O desempenho dos ativos brasileiros deixou de ser ditado principalmente pelo ambiente global e passou a responder cada vez mais a fatores domésticos, como política monetária, risco fiscal e expectativas de inflação. A avaliação é do Bradesco Private Bank, em relatório enviado a clientes nesta sexta-feira.
Segundo o banco, ao longo da última década o comportamento dos ativos locais esteve fortemente atrelado ao dólar: em períodos de fortalecimento da moeda americana ante a cesta de seus principais parceiros comerciais, os ativos dos Estados Unidos tendiam a superar os emergentes; quando a divisa se enfraquecia, o fluxo em direção a mercados de maior risco favorecia países como o Brasil.
Essa dinâmica, contudo, mudou. De acordo com o Bradesco, o Ibovespa manteve correlação negativa com o dólar desde 2010, em linha com os demais emergentes, mas essa relação perdeu força a partir de 2021, enquanto a influência dos juros domésticos aumentou. O resultado, afirma o banco, sugere que o país passou a depender menos das condições financeiras globais.
O relatório ressalva que a forte correlação entre dólar e emergentes não implica necessariamente causa e efeito. Desde 2010, observa, os mercados emergentes chegaram a antecipar movimentos da moeda americana, possivelmente porque os fluxos globais aparecem primeiro nos ativos de risco e só depois se refletem no câmbio.
O banco cita como exemplo a recente entrada de capital em mercados asiáticos, impulsionada pela maior exposição a tecnologia e inteligência artificial. Embora os juros elevados nos Estados Unidos sigam favorecendo um dólar mais forte, a atração de recursos para esses mercados atua na direção oposta, resultando em uma moeda americana sem tendência clara de valorização. Nesse cenário, avalia o Bradesco, o dólar provavelmente não representará obstáculo para a bolsa brasileira, cabendo à trajetória dos juros locais o papel de principal vetor de desempenho.
O banco pondera que ainda é cedo para avaliar a convergência da inflação à meta, uma vez que o petróleo permanece sujeito às incertezas do conflito no Oriente Médio e os riscos climáticos do El Niño podem pressionar os preços dos alimentos. Ainda assim, os dados na ponta mostrariam a eficácia da política monetária. A surpresa recente com a desaceleração da inflação, refletida em números mais benignos do IPCA, contribuiu para a recuperação do Ibovespa no curto prazo.
Para o Bradesco, a melhora do quadro inflacionário é compatível com a continuidade do ciclo de cortes de juros e reforça o potencial de valorização dos ativos de risco brasileiros, que negociam com valuations comprimidos em razão do elevado prêmio de risco exigido pelos investidores.
Fonte Bradesco Private Bank — relatório “Juros, dólar e bolsa Brasil”, 31 de julho de 2026.
