Por Edward Luce, Financial Times
26/07/2023 13h57 Atualizado há 15 horas
Enquanto fazia exames de rotina houve um momento em que meu coração quase parou. Uma enfermeira negra contou-me que provavelmente votaria em Donald Trump em 2024 por sentir que ela estava muito melhor quando ele era presidente. E quanto ao futuro da democracia dos EUA? “Não tenho muito tempo para pensar nisso”, respondeu. E quanto às reformas econômicas de Joe Biden? “Não as estou sentindo”, disse.
Anedotas podem ser enganosas, mas há dados que corroboram o ponto de vista da enfermeira. No governo de Trump, pela primeira vez em muitos anos, o crescimento salarial dos chamados trabalhadores de colarinho branco nos EUA superou a inflação. No governo de Biden, esses salários caíram em termos reais. É por isso que os americanos que aprovam o desempenho econômico de Biden mal chegam a um terço. E, em parte, também é por isso que apenas cerca de um terço dos negros — um grupo esmagadoramente pró-democrata — diz que as políticas de Biden ajudaram as pessoas negras.
Se os eleitores dos EUA levassem em conta as dificuldades das circunstâncias em que os presidentes atuaram, as perspectivas de Biden para 2024 seriam muito mais positivas. Ele assumiu o cargo no auge da pandemia, quando interrupções atípicas das cadeias de suprimentos internacionais atingiam a economia. Os EUA superaram com folga o desempenho do restante do mundo em sua recuperação da pandemia de covid-19.
A taxa de desemprego dos EUA, de 3,6% da força de trabalho, está próximo do menor patamar em 50 anos. A economia americana agora é cerca de 10% maior do que quando Biden assumiu o cargo há dois anos e meio. E a inflação nos EUA está caindo mais rapidamente do que em outros países. É bem possível que os EUA estejam rumando a uma “desinflação imaculada” — o tipo de pouso suave que o país não costuma ter.
Ainda assim, há uma grande diferença entre o cenário macroeconômico impressionante dos EUA e a forma como maioria dos americanos se sente. Tampouco há muito que Biden possa fazer para mudar isso nos 15 meses antes das eleições nacionais. O poder está nas mãos do Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA), que nesta quarta-feira provavelmente elevará os juros pela 11 vez nas últimas 12 reuniões (fez uma pausa na anterior).
O custo dofinanciamento imobiliário nos EUA está cada vez mais proibitivo à maioria das pessoas. A inflação é classificada como a maior preocupação pelos eleitores americanos. As únicas pessoas satisfeitas são aquelas no topo da pirâmide, com investimentos em ações, que tiveram uma inesperada forte recuperação em 2023. Um grande fator para definir o que ocorrerá em 2024 será a forma como o restante da população se sente.
A estratégia de Biden tem duas frentes. A primeira é “vender” aos eleitores sua doutrina econômica, a “bidenomics”. Ela inclui a série de reformas mais ambiciosa nos EUA desde o governo de Lyndon B. Johnson — uma grande modernização da infraestrutura, montanhas de dinheiro para a transição à economia verde, subsídios para trazer de volta ao país fábricas de semicondutores, limites aos preços dos medicamentos vendidos sob receita e uma reforma do Serviço de Receitas Internas (IRS, o Fisco dos EUA) para que os ricos paguem mais impostos.
A transmissão de mensagens políticas funciona melhor quando elas estão alinhadas com a realidade. A bidenomics está alinhada com a realidade futura: tem potencial para acelerar o crescimento da renda da classe média. A questão é quanto tempo levará para esse futuro chegar. Em grande medida, isso está fora do controle de Biden.
Isso nos leva à segunda parte de sua estratégia: sorte. Os economistas não previram o aspecto mais crítico da economia no pós-pandemia. Eles falharam em antever a inflação. A maioria agora crê que os EUA provavelmente evitarão uma recessão. Biden tem a esperança de que, desta vez, acertem. Não há como saber realmente.
Se a situação correr a favor de Biden, a inflação continuará a cair sem provocar perdas de empregos. Em algum momento, muito em breve, os ganhos salariais ultrapassarão a inflação e os consumidores começarão a sentir os benefícios. Nesse ponto, seu índice de aprovação aumentará.
É também provável, porém, que o crescimento sofra desaceleração em 2024, mesmo se os EUA não entrarem em recessão. A política monetária funciona com defasagem e o Fed ainda não acabou necessariamente com as altas de juros. Nesse caso, Biden se sairia bem em vencer a reeleição em 2024, mesmo que seja contra Trump.
Há duas questões em que Biden decepcionou a si próprio. A primeira foi seu pacote de estímulos econômicos de US$ 1,9 trilhão, grande demais, logo após assumir o poder. Isso, sem dúvida, alimentou a inflação. Nada pode ser feito a respeito agora. A segunda — não ter eliminado as tarifas de Trump sobre uma série de importações, como as de aço e alumínio —, Biden poderia sanar com uma simples canetada. Isso reduziria bastante a inflação.
As elites dos EUA estão obcecadas com a ameaça que Trump representa para a democracia. E estão certas em estar preocupadas: é um problema mortalmente sério. Os eleitores da classe trabalhadora, de todas as etnias, também estão preocupados com suas finanças. A pior posição em que Biden poderia se encontrar seria precisar pedir aos eleitores para escolherem entre seus bolsos e suas consciências. Insistir que Trump arruinaria a economia (e muito mais) provavelmente está correto. Mas isso não está alinhado com a memória de todos.
Fonte: Valor Econômico
