Outro motor do crescimento chinês, a produção industrial, teve uma queda de 3% no mesmo período – seu primeiro declínio desde o início da pandemia, em 2020.
Segundo Li, a geração de energia, o transporte de cargas e a concessão de novos empréstimos bancários caíram na primeira metade de maio.
Em 20 de maio, o BC chinês cortou de 4,6% para 4,45% sua taxa prime para empréstimos de cinco anos, usada para precificar hipotecas. O setor imobiliário da China, que responde por cerca de 30% da economia, já passava por problemas antes mesmo dos surtos de covid e lockdowns recentes em Xangai, Pequim e outras cidades.
Jilin, uma grande região agrícola no nordeste da China, é uma das províncias mais afetadas. Li disse que a produção de grãos “mal” poderia atender à demanda e alertou para a possibilidade de “problemas enormes” se a colheita de grãos no verão for fraca.
Li também disse que várias províncias pediram assistência financeira do governo central, mas deu a entender que os recursos de Pequim são limitados. “Estou aqui para informá-los sobre meus limites”, disse. “Existe um fundo de reserva gerido pelo premiê. Fora isso, os governos locais precisam captar recursos [por conta própria].”
Fonte: FT / Valor Econômico