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A disparada dos juros e do dólar nas últimas semanas está causando uma reavaliação generalizada que bancos e analistas têm das estimativas de empresas brasileiras para o ano de 2025.
A expectativa de lucros menores por causa do impacto nas despesas financeiras das empresas faz com que os bancos reduzam os preços-alvo das ações – geralmente para 12 meses – e, em última instância, as recomendações para comprar, manter ou vender os papéis.
Dos 63 cortes de preço-alvo anunciados neste ano, a indústria foi a maior afetada pelos ajustes para baixo, com 12 revisões negativas em companhias como Randoncorp e Tupy. Na sequência, vêm locação de veículos e equipamentos, com dez cortes, e transportes, com nove reduções.
A quantidade de revisões negativas até o dia 15 já é superior à de todo o mês de janeiro de 2023, segundo levantamento similar feito pelo Valor. Naquela ocasião, foram 39 cortes nos primeiros 31 dias do ano. O cenário bem diferente também pode ser visto a partir do número de elevações de preço-alvo anunciadas por analistas. Se em janeiro de 2024 foram 59 aumentos, até agora são apenas 10 em 2025.
Os analistas utilizam o chamado método do fluxo de caixa descontado na avaliação dos ativos, trazendo ao presente a projeção dos fluxos de caixa futuros e determinando a taxa de desconto a partir das estimativas dos bancos. Quanto maiores os juros, maior a tendência de redução de fluxo de caixa e, assim, dos preços-alvo.
A quantidade de revisões negativas até o dia 15 já é superior à de todo o mês de janeiro de 2023, quando houve 39 cortes
Desde o fim de 2024, com a deterioração no cenário macroeconômico brasileiro em meio à desconfiança quanto ao compromisso do governo com a questão fiscal, bancos vêm atualizando projeções de juros e de câmbio para 2025. Na pesquisa Focus do Banco Central mais recente, agentes do mercado veem a Selic a 15% e o dólar em R$ 6 no fim do ano.
Esse cenário acaba afetando as empresas com maior endividamento ou as que têm base de custos atrelada à divisa americana. Levantamento recentemente feito pelo Valor Data mostrou que a alavancagem das companhias medida pela relação entre dívida líquida e o lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda) de 23 das cem maiores empresas brasileiras em receita está acima de três vezes.
Para o BTG Pactual, a perspectiva de juros e dólar mais altos tem impacto direto nas companhias dos setores de infraestrutura e transporte, dado que são empresas normalmente com alavancagem elevada e que necessitam de investimentos constantes. Em relatório, os analistas Lucas Marquiori e Fernanda Recchia escrevem que um aumento de dois pontos percentuais nos juros reduz o lucro do setor em torno de 9% neste ano.
Nesse sentido, eles veem Simpar, Ecorodovias, Movida e CCR como as mais impactadas entre as de sua cobertura. Do outro lado, companhias com menor alavancagem, como WEG, Embraer e Marcopolo, são mais resistentes aos juros altos e acabam beneficiadas pela exposição maior ao mercado externo.
Em um cenário em que o dólar poderia chegar a R$ 6,50, empresas de bens de capital, com receitas vindas de exportações ou diretamente do mercado externo, se beneficiariam diretamente. Já Gol e Azul ficariam mais vulneráveis dada sua base de custos. “Em um cenário marcado por depreciação do real e juros altos, exportadoras com baixa alavancagem se tornam boas opções de investimento”, afirma o banco.
O Bank of America (BofA) faz avaliação semelhante, reduzindo preços-alvo do setor, considerando que as empresas de transporte e bens de capital já tiveram o desempenho no ano passado afetado pela deterioração da perspectiva fiscal no Brasil, com a taxa de juros e o custo de capital mais altos, e pela elevada alavancagem do setor.
A Localiza é a principal escolha do banco para o setor, com a expectativa de crescimento nos lucros. Por outro lado, Azul e Ecorodovias são as ações menos favorecidas, uma vez que a primeira apresenta um grande risco de diluição na posição dos investidores, e a segunda possui alta alavancagem e grandes compromissos de investimentos assumidos.
