Por Marcelo Osakabe — De São Paulo
10/05/2022 05h01 Atualizado há 5 horas
Mesmo diante de uma política monetária cada vez mais restritiva, o ritmo de atividade da economia brasileira segue surpreendendo para cima e os riscos atualmente são mais positivos do que o contrário, disse o sócio e economista-chefe da JGP, Fernando Rocha. O profissional, que participou da Live do Valor ontem, contou que sua projeção para o PIB de 2022 iniciou o ano em 0,7% e agora está em 1,3%.
“Revisamos para cima porque continuamos nos surpreendendo com a resiliência na atividade. O primeiro trimestre foi bom e os indicadores de alta frequência do segundo trimestre mostram algum crescimento. Mesmo que no segundo semestre cresça menos, isso já garante um PIB acima de 1% neste ano”, afirmou.
Em seu entendimento, a surpresa positiva tem a ver com dois fatores. O primeiro deles é o setor agrícola e ligado a commodities, que tem peso relevante na economia e tem tido desempenho positivo por causa dos preços elevados. O segundo é a reabertura pós-covid, principalmente no setor de serviços. “Apesar das dificuldades com a inflação, existe uma recuperação importante”, disse.
Tudo isso dificulta o trabalho do Banco Central em controlar a inflação, segundo o economista. “A despeito da política monetária mais restritiva, as condições econômicas permitem algum repasse, mesmo que não seja de toda a inflação”, ressaltou Rocha.
A inflação de serviços roda hoje perto de 8% ao ano, apontou o economista. “Esses setores ficaram fechados muito tempo. Existe uma inflação represada nos últimos anos que não foi totalmente repassada. Então, este é um momento extremamente difícil para o BC, de maneira que, para controlar os preços, ele precisaria elevar os juros a tal ponto que sufocaria a atividade. Na prática, o que acredito que ele vá fazer é algo no meio do caminho, permitir uma inflação mais alta por mais tempo e uma atividade menor, mas não a ponto de colapsar.”
A JGP projeta inflação de 8,5% em 2022 e de 5,4% em 2023, ambas já bem acima do teto de tolerância das metas, de 5% e 4,75%, respectivamente.
O fato de que a inflação corrente continuar pressionada e as expectativas seguirem se deteriorando deve levar o BC a continuar elevando juros para além de junho, na avaliação de Rocha.
O profissional apontou que as informações colhidas desde a reunião anterior, quando o Comitê de Política Monetária (Copom) havia indicado intenção de encerrar o ciclo em 12,75%, acabaram apontando no sentido contrário.
A casa já esperava que o BC poderia fechar o ciclo com outro 0,50 ponto percentual no mês que vem, mas, agora, admite a possibilidade de uma caminhada mais longa. “Nosso cenário é o BC continuar subindo além de junho, provavelmente para um patamar entre 14% e 15%”, disse Rocha.
Um estudo feito pela JGP mostrou que o BC costuma encerrar o ciclo de aperto quando a inflação corrente já perdeu fôlego e as expectativas deixam de piorar ou mesmo começam a se reverter. Nenhum dos dois fatores está presente neste momento, segundo o economista.
A JGP espera um IPCA em 0,90% em abril – ligeiramente abaixo da mediana do mercado, mas ainda com difusão alta, ressaltou. Por outro lado, a partir deste mês, que pegará integralmente a mudança da bandeira tarifária na conta de energia para verde (sem cobrança extra), isso aparecerá nos preços e a dinâmica tende a melhorar, ainda que siga bastante pressionada. “As maiores taxas já passaram. Essa inflação de 8,5% que a gente espera para 2022 conta com uma inflação anualizada, a partir de maio, em 6%”, disse Rocha.
Ele ponderou que sua atual projeção não leva em conta a chance de novos reajustes de combustíveis. “Trinta dias atrás, a gente elucubrava sobre a chance de ter queda no preço da gasolina. Hoje a gente discute a chance de ter alta”, lembrou. “O que houve nesse meio tempo é que teve uma alta forte do preço da gasolina e o dólar saindo de R$ 4,60 para R$ 5,10. Mas ainda não colocamos isso na conta porque a situação é bastante volátil e sabemos o impacto: uma alta de 10% do preço na bomba significa um acréscimo de 0,7 ponto porcentual sobre o IPCA”, estimou.
Fonte: Valor Econômico
