Com a maior incorporação de critérios geopolíticos nas decisões de investimentos no setor de mineração, o Brasil ganha atratividade. Essa é a análise de Marcelo Andrade, sócio de estratégia e transações da EY-Parthenon, após a consultoria realizar uma pesquisa com líderes dos setores de mineração e metais.
Segundo Andrade, o capital global no setor tem priorizado ativos localizados em jurisdições consideradas “friend-shore” (“costa-amiga”, em tradução livre) ou geopoliticamente alinhadas. O Brasil tende a se tornar mais atrativo nesse sentido, conforme o especialista, reforçado ainda por fatores estruturais como a presença de reservas de minerais críticos subexploradas, a localização fora de zonas de conflito e uma matriz energética comparativamente mais limpa.
A consultoria EY realizou uma pesquisa on-line anônima com líderes seniores dos setores de mineração e metais, de organizações com receita de pelo menos US$ 1 bilhão, entre junho e julho de 2025. Foram coletadas 500 respostas, sendo 24% de membros de conselhos ou executivos de alto escalão, 38% de líderes de departamentos, unidades de negócios ou grupos de commodities e 38% de presidentes, vice-presidentes ou diretores. O recorte do Brasil corresponde a aproximadamente 10% da base, segundo a consultoria.
Segundo Marcelo Andrade, a geopolítica também pode criar uma janela de oportunidade para os minerais críticos. Com o Brasil fora dos principais conflitos, aumenta a visibilidade e o papel estratégico das terras raras brasileiras para a economia mundial. O executivo ressalta que é necessário cautela para que o país não se envolva em embates que possam fechar portas com potenciais parceiros, mas alerta que a ausência de um posicionamento claro e estratégico pode levar à perda dessa janela de oportunidade. “É preciso equilíbrio, cautela diplomática, mas também visão estratégica, porque os minerais críticos serão fundamentais para diversas indústrias no futuro”, disse Andrade em nota.
Conforme o levantamento da EY, com foco no recorte brasileiro, o acesso ao capital é o primeiro quesito no ranking das dez principais oportunidades e riscos da mineração, apontado por 64% dos participantes. O aumento de custos e da produtividade aparece logo na segunda posição, com 63%, seguido de licença para operar, com 62%, empatado com a geopolítica.
“O capital para investimentos está mais seletivo e, consequentemente, mais caro”, afirmou Afonso Sartorio, líder de energia e recursos naturais da EY.
“O acesso ao capital teve prioridade na visão do mercado brasileiro, enquanto a complexidade operacional foi o destaque do ranking global. Embora a geopolítica seja importante na agenda do setor, os focos brasileiro e global mostram que os executivos adotaram postura pragmática, focando em temas ao seu alcance”, disse Afonso.
Quando perguntados sobre opções de alocação, 34% dos respondentes brasileiros sinalizaram fusões e aquisições e 36% destacaram desenvolvimento “brownfield”, projetos em áreas com infraestrutura existente, minas em operação ou depósitos já conhecidos, ambos com médias maiores que as globais (25%).
Quanto aos critérios ambiental, social e de governança (ESG, na sigla em inglês), os responsáveis pelo levantamento afirmam que o setor tem passado por reflexos do imediatismo da mineração no passado. Na visão, deles, em anos de desenvolvimento, as mineradoras extraíram os minerais mais superficiais e, portanto, é necessário desenvolver novas formas de atuar. “Com corpos minerais mais profundos, a tecnologia é fundamental para novos negócios, bem como o conhecimento geológico, novos equipamentos e mapeamento das novas instalações”, afirma o documento.
“A agenda ESG é um vetor importante a ser considerado pelas mineradoras em cada movimento e operação. Hoje, não há mais nenhum rascunho de projeto que não considere essas temáticas. A circularidade, por exemplo, é uma possibilidade que o setor encontrou para mitigar a complexidade operacional e a falta de capital”, disse Sartorio.
O conceito de circularidade, no sentido de reaproveitar resíduos, não é totalmente disseminado, segundo o estudo. De acordo com a EY, as grandes empresas têm programas focados na economia circular, o que impulsiona outras companhias de menor porte. “Isso vai além de acabar com os gargalos operacionais. É o reaproveitamento do que um dia foi descartado gerando impactos para criação de outros negócios e para os diferentes ‘stakeholders’ [partes interessadas]”, afirmou Sartorio.
Cerca de 28% dos brasileiros ouvidos pela consultoria indicam a circularidade como fator ESG a ser analisado pelos investidores do setor de mineração e metais nos próximos 12 meses, com uma média maior que a global (16%).
Fonte: Valor Econômico
