Por Margherita Stancati e Matthew Dalton, Dow Jones Newswires — Roma e Paris
11/02/2023 14h56 Atualizado há um dia
À medida que a Europa deixa de depender do gás natural da Rússia, a região agora quer tornar a energia solar sua principal fonte de eletricidade até 2030. Um desafio será conseguir isso sem acabar ficando dependente da China nessa área.
As empresas chinesas controlam hoje 80% da cadeia de suprimento mundial do setor de energia solar, dominando a produção dos painéis solares e de seus componentes.
Acabar com essa dependência quase total da China, um rival geopolítico, tornou-se premente para a União Europeia em sua jornada para reduzir as emissões de gases causadores do efeito estufa e preencher o vácuo resultante de seu abandono dos combustíveis fósseis russos, na esteira da guerra de Moscou contra a Ucrânia. Os países da UE vêm instalando mais painéis solares do que nunca, a maioria produzidos na China.
“Precisamos evitar entrar numa nova forma de dependência”, disse o ministro das Finanças da Itália, Giancarlo Giorgetti, referindo-se à China. “O que está faltando, e do que precisamos, é uma maior produção em setores-chave para nosso futuro.”
Os líderes da UE se reúnem em Bruxelas nesta semana para acertar um plano de subsídio aos produtores de painéis solares e a outras empresas “verdes”, em um momento de escalada dos subsídios dos EUA, China e Índia, entre outros países, a esses setores.
Erigir uma indústria de painéis solares viável economicamente na Europa não será fácil, dizem analistas e autoridades. As fábricas europeias precisarão concorrer com produtoras chinesas subsidiadas por Pequim e capazes de cortar preços para vender mais barato que as rivais.
O continente aposta em projetos locais, como o de uma enorme fábrica de painéis solares na Sicília, de propriedade da empresa italiana de energia Enel SpA. Nesta semana, a Enel detalhou os planos para aumentar a capacidade da fábrica até meados de 2024 e permitir uma produção de painéis solares suficientes para gerar 3 gigawatts de eletricidade ao ano, em comparação à atual, de 200 megawatts.
A expansão a tornaria a maior fábrica de painéis solares da Europa. A Enel e outras empresas europeias acreditam que seus painéis, mais eficientes e duradouros, e o apelo de um produto fabricado na Europa, tornarão viável a competição contra as empresas chinesas.
No entanto, a Enel e outras fabricantes europeias da área de energia solar ainda dependem predominantemente de lâminas de silício e de outros componentes fabricados na China para montar seus painéis.
A UE importou 17,5 bilhões de euros (o equivalente a cerca de US$ 18,75 bilhões) de componentes e equipamentos de energia solar da China nos primeiros dez meses do 2022, o que representa 95% de suas importações totais relacionadas ao setor.
A Enel já vem tomando medidas para depender menos da China, criando novas parcerias com fornecedores na Europa e na América do Norte, segundo Eliano Russo, que dirige a fábrica de painéis solares, chamada 3Sun, da empresa na Sicília.
“Precisamos reconstruir um ecossistema de parceiros para realocar a cadeia de suprimentos com o objetivo de acelerar a descarbonização sem comprometer nossa independência energética”, disse Russo.
A partir de 2025, a Enel deixará de depender tanto dos fornecedores asiáticos, de acordo com Russo. A expansão da fábrica siciliana custará cerca de 600 milhões de euros, dos quais 188 milhões de euros serão financiados pela UE. Entre as condições impostas pela UE para ceder o dinheiro está a de que 60% da produção da fábrica seja destinada ao mercado europeu.
A UE almeja que as fontes de energia renováveis representem 45% de sua produção de energia até 2030, em comparação aos atuais 17%. Sob o plano climático da UE, painéis solares, que são mais fáceis de instalar do que as torres de turbinas eólicas, se tornariam sua principal fonte de eletricidade. O bloco econômico quer ter cerca de 600 gigawatts de capacidade solar em operação até o fim da década, cerca de três vezes mais do que agora.
