Por Arthur Cagliari e Eduardo Magossi — De São Paulo
22/07/2022 05h03 Atualizado há 4 horas
O Banco Central Europeu (BCE) surpreendeu na sua decisão de política monetária na reunião de ontem, ao elevar suas três principais taxas de juros em 0,50 ponto percentual, abandonando a orientação do encontro de junho sobre o primeiro aumento de juros desde 2011, sinalizado no ritmo de 0,25 ponto. A autoridade monetária europeia também divulgou um novo instrumento criado para evitar a “fragmentação” – falta de paridade na transmissão da política monetária entre os países, medida pela diferença entre os rendimentos dos títulos públicos.
Na decisão de ontem, o BCE decidiu pelo fim dos controversos juros negativos, em vigor desde junho de 2014, colocando a taxa de depósito em zero, enquanto antes estava em -0,5%. Já a taxa de refinanciamento saiu da neutralidade para 0,5%, enquanto a de empréstimos subiu de 0,25% para 0,75%.
Em seu discurso após a divulgação da decisão, a presidente do BCE, Christine Lagarde, afirmou que a mudança de perspectiva dos integrantes do Conselho da autoridade monetária sobre o aumento inicial dos juros ocorreu após dados da inflação se mostrarem ainda muito aquecidos. O índice de preços ao consumidor (CPI, na sigla em inglês) subiu 8,6% em junho na zona do euro, na maior alta desde a criação da moeda única do bloco.
Lagarde alertou em seus comentários que a inflação aquecida está se espalhando pela economia e que “a desvalorização do euro também alimenta a pressão de preços”. Por outro lado, a chefe do BCE disse que, ainda que o aumento salarial continue crescendo gradualmente, ele permanece contido. Ela apontou também que “há sinais provisórios de que alguns gargalos de fornecimento estão diminuindo”.
Mas não foi apenas a inflação aquecida que deu espaço para que o banco adotasse um tom mais “hawkish” (favorável ao aperto monetário) na decisão de ontem. De acordo com Lagarde, a criação de uma ferramenta para evitar a fragmentação dos países também trouxe segurança aos integrantes do Conselho para um primeiro passo mais largo.
Na decisão de ontem, além de elevar os juros, o BCE ainda anunciou a criação do Instrumento de Proteção à Transmissão (TPI, na sigla em inglês). Conforme o documento sobre o programa, “as compras de TPI serão focadas em títulos do setor público com prazo remanescente entre um e dez anos. Compras de títulos do setor privado podem ser consideradas, se apropriado”.
Para poder adotar tal ferramenta, o país interessado precisa apresentar alguns requisitos, como não ter um déficit excessivo e apresentar uma trajetória da dívida pública sustentável.
Na opinião de Laura Pitta, economista sênior do Itaú BBA, o BCE tem demonstrado disposição para evitar riscos de fragmentação, desde que sejam respeitadas condicionalidades fiscais e macroeconômicas. “Tem que separar os motivos pelo qual o spread aumenta, se é pelo simples aumento de juros ou por populismo fiscal. São fatores diferentes que causam esse movimento, e eles só atuam quando está na alçada deles”, disse.
Analistas de grandes bancos, no entanto, não compraram totalmente o novo instrumento e nem a alta maior nos juros. Para o economista-chefe do banco suíço Lombard Odier, Samy Chaar, o BCE precisava ser convincente no lançamento de uma ferramenta antifragmentação, mas divulgou um documento cheio de lacunas. “A redação sugere critérios estritos de intervenção, mas não de condicionalidade. As compras também podem ser ilimitadas. Mas essas compras serão esterilizadas?”, afirmou, referindo-se ao mecanismo de intervenção dos BCs para evitar que fluxos de capital afetem o câmbio.
Chaar avalia que o tamanho ilimitado e a ausência de condicionalidade imposta aos países elegíveis foram cruciais para evitar uma grande decepção do mercado. Mas detalhes sobre os limites de ativação do programa – em relação ao nível dos rendimentos e spreads, por exemplo – e como vai ser sua interação com a incerteza política na Itália permaneceram incógnitas.
Houve decepção também pelos economistas do Citi, Arnaud Marès, Christian Schulz e Giada Giani. Eles afirmaram que o novo instrumento é poderoso no papel, mas os gatilhos de ativação e o propósito permanecem vagos para serem tranquilizadores.
Na avaliação deles, o objetivo do TPI é mais evitar deslocamentos de mercado do que a fragmentação. Os economistas questionaram também o motivo do BCE subir mais os juros, abandonando seu compromisso assumido em junho de um aumento de 0,25 ponto. “Sem uma justificativa clara, esta decisão pode erodir a confiança nos futuros compromissos do BCE”, dizem.
Ainda criticaram a presidente Lagarde que “parecia reconhecer a fragmentação como característica inerente da zona do euro, mas não traduziu isso em uma intenção de combater qualquer ampliação dos spreads causada diretamente pelo próprio aperto monetário”.
Para o economista-chefe do Julius Baer, David Kohl, o BCE apertou a alta dos juros porque reconheceu que a inflação será elevada por algum tempo, tornando desnecessária a política não convencional com juros negativos e orientação futura. Kohl disse acreditar que o movimento ousado do BCE vai reduzir a depreciação do euro. A estimativa do banco é que, em três meses, a moeda seja negociada a US$ 1,03. Kohl afirmou, contudo, que dificilmente o BCE subirá novamente o juro em 0,5 ponto em setembro.
Fonte: Valor Econômico