Para o Santander, “será importante monitorar o que os executivos falam sobre tendências para o início deste ano”
As companhias de varejo devem manter bons resultados na temporada de balanços do quarto trimestre do ano passado, mas a indicação de como estão vendo esse início de 2025 e a deterioração no cenário macroeconômico será importante, afirmam Ruben Couto, Eric Huang e Vitor Fuziharo, analistas do Santander. A tendência deve ser de continuidade na expansão de rentabilidade.
“Em nossa visão, mais do que analisar os resultados do quarto trimestre, será importante monitorar o que os executivos falam sobre tendências para o início deste ano”, diz o banco. Os analistas do Santander notam que empresas como Grupo Casas Bahia e GPA, bastante alavancadas, podem expressar preocupação em torno da deterioração do cenário macro, enquanto Vivara, Pague Menos, C&A e Lojas Renner devem ter bons números.
Companhias do setor de saneamento básico e energia elétrica, as concessionárias públicas também já estão sentindo os efeitos da deterioração do cenário macroeconômico em suas estimativas. Como são empresas que estão em constante necessidade de investimentos, o aumento do custo de capital com os juros elevados afeta diretamente a capacidade de expansão.
Os analistas Francisco Navarrete, João Fagundes e Andre Silveira, do Bradesco BBI, cortaram recentemente os preços-alvo das ações da Eletrobras, mas mantiveram perspectivas positivas sobre a maior elétrica do país nos próximos trimestres, o que justifica a recomendação de compra, Porém, segundo eles, os juros mais altos devem ter impacto na geração de lucro em torno de 9% em 2025 e 5% em 2026.
Foi a mesma justificativa utilizada pelo UBS BB para reduzir o preço-alvo da Sabesp. Os analistas Giuliano Ajeje, Henrique Simões e Gustavo Cunha dizem em relatório que a empresa tem espaço significativo para melhorar eficiências de receitas e despesas e reduzir o impacto que juros mais altos terão nos seus investimentos.
Mesmo companhias que lidam com matérias-primas, como mineradoras e siderúrgicas, em tese mais blindadas das intempéries macroeconômicas, não ficaram ilesas às revisões de estimativas feitas pelos bancos. Tanto Bradesco BBI quanto Itaú BBA cortaram suas recomendações para Usiminas, vendo que a exposição maior da empresa ao mercado doméstico é um risco.
Os analistas Rafael Barcellos, Camilla Barder e Matheus Moreira, do Bradesco BBI, escrevem que sua preferência entre exportadoras de commodities brasileiras neste ano é pelas mineradoras, vendo que as siderúrgicas ainda enfrentam um cenário de pressão. Entre as siderúrgicas, o banco vê que há pouco espaço para novo crescimento na demanda por aço neste ano.
Já para Daniel Sasson, do Itaú BBA, a preferência é por companhias ligadas ao setor de papel e celulose, dada a perspectiva de recuperação nos preços dos produtos. Segundo ele, as ações do setor são uma boa opção defensiva em meio à volatilidade do mercado doméstico e a depreciação acentuada do real, e tanto Suzano quanto Klabin mostram bom potencial de geração de caixa.
“Empresas como Gerdau, Usiminas e Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), por sua vez, estão mais expostas à deterioração do cenário macro. Usiminas tem poucos gatilhos de curto prazo e geração de caixa fraca, o que justifica a nova recomendação”, afirma o banco. Gerdau tem recomendação de compra mesmo com perspectiva mais fraca por conta de bons múltiplos das ações.
Mesmo empresas do setor financeiro ficam sob pressão, na visão do Itaú BBA, dado que os resultados do quarto trimestre devem ser os “últimos raios do pôr-do-sol”. Eles cortaram a recomendação de Bradesco, com o argumento de que o cenário de recuperação micro e macroeconômica não deve se concretizar, reduzindo receitas em um momento de reestruturação do banco.
Os analistas indicam que será importante para o mercado a avaliação que os executivos das várias companhias darão para este início de 2025 durante as teleconferências de resultados do quarto trimestre. Com os fundamentos das companhias ainda robustos, as ações devem ficar mais sensíveis às projeções e metas colocadas pelos executivos do que às condições do cenário macroeconômico.
Fonte: Valor Econômico
