Por Marsílea Gombata, Valor — São Paulo
20/09/2022 15h14 Atualizado há 14 horas
Sinais melhores do que o esperado em julho e agosto levaram a uma revisão significativa das projeções econômicas pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre). Na edição de setembro do Boletim Macro, as previsões de atividade em 2022 foram revistas para cima e a inflação para este ano e o próximo, para baixo. Preocupações com a política fiscal indo na contramão da política monetária, contudo, persistem e lançam dúvidas sobre a capacidade de o Banco Central conseguir convergir à meta inflacionária adiante.
A última edição do Boletim Macro, antecipada ao Valor, ressalta que após a divulgação do Produto Interno Bruto (PIB) do segundo trimestre e dos dados referentes dos dois últimos meses, a perspectiva é de desaceleração da atividade no terceiro trimestre menos intensa do que o previsto.
“Em julho, os indicadores de alta frequência mostraram estabilidade pelo lado da indústria, com impulso positivo dos serviços, e queda do setor varejista. Porém, dentro do setor varejista, a venda de combustíveis e lubrificantes se destacou positivamente”, resumem as economistas Silvia Matos, Marin a Garrido e Mayara Santiago na seção sobre atividade econômica.
Elas ressaltam que os serviços surpreenderam positivamente, com destaque para o setor de transportes que está hoje 20,2% acima do nível pré-pandemia. Com base nos indicadores de alta frequência de julho, observa-se que a indústria de transformação registrou crescimento de 0,4%, na margem, e estabilidade na variação anual. No caso de serviços, a expectativa de crescimento em torno de 5,5%, na comparação interanual, foi ofuscada pela alta anual de 6,3% e mensal de 1,1%.
Com os dados recentes e a perspectiva de os serviços continuarem contribuindo positivamente para o crescimento no segundo semestre, o FGV Ibre tem agora cenário de crescimento de 0,4% do PIB no terceiro trimestre, em relação ao segundo. As economistas acrescentam que aprovação de algumas medidas no Congresso contrata crescimento no terceiro trimestre, o que as levou a revisar o crescimento do PIB para 2022 de 1,7% para 2,5%.
Além da projeção do PIB, foram revistas para cima as de consumo das famílias em 2022 (de 2,4% para 3,5%), investimento (de -3,5% para -0,4%), indústria (0,5% para 1,7%), sendo a de transformação de -1,3% para 0,2%. Os números para eletricidade e outros também foram revistos para cima (de 4,5% para 7,9%), assim como construção civil (4,9% para 6,1%), e serviços (2,6% para 3,3%).
Previsões de consumo do governo, exportação e importação, agropecuária e indústria extrativa foram rebaixadas. Assim como a do PIB em 2023, que passou de queda de 0,3% para contração de 0,4%. Isso porque os efeitos defasados da política monetária devem se somar à necessidade de menos gastos públicos e recuo do consumo das famílias no ano que vem.
Silvia Matos, coordenadora do Boletim Macro ressalta que, além da surpresa com o setor de transportes, que vem crescendo há dez meses, espera-se bom desempenho de serviços públicos, energia e produção agropecuária neste trimestre.
“Prevemos bom crescimento da agropecuária, que no mesmo trimestre do ano passado teve queda de 9% por conta da seca”, diz. “Os serviços públicos devem ter contribuição mais relevante no trimestre e podem crescer 2%, na margem. Seria uma normalização mais tardia desse setor, que tem impacto relevante no PIB. Além disso, apesar de energia ter contração na margem, estamos falando de variação interanual de 10%, após acionamento das térmicas no ano passado.”
A economista argumenta ainda que os serviços prestados às famílias, que não tiveram crescimento expressivo em julho, estão 5,7% abaixo do patamar pré-pandemia, o que indica algum espaço para crescimento neste trimestre.
O FGV Ibre também revisou as projeções de inflação neste ano e no próximo. Em agosto, esperava inflação de 6,5% para 2022 e 5,1% para 2023. Agora espera 5,6% para este ano e 4,7% para 2023. No último Boletim Focus, divulgado na segunda-feira 19 pelo Banco Central, as perspectivas do mercado para a inflação caíram novamente, mas ainda estão menos otimistas que as do FGV Ibre — passaram de 6,4% para 6,0% para 2022 e de 5,1% para 5,0% para 2023.
Na seção sobre inflação do Boletim, André Braz afirma que, seja pela redução do ICMS ou pelo risco de recessão global, os preços dos energéticos e de matérias-primas importantes devem se manter mais baixos pelos próximos meses.
“E, da mesma forma que os energéticos contribuíram para o espalhamento da inflação, seu comportamento atual tenderá a contribuir para a estabilidade dos preços. Uma vez que energia e combustíveis são custos importantes para a atividade industrial e de prestação de serviços, sua trajetória atual tenderá a reduzir a necessidade de repasses ao longo das cadeias produtivas”, argumenta Braz.
No Boletim, contudo, o instituto alerta que a batalha contra a inflação ainda não está vencida e que há riscos de que um novo ciclo de aperto monetário seja necessário.
Silvia e Armando Castelar Pinheiro observam que o cenário é de desaceleração ao longo deste semestre e para o ano que vem no Brasil e no restante do mundo. No caso brasileiro, argumentam, o quadro é mais preocupante, pois a política fiscal tem sido muito expansionista, o que seria insustentável do ponto de vista do endividamento público e do combate à inflação.
Eles citam recente análise do pesquisador associado Samuel Pessôa, publicada no blog do FGV Ibre, na qual argumenta que sem ajuste fiscal será muito difícil o país chegar próximo da meta inflacionária.
O presidente que governará o Brasil pelos próximos quatro anos olhará 2023 e verá uma economia a pleno emprego com inflação bem acima da meta. “O ciclo político na despesa falará mais alto”, observou Pessôa. “Em 2023 teremos contração fiscal. Caso contrário, será muito difícil para o Banco Central entregar inflação na meta em 2024.”
Nesse sentido, Silvia argumenta que, se a política fiscal não cumprir sua parte, poderemos ter juros mais elevados ou até mesmo mais inflação. Para ela, existe hoje um “conflito” que existe com a política monetária apertada de um lado, e a política fiscal com expansão contínua dos gastos.
Na parte sobre política monetária, o Boletim alerta sobre risco de haver novo ciclo de alta de juros pelo Banco Central, principalmente por conta da possibilidade de aprovação de um waiver fiscal (suspensão temporária das regras fiscais) para viabilizar gastos públicos que não foram incluídos no Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA) de 2023.
“Dependendo das escolhas de política fiscal no ano que vem, há risco de que [isso] não ajude o BC”, afirma Silvia. “Se as expectativas para 2023 e 2024 começarem a se deteriorar, o BC vai ter de subir mais os juros. E só vai descer os juros, se houver um cenário mais claro do ponto de vista de política fiscal. Nosso sarrafo aqui depende dos juros lá fora e da política fiscal aqui. Esses dois componentes são cruciais para ver qual o valor de juros reais que vamos ter”.
Fonte: Valor Econômico


