Brasil precisa buscar poucas, mas boas, cabeças para universidades e empresas para ajudar o país a se aproximar da fronteira científica e tecnológica
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Donald Trump declarou guerra contra as universidades de ponta nos Estados Unidos. Porém, sua ofensiva nada tem a ver com uma suposta negligência diante do antissemitismo. Os ataques são políticos em toda sua dimensão.
Em 2021, antes da vitória eleitoral de 2024 e da eclosão da guerra no Oriente Médio, o atual vice-presidente, J. D. Vance, caracterizou as universidades como inimigas dos EUA. Para a ultradireita que tomou conta do Partido Republicano, impulsionado pelo movimento Make America Great Again (MAGA), as universidades devem ser desmanteladas para viabilizar seu renascimento como forças de uma nação reconfigurada por Trump.
O fato é que a desconstrução do mais poderoso sistema de geração de conhecimento do planeta certamente não fará a América Grande Novamente. Pelo contrário. Seu enfraquecimento atinge o centro do sistema de inovação, com impactos profundos na competitividade da economia norte-americana e suas pretensões de barrar a ascensão da China.
Em apenas três meses, além das universidades, Trump deflagrou uma gigantesca guerra comercial, paralisou a Otan, perdoou golpistas, desmantelou a Usaid e castrou dezenas de agências de fomento à ciência, como a Fundação Nacional da Ciência e os Institutos de Saúde. Mais ainda, desmontou o Ministério da Educação, deportou e prendeu imigrantes, pressionou escritórios de advocacia, humilhou a Ucrânia e elogiou Putin.
Sua insistência em ignorar o Legislativo e a ordem legal explicita suas pretensões de afirmar-se como poder incontestável, base para uma sociedade autoritária, em estilo celebrado pelo extremismo de direita, inclusive aqui no Brasil. Seu plano, porém, enfrenta resistências. Externamente, a reação veio forte da China e mesmo de países tradicionalmente aliados, como os europeus e o Canadá.
Internamente, o contraponto emergiu do centro financeiro e de setores empresariais preocupados com as tarifas e a perspectiva de inflação; continuou com o Judiciário que interrompeu muitas de suas ações; ampliou-se com Harvard, que rejeitou suas exigências e ganhou a solidariedade de centenas de universidades. E, certamente o mais importante, nas últimas semanas a resistência começou a chegar nas ruas, com a realização de protestos em torno do slogan “Hands Off” (Tirem as mãos), em quase todos os Estados americanos.
A comunidade científica internacional e os que prezam a democracia torcem pela multiplicação e fortalecimento dessa resistência. Mas, todos sabemos, o mundo não é nem será mais o mesmo com Trump, que transformou os EUA no principal motor de incerteza nos EUA, na economia, na ciência e na geopolítica mundial.
Os ataques de Trump contra as universidades e a ciência nos EUA abriram um capítulo de frustrações generalizadas e reações inéditas da comunidade científica. Recente enquete da Nature, uma das mais importantes revistas científicas do mundo, revelou que 70% dos cientistas entrevistados consideram a hipótese de deixar os EUA por conta dos cortes em pesquisa, restrições temáticas e do ambiente tóxico criado pelas demandas e pressões da Casa Branca. Um segundo levantamento da mesma revista encontrou um número de pedidos de emprego de cientistas em regiões fora dos EUA 32% maior entre janeiro e março de 2025 que o registrado no mesmo período em 2024; no mesmo intervalo de tempo, o sistema de buscas da internet indicou aumento de 35% entre os usuários americanos que procuraram emprego no exterior; somente no mês passado, o aumento foi de 68% quando comparado ao mês de marco de 2024.
Após a posse de Trump, foram os primeiros sinais indicativos de um movimento de “brain drain” inédito nos EUA, que historicamente foram marcados pelo grande poder de atração de talentos. Mesmo que sutis, os sinais de descontentamento foram fortes o suficiente para despertar o apetite de dezenas de países que gostariam de contar com pesquisadores qualificados em seus laboratórios, empresas e universidades.
Na França, o presidente Emmanuel Macron fez um apelo para que cientistas optem pela Europa para dar continuidade ao seu trabalho. A plataforma “Escolha a França para a Ciência” está aberta a todos os que buscam financiamento e ambiente não tóxico para pesquisar. Macron pretende ainda receber cientistas de todas as nacionalidades em Paris, em um grande evento no mês de maio. Sua mensagem foi cristalina: “Na França a pesquisa é prioridade, a inovação uma cultura, a ciência um horizonte ilimitado. Pesquisadores de todo o mundo, escolham a França, escolham a Europa!”. Caminho semelhante foi trilhado pelo Canadá, com o lançamento do programa “Canada Leads 100 Challenge”, que se prepara para um eventual êxodo de cientistas dos EUA.
Em carta enviada no mês passado, 13 países, dentre os quais a França, Alemanha e Espanha, pressionaram a União Europeia para intensificar os esforços de atração de cientistas. O Conselho Europeu anunciou que vai duplicar seu orçamento para seduzir pesquisadores com um programa de cátedras acadêmicas, que oferecem infraestrutura, laboratórios, “fast track” para visto e autonomia para a pesquisa. Iniciativas semelhantes brotam em diferentes países, como a Austrália, Índia, Taiwan, Reino Unido e a Alemanha, que espera atrair 1000 cientistas.
A incerteza provocada pelo governo, corte de verbas, restrições aos imigrantes e encolhimento da cooperação internacional formam uma tempestade perfeita para a fuga de cérebros dos EUA.
O Brasil também pode – e deve – acolher pesquisadores. O CNPq e a Fapesp tentam utilizar programas de apoio a estudantes e de repatriamento de brasileiros no exterior para também atrair cientistas dos EUA. Mas essas iniciativas além de genéricas, são tímidas. É preciso aproveitar rapidamente as oportunidades que Trump, paradoxalmente, abriu. Nossa indústria, a agricultura e os serviços podem se articular com universidades e governo para criar condições de oferecer ambiente acolhedor para cientistas que vivem enorme mal-estar em solo americano. No atual estágio, editais sem foco terão impacto limitado.
Nosso país precisa buscar poucas – mas boas – cabeças dispostas a estagiar em nossas universidades e empresas para ajudar o país a se aproximar da fronteira científica e tecnológica. Áreas transversais, a exemplo da Inteligência Artificial, da Biotecnologia, das tecnologias que desenvolvem a agricultura, combustíveis sustentáveis, vacinas e medicamentos, podem impulsionar inovações capazes de melhorar a economia e a vida da população.
Poucos profissionais cultivados em ambientes inovadores podem potencializar o sistema brasileiro de ciência e tecnologia. A USP tem condições de colocar em andamento um programa especialmente voltado para receber pesquisadores estrangeiros. Tomou iniciativas semelhantes no passado, como em sua fundação, quando não esperou que professores se voluntariassem, mas foi buscá-los para construir a mais avançada universidade da América Latina.
O tempo é curto. E as janelas podem se fechar a qualquer momento.
Glauco Arbix é professor titular da USP, pesquisador do Centro de Inteligência Artificial e do Instituto de Estudos Avançados e ex-presidente do Ipea e da Finep.