Por Liangping Gao, Ellen Zhang e Kevin Yao — Reuters, de Pequim
19/07/2023 05h02 Atualizado há 4 horas
A China ingressa em uma era de crescimento econômico muito mais lento, o que levanta uma perspectiva intimidante: o país pode nunca ficar rico.
Se a segunda maior economia do mundo avançar a 3% a 4% anuais ou flertar, como preveem alguns economistas, com “décadas perdidas” de estagnação, semelhantes às sofridas pelo Japão, decepcionará seus líderes, sua juventude e boa parte do mundo.
Autoridades esperavam diminuir a diferença de desenvolvimento da China com os EUA. Jovens chineses foram às universidades a fim de estudar para preencher empregos de economia avançada. A África e a América Latina contam com a compra de suas commodities pela China.
“É pouco provável que a economia chinesa ultrapasse a dos EUA nos próximos 10 ou 20 anos”, disse Desmond Lachman, professor do American Enterprise Institute.
Ele prevê que o crescimento desacelerará para 3%, o que “dará a sensação de uma recessão econômica”, num momento em que o desemprego da juventude já está acima de 20%. “Isso também não será bom para o restante da economia mundial”, acrescentou.
Quando o Japão entrou no início do período de estagnação, na década de 1990, já tinha ultrapassado o PIB per capita médio de economias de alta renda e se aproximava dos níveis dos EUA. A China, no entanto, está apenas pouco acima do patamar da renda média.
“Os EUA não estão na armadilha da renda média. A China está” — Richard Koo
O crescimento de 6,3% obtido no segundo trimestre decepcionou, considerando-se a base baixa gerada pelos lockdowns do ano passado em razão da covid-19, o que elevou as pressões sobre os líderes chineses. Os dados do período abril-junho colocam o crescimento de 2023 em via de alcançar, aproximadamente, 5%, com taxas mais lentas dali em diante.
Mas o crescimento anual da China atingiu, em média, cerca de 7% nos últimos dez anos, e mais de 10% na década de 2000.
Motivados por essa perda de impulso, os economistas deixaram de atribuir o fraco consumo das famílias e dos investimentos do setor privado aos efeitos da pandemia, passando a responsabilizar, em vez disso, danos estruturais.
Entre eles estão o estouro de uma bolha no setor imobiliário, que responde por 25% da produção; um dos maiores desequilíbrios entre investimento e consumo; um monte de dívidas contraídas pelos governos regionais; e o forte controle do Partido Comunista sobre a sociedade, inclusive sobre as empresas privadas.
Além disso, as bases da força de trabalho e do consumidor da China estão encolhendo, enquanto o grupo de aposentados se expande.
“O problema demográfico, a turbulência do setor imobiliário, o endividamento dos governos provinciais e municipais e o pessimismo do setor privado, além das tensões entre China e EUA, não nos permitem uma visão otimista do crescimento de médio a longo prazos”, disse Wang Jun, economista da Huatai Asset Management.
Richard Koo, economista-chefe do Nomura Research Institute, disse que os problemas da China são de enfrentamento mais difícil do que os do Japão de uma geração atrás, o que não dá margem de erro às autoridades se quiserem aproveitar “a última oportunidade” de alcançar os padrões de vida do mundo desenvolvido.
A seu ver, a China tem “uma recessão patrimonial”, com os consumidores e as empresas quitando dívidas em vez de tomar empréstimos e investir.
É assim que as depressões começam, disse ele, e a única cura é estímulo fiscal “rápido, significativo e sustentado”, que ele não vê como algo próximo de ser concedido, em vista das preocupações da China com o endividamento.
Além disso, disse, o estímulo tem de ser produtivo, e complementado por mudanças que permitam ao setor privado sair da sombra do Estado. Mas a China teria de mudar de rumo.
Os investimentos em infraestrutura geraram nos últimos anos mais dívida do que crescimento.
Num momento em que grandes economias tentam reduzir sua dependência em relação à China, Pequim continua enredado em batalhas comerciais “olho por olho, dente por dente”, a mais recente delas em torno dos metais utilizados em semicondutores.
“Toda vez que os EUA anunciam alguma política anti-China, Pequim adota uma política equivalente. Mas os americanos não estão presos na armadilha da renda média. A China, sim”, disse Koo.
“Se a população chinesa não realizar seus sonhos, talvez tenhamos no país uma população não muito satisfeita de 1,4 bilhão de pessoas, o que poderá ser um tanto desestabilizador”, acrescentou ele.
Fonte: Valor Econômico