Os mercados operam numa euforia que revela um enorme contraste com o que se viu há poucos dias. Isso porque os últimos dados de atividade e inflação nos Estados Unidos afastam pelo menos um ponto que todos temem: a possibilidade de um pouso forçado da economia que desaguaria numa recessão, péssima para o mundo todo.
Um olhar rápido na alocação das apostas para o início dos cortes de juros pelo Federal Reserve (Fed, banco central americano) na ferramenta FedWatch do CME Group mostra o vaivém dos diagnósticos: ora a necessidade de o BC americano sair dando um tiro mais forte (redução de 0,5 ponto), ora mais fraco (0,25 ponto), além de mudanças no fim da curva de juros futuros.
Nesta quinta, os mercados precificaram uma chance de 23,5% de corte de 0,5 ponto, mas, há uma semana, as posições estavam sugerindo probabilidade de 55%.
Alegria com a resiliência da atividade, medo com apontamentos de fraqueza do mercado de trabalho, certa tranquilidade com o processo de desinflação nos EUA — eis o mote das últimas análises.
O curioso é ver os mesmos índices acionários que tendiam a um “estouro” de bolha, avançarem para novos recordes intradiários em Nova York (e aqui também); ver o dólar em tendência firme de alta, especialmente contra o iene, lembrando que exatamente a força da moeda japonesa, após a elevação de juros pelo Banco do Japão (BoJ), foi um dos fatores decisivos de estresse global pelo desmonte de operações de “carry trade”, que apostam na diferença de juros entre países e mexeram (e muito) com a performance do real.
O cenário mudou totalmente de novo? Possivelmente não; novos solavancos estão à espreita. Vendas mais fortes no varejo dos EUA, como foram vistas nesta quinta, pedidos de seguro-desemprego mais fracos, queda na produção industrial e nos preços de importação formaram uma paisagem de múltiplas interpretações para os investidores, ainda mais porque a abertura dos indicadores disse mais do que os números crus revelaram.
Na semana passada, houve uma avalanche de revisões de “calls” de bancos para o próximo passo (mais forte) do Fed (que estaria atrás da curva) e alertas de possíveis reuniões extraordinárias do BC americano. Agora, o que se vê é a afirmação, pelos mesmos analistas, de que o que está certo mesmo é uma dose “tradicional” de 0,25 ponto de redução da Fed fund rate no começo do ciclo de afrouxamento em setembro.
Parece pouca diferença, mas não é. E ainda vêm pela frente os novos dados do “payroll” (emprego) e a revisão do cenário do Fed na próxima reunião. E essa volatilidade de visões e posições de mercado só revela sem dúvida uma coisa: um nível muito elevado de incerteza com a economia (e a política monetária) dos EUA.
Fonte: Valor Econômico