O cenário de investimentos na virada do primeiro para o segundo semestre de 2026 combina um choque geopolítico já em desescalada, um ciclo bilionário de investimentos em inteligência artificial e um debate sobre a calibragem dos juros no Brasil, segundo a edição 213 do relatório Private em Foco, do Bradesco Global Private Bank.
No campo doméstico, o economista Fernando Honorato, diretor do Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos do banco, avalia que o corte de juros decidido pelo Copom em sua última reunião — em meio à deterioração das expectativas de inflação — deve ser lido à luz do histórico e da comparação internacional. O país vive o maior e mais prolongado período de juro real elevado dos últimos 20 anos, com uma taxa real ao redor de 10%, ante uma média de 4,2% no período. O desvio da inflação em relação ao centro da meta está em 172 pontos-base, enquanto o diferencial de juros contra o Fed, de 10,5 pontos percentuais, supera a média de 8,6 pontos observada desde que o Brasil superou sua restrição externa. Para Honorato, apesar da inegável piora inflacionária — atribuída à guerra, a estímulos do governo e a choques potenciais como o super El Niño e o possível fim da escala 6×1 —, o juro real ainda elevado deve mitigar boa parte dos choques nos próximos trimestres. As projeções de inflação foram deslocadas para 5,3% em 2026 e 4,15% em 2027.
No plano internacional, o estrategista-chefe Eiji Aono destaca que dois temas dominaram os mercados no ano: o conflito no Irã, que levou ao fechamento do Estreito de Ormuz por mais de três meses, e o avanço dos investimentos em IA. Mesmo com a tensão geopolítica, as bolsas tiveram desempenho forte — ações dos EUA e de mercados desenvolvidos subiram cerca de 10%, os emergentes avançaram 24% e o Nasdaq-100, 20%. O petróleo, que chegou a picos próximos de US$ 120 o barril no auge do conflito, recuou para a faixa de US$ 70 a US$ 80 após o cessar-fogo, sustentado por danos à infraestrutura energética e pela necessidade de recomposição de estoques globais. O memorando de entendimentos entre EUA e Irã, assinado em 17 de junho, prevê trégua de 60 dias, reabertura do Estreito sem pedágios e uma janela de negociação sobre o programa nuclear iraniano.
Ainda que junho tenha sido um mês negativo para os ativos globais — com o MSCI World em queda de 0,9% e o Ibovespa recuando 1,0% —, o banco mantém leitura construtiva, sustentada por lucros corporativos e valuations consideradas razoáveis: o S&P 500 negocia a 20 vezes os lucros futuros, o Nasdaq a 23,7 vezes e os emergentes a apenas 11 vezes.
No posicionamento de portfólio para o segundo semestre, o Bradesco mantém alocação overweight em ações dos EUA, incluindo S&P 500 e Nasdaq-100, com um tema adicional em transformação energética voltado a empresas industriais e de utilities beneficiadas pela demanda de data centers. Em renda fixa, o banco evita exposições longas diante do risco de alta nos yields e privilegia durações de até cerca de cinco anos. Localmente, sugere títulos prefixados com vencimento próximo a três anos, partindo do cenário de que o choque inflacionário é mais transitório do que permanente. O banco revisou a projeção de PIB do Brasil de 1,8% para 2,0% em 2026.
Fonte: Bradesco Private

