Por Liane Thedim — Do Rio
09/02/2024 05h03 Atualizado há 5 horas
Um ambiente benigno, com corte de juros nos Estados Unidos e atividade em suave desaceleração, e adoção de incentivos pela China para estabilizar sua economia. É como Rafael Mazzer, sócio e chefe da área de Portfolio Solutions Brasil do BTG Pactual, vê o cenário deste ano, que, afirma, torna “no mínimo estável” o quadro para o mercado de commodities brasileiro.
Depois de um 2023 mais defensivo, o executivo conta que adicionou risco à carteira e está com alocação acima da média em juros reais, ou seja, títulos atrelados ao IPCA, em papéis prefixados com prazo mais curto, até três anos, e em bolsa. “Gostamos de ativos de risco no Brasil.” No entanto, não espere um céu de brigadeiro: para ele, o ano não será livre de sustos até que se conheça a real trajetória da taxa que o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) vai adotar, as medidas a serem efetivamente adotadas pelo governo chinês e o desempenho fiscal doméstico.
“A pessoa física vai esperar a Selic chegar a um dígito para buscar ativos com maior risco. O alocador do fundo de pensão vai perceber em algum momento que a renda fixa não vai mais fechar a conta do cálculo atuarial e que ele precisa e vai voltar para a renda variável. Mas nós, como alocadores, temos quase a obrigação de abrir essa fila de entrada. Até para comprar o mais barato possível”, resume. Ele se diz otimista em relação à renda fixa no primeiro semestre. “Com títulos com prazos mais longos, entre cinco e oito anos, vou para a montanha-russa com cinto de segurança. Já nos prefixados, estou de moto na rua a 200 quilômetros por hora.”
José Tolipan, sócio e chefe de administração de carteiras da área de Portfolio Solutions do BTG, afirma que, para quem trabalha com decisão de alocação de ativos, é importante ter tendências claras para identificar. Em 2023, comenta, as mudanças de cenário foram bruscas e as leituras acabaram sendo erráticas. “Saber para onde o vento está soprando é muito importante. E a política monetária é uma boa direção para isso. O ano vai ser menos desafiador para a indústria de multimercados.”
Ele ressalta, porém, que, no fim das contas, a foto de 2023 foi boa, com desempenhos positivos em renda fixa, bolsa e câmbio. “O ‘kit Brasil’ funcionou, mas, na média, os multimercados não foram bem.” Segundo Tolipan, houve muita dispersão entre os fundos conforme os estilos de gestão. Na média, o índice dos fundos multimercados que a área acompanha teve desempenho de CDI menos 3%. Mas quem atuou de forma mais tática, com posições mais curtas, se saiu melhor, explica.
Para bolsa, Mazzer afirma que vê um cenário “cautelosamente positivo”. Ele diz que as cotações estão longe das máximas, portanto, as ações ainda estão baratas. Como o cenário de queda de juros leva a reavaliações dos fluxos de caixa das companhias, a sobrealocação em ações começou cedo, ainda no ano passado. “A gente olha para os múltiplos e eles parecem atrativos. Quando os juros caem o efeito é direto nas despesas financeiras das empresas alavancadas, e o impacto no resultado é relevante. Além do efeito contábil, o afrouxamento monetário é o sinal de que o BC fez o trabalho de desinflação e está programando a reaceleração econômica.”
Luciano Juaçaba, sócio e chefe de crédito e ativos alternativos da área de Portfolio Solutions, comenta que, de junho para cá, quando o banco passou à sobrealocação em bolsa, o Ibovespa subiu de 117 mil pontos para perto de 130 mil. “Mas toda essa alta foi revisão de ganhos. Quando ajusta pelo lucro esperado, é quase como se estivéssemos comprando pelo mesmo preço. A bolsa não ficou mais cara porque subiu.”
“Saber para onde o vento sopra é muito importante. Ano vai ser menos desafiador para multimercados” — José Tolipan
Em renda fixa, Mazzer destaca crédito privado e fundos de investimento imobiliário (FIIs) e fundos de infraestrutura, setor considerado mais estável por ter previsibilidade de receitas. Em crédito, depois que o pior da crise do início de 2023 passou, pós-Americanas e Light, ele comenta que sua gestão de crédito é delineada para evitar surpresas e garantir diversificação suficiente para evitar perdas significativas. “Fazendo o trabalho bem-feito, a perda é de 1% a cada dois anos com a inadimplência. Ou seja, uma carteira que rende IPCA mais 7% isentos, com a perda garante inflação mais 5% nos próximos cinco anos.”
Juaçaba destaca que a área tem como estratégia carregar os ativos de crédito, o que leva a um viés de análise mais profundo. “Não tem segredo, tem que ser diligente na hora de conceder e disciplinado para acompanhar. Assim, consegue diluir um ‘default’ ou outro. Nossa carteira tem mais de 60 ativos.” O portfólio inclui tanto títulos públicos quanto isentos. “Risco é o que não estamos vendo, por isso é importante a gestão profissional”, completa Tolipan.
Em câmbio, Mazzer diz não manter alocações com posições diretas contra outras moedas, embora tenha uma visão positiva para o real, que, para ele, deve ficar mais perto dos R$ 4,50. Isso porque o diferencial de juros reais de curto prazo está a favor da moeda brasileira, assim como o saldo da balança comercial tende a ser cada vez maior, já que o país é grande exportador de grãos e minério de ferro e vai crescer em petróleo. “Além disso, se o BC americano precisar cortar mais os juros, vamos ter dólar ainda mais fraco.”
Ele destaca que alguns indicadores da China pioraram, mas são melhores do que muitos países: registra superávit fiscal e crescimento de 5%, mas, por outro lado, sua dívida interna é muito grande e há forte controle do governo sobre a economia. Dessa forma, vê algum exagero para baixo nas avaliações dos ativos chineses. “O que é ruim mesmo e o que é narrativa? Mesmo com dificuldade de crescimento o governo vai fazer os estímulos necessários para estabilizar a economia.” De acordo com Mazzer, em 2023 não houve qualquer medida grandiosa, mas sim muitos microincentivos que, somados, tiveram resultados razoáveis. “Os estímulos impediram que o ano passado fosse um desastre”, conclui.
Fonte: Valor Econômico