A Colômbia deu uma guinada à direita ao eleger presidente o advogado nacionalista e novato na política Abelardo De La Espriella, acelerando um movimento de inclinação conservadora que vem se espalhando pela América Latina.
No Peru, onde as autoridades seguem realizando a lenta apuração dos votos contestados do segundo turno presidencial de 7 de junho, a conservadora Keiko Fujimori está vencendo por pouco mais de 0,2 ponto percentual, ficando mais próxima de conquistar a Presidência após três tentativas fracassadas.
A Colômbia e o Peru – em um futuro próximo, se confirmada o triunfo de Keiko – se juntam a Argentina, Chile, Equador, Bolívia e Panamá nessa guinada à direita, em uma reversão marcante da chamada “onda rosa” que levou diversos governos de esquerda ao poder no início da década de 2020, entre eles Gustavo Petro, o primeiro esquerdista a presidir a Colômbia na história.
Pela legislação colombiana, é necessária uma contagem final validada, supervisionada por tabeliães e juízes, que estava quase concluída no fim da noite de domingo. Ainda não está claro se o resultado coincide integralmente com a apuração preliminar, que indicou vitória de Espriella por 49,66% contra 48,70% do senador esquerdista Iván Cepeda, apoiado por Petro.
Em toda a região, inclusive na Colômbia, economias frágeis e o aumento da criminalidade remodelaram as prioridades dos eleitores. Candidatos da direita mais radical ganharam espaço ao prometer uma repressão mais dura ao crime, em meio à ascensão global do nacionalismo de direita e ao esforço do presidente americano, Donald Trump, para conter a crescente influência da China na América Latina e ampliar o controle dos EUA.
“Este é um alinhamento incomum dos astros para Trump”, disse Steven Levitsky, professor de Estudos Latino-Americanos e de governo da Universidade Harvard. “Raramente se vê um grande número de governos tão convergentes ideologicamente quanto estamos vendo agora.”
Ao longo do último ano, Trump ordenou ataques que mataram mais de 150 pessoas em supostas embarcações do narcotráfico no Caribe, lançou uma aliança regional de direita apelidada de “Escudo das Américas” e capturou o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, em uma operação realizada em Caracas.
Petro tem sido o crítico mais contundente de Trump na região, o que lhe rendeu ameaças de ação militar e sanções. Espriella, por outro lado, é admirador do presidente americano.
Cidadão norte-americano naturalizado e ex-residente de Miami, ele tem manifestado apoio público a Trump e recebeu seu endosso antes do segundo turno. Também prometeu aderir ao Escudo das Américas, intensificar o combate ao narcotráfico, flexibilizar regulações para empresas, reduzir impostos e retomar projetos de petróleo e gás interrompidos durante o governo Petro.
A vitória de Espriella ocorre num momento em que a Colômbia enfrenta escassez de gás, com os mercados globais de energia abalados pela guerra contra o Irã e pelo fechamento do Estreito de Ormuz.
Com vastas reservas de petróleo na Guiana e na Venezuela — que Trump prometeu desenvolver — e uma das maiores formações de xisto do mundo localizada na Argentina, especialistas afirmam que a América Latina pode se consolidar como uma potência energética global.
Desafios econômicos e de segurança
Líderes de direita na Argentina, Chile, Peru e Colômbia ganharam apoio prometendo cortes de impostos, redução do tamanho do Estado e regras mais flexíveis para mineração e combustíveis fósseis. No entanto, muitos enfrentam déficits orçamentários, o que os obriga a promover cortes de gastos impopulares que desencadearam protestos.
A Bolívia declarou estado de emergência neste fim de semana e começou a desobstruir bloqueios que paralisaram o país por mais de 50 dias, enquanto sindicatos e outros grupos protestavam contra medidas de austeridade adotadas pelo presidente de centro-direita Rodrigo Paz.
No Chile, o índice de aprovação do presidente José Antonio Kast despencou após a guerra contra o Irã levar seu governo a elevar os preços dos combustíveis, enquanto as medidas de austeridade do presidente argentino Javier Milei têm sido recebidas com protestos recorrentes.
Os desafios de segurança persistem apesar das promessas de combate firme ao crime. No Equador, os homicídios aumentaram 30% no ano passado, e o governo do presidente Daniel Noboa atribuiu a alta às disputas territoriais entre facções criminosas fragmentadas que competem pela hegemonia.
Os homicídios também dispararam na Costa Rica sob o populista de direita Rodrigo Chaves. Sua sucessora, a presidente Laura Fernandez, prometeu uma guerra contra o crime, mas os assassinatos continuaram elevados à medida que o pequeno país centro-americano se tornou um importante ponto de passagem para carregamentos de cocaína sul-americana destinados aos Estados Unidos e à Europa.
Teste díficil
O narcotráfico, a mineração ilegal e a reduzida presença do Estado em partes da Colômbia provavelmente representarão um teste difícil para Espriella, disseram analistas. O direitista venceu por uma margem inferior a 1% e terá de governar com um Congresso dividido, no qual o partido Pacto Histórico, de seu rival Cepeda, detém mais cadeiras do que qualquer outra legenda.
O estilo de vestir de Espriella e as promessas de construir megapresídios levaram a comparações com o líder de El Salvador, Nayib Bukele, que se autodenomina o “ditador mais descolado do mundo”. O presidente eleito na Colômbia nega estar copiando o salvadorenho.
“A Colômbia é um país muito maior e muito mais complexo de administrar do que El Salvador, e importar as soluções de segurança salvadorenhas para a Colômbia não é viável, seja do ponto de vista jurídico, orçamentário ou das relações internacionais”, afirmou Sergio Guzman, fundador da Colombia Risk Analysis.
Levitsky disse que Espriella terá de trabalhar com as fortes instituições democráticas colombianas para aprovar reformas e que, “se tentar ser mais radical, poderá enfrentar dificuldades”.
22/06/2026 10:07:53
Fonte: Valor Econômico


