Por Matheus Prado, Arthur Cagliari, Augusto Decker e Gabriel Roca — De São Paulo
27/07/2023 05h03 Atualizado há 4 horas
Os ativos locais avançaram na sessão de ontem em meio à decisão de juros em linha com o esperado pelo Federal Reserve (Fed, o BC americano) e à elevação do rating soberano do Brasil pela agência de classificação de risco Fitch. Assim, o dólar alcançou seu menor patamar desde 20 de abril de 2022 em relação ao real e o Ibovespa retomou a sua maior pontuação anual.
No fim da sessão, a moeda americana à vista caiu 0,46%, a R$ 4,7276, enquanto o principal índice acionário local subiu 0,45%, aos 122.560 pontos. A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2024 recuou de 12,635% para 12,615%; e a do DI para janeiro de 2025 de 10,635% para 10,605%.
Vale ressaltar que operadores têm notado que os agentes financeiros seguem em compasso de espera devido à proximidade da reunião do Copom na próxima semana, que deve dar início ao ciclo de cortes de juros no país. Além disso, com a extensão do rali nas taxas nominais, observam uma troca de posições de juros prefixados para juros reais, o que tem trazido alguma força de alta nas taxas dos DIs.
A elevação do rating soberano brasileiro pela Fitch, anunciada nos primeiros negócios do dia, deu pouco fôlego aos ativos locais inicialmente, conforme investidores aguardavam a decisão do Fed. Jacques Zylbergeld, superintendente de câmbio do Banco Rendimento, disse que o real já teve forte apreciação ao longo do ano e agora deve ficar mais dependente do exterior. “Mesmo com o anúncio da Fitch, vimos pouca movimentação no mercado. O humor deve ser guiado pelo que ocorrer lá fora.”
Assim, o principal gatilho positivo da sessão foi a decisão de juros pelo BC americano. A autoridade monetária elevou mais uma vez suas taxas em 0,25 ponto percentual, como esperado e, ainda que o presidente do Fed, Jerome Powell, tenha apontado que novos aumentos de juros não estão descartados, a percepção dos investidores foi de um tom mais suave.
Para Valter Unterberger, gestor de moedas do Opportunity Total, Powell deixou possível alta futura de juros em aberto, mas também reconheceu a proximidade do fim do ciclo. “O tom foi suave. Não acredito que vá atrapalhar as moedas. O dólar não deve se fortalecer nessas condições. Vai precisar de dados mais fortes para que isso aconteça. O Fed está bastante dependente dos dados agora.”
Isso foi percebido nos ativos, com as curvas de juros recuando nos EUA e o dólar perdendo força globalmente, o que possibilitou melhora adicional nos mercados locais, mesmo com sequência de ganhos recentes. “Seguimos com espaço para corrigir no curto prazo”, diz Leandro Saliba, gestor de renda variável da AF Invest.
Segundo o executivo, o estrangeiro foi essencial para que a bolsa voltasse a subir nos últimos dias, após movimento lateral por quase um mês. O capital externo deve continuar ditando os rumos no curto prazo porque apesar da melhora de cenário esperada à frente, o institucional local ainda busca recuperação da profunda dinâmica de saques no segmento de fundos. Já a pessoa física só deve voltar com força quando os juros cederem de fato.
Saliba afirma que a elevação do rating soberano chancela que o país deve receber capital internacional extra, mas principalmente quando as economias desenvolvidas finalizarem seus processos de aperto monetário.
O início da temporada de balanços também teve peso relevante nos negócios. Carrefour ON subiu 8,09%, Telefónica ON avançou 5,12% e Santander units caiu 0,35% após apresentarem resultados. Para o gestor da AF Invest, a tendência é que o mercado seja mais leniente com resultados fracos, vislumbrando melhora em 2024.
“Depende do quão ruins serão os números”, diz. “Antes, com o cenário de juros nebuloso, o mercado estava, naturalmente, punindo as empresas com resultados fracos. Agora, com perspectiva clara de queda das taxas, as empresas que apresentarem ‘guidance’ (orientação de performance futura) positivo não devem sofrer tanto. Não obstante, setores em situação crítica podem não escapar, ainda mais depois do rali recente.”
Entre as empresas mais pesadas do índice, Eletrobrás ON subiu 2,06%, Itaú PN teve ganhos de 0,56% e Bradesco PN registrou alta de 1,03%, enquanto Vale ON cedeu 0,35% e Petrobras ON caiu 0,35%.
Fonte: Valor Econômico