A UE estuda conceder mais subsídios para encorajar a construção de novas fábricas de painéis solares e a expansão das usinas de energia solar existentes. Por sua vez, os investidores da indústria solar europeia querem que o bloco relaxe suas regras de limitação ao auxílio governamental para empresas, passando a permitir que grandes quantias fluam para as fabricantes de painéis solares. Na semana passada, a Comissão Europeia (CE), braço executivo da UE, comunicou que apresentaria propostas para permitir mais subsídios à energia solar e a outras fontes de energia renováveis na Europa.
Ainda não está claro, no entanto, se a Europa está disposta a gastar o suficiente para permitir que os produtores locais sejam capazes de concorrer com a China.
Muitos produtores chineses, além de gozar de vantagens em termos de escala e de apoio do governo, também fabricam todos os componentes necessários, desde o polissilício até os painéis solares acabados. A Europa tem um dos maiores produtores de polissilício do mundo, a alemã Wacker Chemie AG, mas a empresa envia a maior parte de seu polissilício de qualidade para uso em painéis solares à China, onde é transformado em células solares.
A China está considerando restrições à exportação de equipamentos usados para fabricar barras e lâminas de silício – componentes fundamentais das células solares. Isso dificultaria que os países ocidentais tornem suas próprias indústrias solares independentes dos fornecedores chineses.
Os planos europeus também podem ser dificultados pelos EUA, que ofereceram subsídios pesados para as empresas construírem painéis solares e outras fábricas de tecnologia limpa sob a Lei de Redução da Inflação (IRA, na sigla em inglês).
“De repente, surgiu um novo concorrente, uma ‘outra’ China no flanco ocidental, dispondo dessa generosa política industrial”, disse Dries Acke, diretor de programas da associação setorial SolarPower Europe, [referindo-se aos EUA].
Os EUA têm poucas fábricas que produzem painéis solares ou seus componentes. Com a IRA, isso está para mudar.
A italiana Enel está entre as empresas preparando uma ofensiva para produzir em grande escala nos EUA, com planos para construir uma fábrica que, quando completa, produzirá painéis solares com capacidade equivalente a 6 gigawatts por ano. Também produzirá células solares – que atualmente não são feitas nos EUA.
Antes de 2010, as empresas europeias estavam entre as líderes mundiais na produção de painéis solares e outros equipamentos. Depois, a China começou a desenvolver sua indústria no setor, oferecendo enormes subsídios, como eletricidade barata para as fábricas, créditos a baixos juros e isenção de impostos. A exportação de painéis solares chineses para a Europa decolou e os preços foram para o chão, tirando muitos fabricantes europeus do mercado.
Em 2013, a CE impôs tarifas antidumping provisórias sobre os painéis solares chineses, após reclamações de fabricantes europeus. Pequim ameaçou retaliar com tarifas sobre automóveis e produtos de outros grandes setores europeus. O governo alemão, da então primeira-ministra Angela Merkel, temendo uma guerra comercial contra a China, pressionou a CE a reduzir as tarifas.
Em 2018, a Europa extinguiu completamente as tarifas, depois de decidir que precisava de todos os painéis solares que conseguisse. Os painéis solares chineses, mais uma vez, inundaram a Europa.
Atualmente, há pouco apoio político na Europa para restabelecer as tarifas. Em vez disso, as empresas com planos de construir novas fábricas de painéis solares preferem receber grandes subsídios europeus, que as ajudem a sobreviver a períodos em que os produtores chineses reduzam drasticamente os preços.
“Precisamos de mecanismos para ajudar a indústria europeia contra essas distorções”, disse Pascal Richard, cofundador da Carbon, empresa que pretende construir fábricas capazes de produzir todos os componentes dos painéis solares na França.
Fonte: Valor Econômico
