Por Stephen Gandel e Colby Smith — Financial Times
28/04/2023 05h05 Atualizado há 5 horas
Em 2019, três dos maiores bancos regionais dos Estados Unidos tiveram êxito ao pressionar as agências reguladoras para relaxar as exigências de reserva de capital, ao excluir delas as perdas não realizadas em suas carteiras de investimento. Eles argumentavam que isso lhes permitiria aumentar a concessão de crédito – e, assim, apoiar a economia americana – e administrar melhor os riscos dos juros.
No momento em que as agências reguladoras estudam a ideia de reverter essas mudanças, na esteira da falência do Silicon Valley Bank (SVB), uma análise do “Financial Times” mostra que na verdade os empréstimos em três bancos – PNC, US Bank e Capital One -, assim como nos bancos que eles adquiriram desde aquela época, cresceram de forma mais lenta do que nos seus rivais.
Em conjunto, os empréstimos feitos pelos três bancos aumentaram apenas 6% de 2019 a 2022, menos da metade do salto de 15% do setor como um todo. O J.P. Morgan Chase, que não foi isentado das regras, elevou seus empréstimos em 18% nesses três anos. Já as perdas não realizadas dos três bancos dispararam quase 1.400% no mesmo período, para US$ 40 bilhões, depois que o Federal Reserve (banco central dos EUA) passou a aumentar rapidamente as taxas de juros. “Esses bancos teriam dito qualquer coisa para que as regras fossem aprovadas”, disse Scott Siefers, analista do setor bancário da Piper Sandler, que cobre o US Bank e vários outros grandes bancos.
O Fed analisa a possibilidade de reverter a mudança de 2019 que permitiu que grandes bancos regionais excluíssem completamente de seus cálculos de capital quaisquer perdas de mercado em suas carteiras de títulos. Críticos argumentam que o relaxamento regulatório permitiu que eles reforçassem de maneira artificial um indicador de saúde financeira importante e apontam para o fato de que o SVB faliu em parte por causa dessas perdas.
Os bancos se opõem à ideia, com a alegação de que reverter a regra poderia intensificar a turbulência bancária atual. Em uma reprise de seus apelos de 2019, eles também argumentam que isso poderia limitar sua capacidade de conceder empréstimos.
“Eu literalmente não acredito que reverter isso faria diferença”, disse o executivo-chefe do PNC, William Demchak, repetindo uma opinião muito comum entre executivos de bancos, de que a mudança regulatória não é a culpada pelo estresse recente. “O problema é que, se eles fizerem isso de um dia para outro, isso restringiria os empréstimos.”
Segundo o Fed, não há nenhuma previsão de uma mudança imediata. “Qualquer alteração que o Fed possa fazer nas regras de capital de bancos não será efetiva por vários anos, porque ela terá de passar pelo processo padrão de criação de normas, de apresentação e espaço para comentários, e estará sujeita a uma fase de implementação gradual apropriada”, informou o banco central dos EUA, em resposta ao Financial Times.
Alguns ex-reguladores advertem que dar aos bancos um período longo para se adequar a regras de capital mais estritas pode ser contraproducente. “Permitir um período de transição demasiado longo tem um preço”, disse Jeremy Kress, ex-advogado do grupo de regulamentação e política bancária do Fed, que hoje está na Universidade de Michigan. “Você permite que riscos identificados fiquem sem solução por um período maior para dar ao setor tempo para se adaptar.”
A mudança de 2019 que está em questão foi introduzida por Randal Quarles, vice-presidente de supervisão do Fed nomeado pelo então presidente dos EUA, Donald Trump, e seguiu a legislação bipartidária destinada a reverter algumas das regras promulgadas na esteira da crise financeira de 2008. PNC, US Bank e Capital One eram alguns de seus defensores mais entusiasmados.
Os três bancos se uniram para enviar cartas aos reguladores do Fed, da Federal Deposit Insurance Corporation (FDIC), a agência federal que tem por função a garantia de depósitos bancários, e do Office of Comptroller of the Currency (OCC), departamento do Tesouro dos EUA que faz a supervisão dos bancos nacionais. Nas cartas, os três afirmavam que a mudança lhes permitiria “atender às necessidades de crédito de empresas, consumidores e governos locais”. Além disso, de acordo com os registros do Fed, em maio daquele ano eles enviaram oito de seus principais advogados para se encontrar com autoridades do banco central, da FDIC e do OCC.
O US Bank e o PNC argumentaram que o crescimento de seus empréstimos teria sido maior se os cálculos do Financial Times não tivessem incluído os bancos que adquiriram. O Capital One se recusou a fazer comentários.
Demchak, do PNC, acrescentou que sua instituição foi prudente ao não aumentar a concessão de crédito muito rapidamente nos anos posteriores à pandemia de covid-19, pois previa que os saldos dos clientes acabariam por cair. “Quando todos esses depósitos, vinculados ao dinheiro do estímulo, entraram, presumimos que o que entrou fácil sairia fácil”, disse ele. “E deixamos mais dinheiro no Fed para administrar isso.” O US Bank foi mais conciso: “Participamos do processo de comentários públicos [em 2019] quando solicitados e apoiamos as mudanças”.
Críticos sustentam que na verdade o que a mudança de 2019 fez foi encorajar os três bancos – junto com mais de duas dúzias de outros menores, como o SVB – a aumentarem drasticamente suas participações em bônus do governo e outros títulos. Quando as taxas estavam nos seus níveis mais baixos, eles aumentaram seus lucros, e quando as taxas subiram e provocaram perdas não realizadas em suas carteiras de investimento, seus índices de capital não eram afetados.
Isso também deu aos bancos mais margem de manobra para fazer transações capazes de exaurir seu capital – o PNC adquiriu os negócios americanos do BBVA por US$ 11,6 bilhões em 2021, e o US Bank comprou o MUFG Union Bank.
No início deste mês, o fundo hedge HoldCo Asset Management, que tem apostado na queda das ações do US Bank, avaliou em um relatório que a reversão regulatória de 2019 estimulou o banco a crescer rapidamente em um ambiente de taxas de juro arriscado. O HoldCo calcula que, quando prováveis mudanças regulatórias são levadas em conta, os índices de capital do US Bank estão um pouco acima de 6% e abaixo do limite mínimo de 7% exigido dos bancos maiores.
O US Bank informou que seus índices de capital têm cumprido as expectativas e há planos para aumentá-los neste ano e no próximo.
Fonte: FT / Valor Econômico
