Longas filas estão se formando nos postos de combustível de Teerã e arredores, à medida que o bloqueio imposto pelos Estados Unidos provoca escassez de gasolina e causa apreensão entre os motoristas, em um sinal do impacto crescente da guerra sobre a economia do Irã.
A corrida aos postos ocorre no momento em que o governo de Donald Trump apresenta uma nova campanha chamada de “guerra econômica” contra Teerã. A Organização de Otimização de Energia – órgão estatal iraniano responsável pela gestão dos combustíveis – alertou que o país enfrenta uma escassez “crítica” de gasolina.
Um funcionário de um posto da capital iraniana relatou que as pessoas estavam correndo para abastecer mesmo antes de os tanques ficarem vazios, porque temem que “a guerra possa recomeçar ou que os preços aumentem”. O limite de 20 litros por veículo está obrigando os motoristas a voltarem aos postos, segundo o funcionário, que preferiu não ser identificado.
Embora seja um grande exportador de petróleo bruto, o Irã depende há muito tempo da importação de gasolina para suprir a demanda interna. No entanto, o bloqueio naval dos EUA – em vigor desde 14 de julho – reduziu drasticamente a capacidade do regime de obter combustíveis.
Além disso, a campanha de bombardeios conduzida por EUA e Israel destruiu parte da capacidade de refino iraniana nas primeiras semanas da guerra, iniciada em fevereiro.
A Organização de Otimização de Energia afirmou que o Irã enfrenta atualmente um déficit de 15 milhões de litros de gasolina, em relação à demanda diária total de 135 milhões de litros.
O secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, afirmou na segunda-feira que Washington estava ampliando o alcance das sanções secundárias contra parceiros comerciais do Irã, em uma tentativa de apertar o cerco econômico e financeiro a Teerã.
O regime insiste que o Irã é capaz de resistir à pressão dos EUA e se recusa a aceitar as exigências de Trump para a reabertura do Estreito de Ormuz.
Os dois lados acusam um ao outro de violar um acordo firmado em junho, destinado a reabrir gradualmente essa passagem marítima estratégica e estabelecer as bases para negociações sobre um acordo definitivo. Os líderes iranianos argumentam que Teerã precisa impor um custo maior a Washington antes de concordar em encerrar a guerra.
As importações pelas rotas do norte também foram severamente restringidas devido aos efeitos da guerra na Ucrânia e à perda, pela Rússia, de uma parcela significativa de sua capacidade de refino.
Autoridades iranianas afirmam que a escassez de combustível foi agravada por um sistema de subsídios que oferece aos 90 milhões de habitantes do país uma das gasolinas mais baratas do mundo. Os motoristas pagam entre 15 mil riais iranianos (US$ 0,011) e 50 mil riais por litro (US$ US$ 0,036).
O governo, que há meses recorre às reservas estratégicas do país, afirma que o atual sistema de preços e cotas deixou de ser sustentável devido à disparada da inflação e às interrupções no abastecimento provocadas pela guerra.
O presidente Masoud Pezeshkian afirmou neste mês que vender gasolina abaixo dos preços de mercado exerce enorme pressão sobre os recursos públicos necessários para subsidiar alimentos e apoiar os trabalhadores. “Quem disse que o governo deve comprar gasolina por 1,3 milhão de riais o litro e depois vendê-la por 15 mil riais?”, questionou.
Mohsen Haji-Mirzaei, chefe de gabinete de Pezeshkian, afirmou na segunda-feira que o governo pretendia reduzir as cotas, mas ainda não havia tomado uma decisão definitiva sobre os preços.
“Há incertezas quanto às consequências sociais, econômicas e de segurança de qualquer política de preços”, afirmou. Ele acrescentou que, embora o governo vá definitivamente reduzir as cotas, “as pessoas talvez tenham de pagar preços mais elevados pelo consumo que ultrapassar a cota atribuída a elas”.
No entanto, a possibilidade de aumentar os preços dos combustíveis para uma população cujo poder de compra está mais baixo do que nunca é uma questão extremamente delicada.
A moeda nacional iraniana caiu nos últimos dias para uma nova mínima de 2 milhões de riais por dólar, enquanto a inflação acumulada em 12 meses se aproxima de 90% e a inflação dos alimentos gira em torno de 130%.
Um projeto-piloto para elevar os preços da gasolina na província de Kerman foi suspenso neste mês, poucas horas após entrar em vigor. As propostas de aumento dos preços remetem a 2019, quando uma elevação implementada da noite para o dia desencadeou protestos com mortes em diversas cidades iranianas.
Os preços da gasolina funcionam como uma espécie de “barômetro da inflação” e podem provocar um choque muito grave na economia, afirmou Morteza Behrouzifar, analista de energia radicado em Teerã.
Behrouzifar sugeriu que o governo mantenha as medidas de curto prazo para garantir o abastecimento, ao mesmo tempo que busca melhorar o transporte público, a indústria automobilística nacional e o setor de refino.
“A população já está sob enorme pressão”, afirmou. “Se o governo quiser agora enfrentar esse problema por meio de um aumento nos preços da gasolina, isso poderá gerar consequências sociais e econômicas indesejáveis.”
Fonte: Valor Econômico


