Com o “trade” eleitoral inaugurado desde que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) lançou sua pré-candidatura à Presidência, no início do mês, os ativos domésticos tiveram uma nova sessão de volatilidade elevada ontem, que terminou com cada mercado em uma direção diferente. Ao mesmo tempo em que houve uma valorização do Ibovespa, os juros futuros tiveram leve alta e o câmbio ficou estável.
No início da sessão, os mercados não adotavam sinal único, mas passaram a exibir perdas maiores e enfrentaram uma maior instabilidade. Os resultados da pesquisa AtlasIntel/Bloomberg para diversos cenários eleitorais e a manutenção de uma postura mais cautelosa com os ativos brasileiros devido à incerteza eleitoral provocaram uma perda de fôlego relevante para os ativos locais, sobretudo no mercado de juros pela manhã. Participantes do segmento citaram um movimento de “stop loss” [movimento de fechamento de posições para limitar perdas], o que forçou um aumento relevante das taxas futuras.
O mau humor se esvaiu somente com as declarações de Ciro Nogueira, senador que é uma das principais lideranças do Centrão, em entrevista exclusiva ao Valor. Segundo ele, uma possível candidatura à Presidência do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), “não é um projeto enterrado” e vai depender da viabilidade eleitoral do também senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Ao mesmo tempo, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, enfatizou que o cenário está aberto para a decisão de janeiro, o que também contribuiu para acalmar os mercados.
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No fim do dia, a taxa do DI para janeiro de 2027 subiu de 13,825% para 13,86%, enquanto a do DI para janeiro de 2031 oscilou de 13,63% para 13,635%. Já o Ibovespa destoou do mau humor dos juros e encerrou o dia em alta de 0,38%, aos 157.923 pontos.
No câmbio, houve quem apontasse que o mercado começou a ser afetado por fluxos de saída de capital estrangeiro, o que é natural para a atual época do ano, mas alguns operadores apontaram que, por enquanto, o cupom cambial (a taxa de juros em dólar do país) de curto prazo não está muito pressionado.
O chefe de investimentos (CIO) da Azimut Brasil Wealth Management, Marco Antonio Mecchi, diz que, por ora, há pouca evidência de uma saída mais forte de dólares do país por conta do pagamento de dividendos aos estrangeiros. “Mas, pelas companhias de capital aberto, sabemos que ainda há pagamentos a serem feitos ao longo deste mês, então alguma coisa deve sair até o fim do ano”, afirma. “Só não deve ser na mesma magnitude que vimos no fim do ano passado”, aponta.
Essa piora recente do câmbio, portanto, ocorre muito mais na esteira de uma reprecificação da perspectiva de manutenção da política econômica em 2027 do que pressão pelo fluxo sazonal, diz o executivo da Azimut. “E, quando há uma reprecificação, com desvalorização do câmbio e aumento de volatilidade, o ‘carry-trade’ não faz sentido. Se há desmonte de ‘carry-trade’, há mais desvalorização da moeda”, explica. “Tudo isso foi engatilhado pelo anúncio da pré-candidatura do senador Flávio Bolsonaro, que antecipou a volatilidade da eleição, esperada para ocorrer só depois do Carnaval.”
Ainda na leitura de Mecchi, o que elevou a percepção de risco fiscal não foi o anúncio da candidatura de Flávio por si só, mas a indicação das pesquisas de que ele está com uma quantidade de votos incapaz de derrotar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em uma disputa, mas com quantidade de votos suficiente para inviabilizar um candidato de centro. “Ainda tem tempo até a definição oficial das candidaturas, mas a foto hoje é essa: mais uma vez teremos uma eleição polarizada.”
Na mesma linha, estrategistas do banco BBVA apontaram em nota que, por enquanto, a fraqueza dos ativos brasileiros tem sido generalizada, indicando que nem todo o movimento de estresse pode ser atribuído a fluxos sazonais ou saídas de dividendos, que segundo os profissionais do banco espanhol parecem ter aumentado um pouco na semana.
Fonte: Valor Econômico
