Ano de eleição é, em tese, o habitat natural dos fundos multimercado. Volatilidade é a matéria-prima dessa indústria: quanto mais os preços se movem, mais oportunidades existem para gestores com mandato flexível em juros, câmbio, bolsa e mercados internacionais. Mas a história recente mostra que essa relação está longe de ser automática. Eleições produzem tanto os melhores quanto alguns dos piores momentos da classe, e 2026 já entregou os dois em um único semestre.
Levantamento da DataBay, elaborado a partir de dados públicos da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) e de pesquisas de mercado divulgadas por XP e Elos Ayta, reconstitui como a classe atravessou os três últimos ciclos eleitorais — e o que o padrão sugere para os próximos meses.
Três eleições, três roteiros diferentes
Em 2014, a disputa entre Dilma Rousseff e Aécio Neves transformou as pesquisas eleitorais no principal fator de preços. O resultado para os fundos foi decepcionante: de janeiro a setembro daquele ano, os multimercados renderam em média 7,5%, abaixo do Certificado de Depósito Interbancário (CDI), e levantamento da XP à época apontava que 74% da categoria não conseguiu superar o benchmark (valor de referência).
Até o Fundo Verde, de Luis Stuhlberger, acumulava apenas cerca de 3% no período, com seis dos nove primeiros meses do ano no vermelho — desempenho que só havia sido pior em 2008.
Em 2018, o roteiro foi de choques sucessivos. A greve dos caminhoneiros em maio, a corrida eleitoral indefinida e o aperto de juros nos Estados Unidos derrubaram o IHFA, índice de hedge funds (Fundos de hedge usam estratégias de investimento de risco para compensar perdas em suas principais participações) da Anbima, para alta de apenas 3,18% no primeiro semestre — na prática, um retorno colado no CDI em um ano que prometia muito mais.
Já 2022 foi o oposto: o melhor ano da classe em muito tempo. O IHFA fechou com valorização de 13,66%, acima do CDI de 12,39%, e os multimercados foram a aplicação mais rentável do ano.
O primeiro trimestre de 2022, com guerra na Ucrânia e eleição no horizonte, foi o quarto melhor trimestre de toda a série do índice, iniciada em 2007. Gestores macro capturaram com precisão o ciclo de alta de juros global: o SPX Raptor, de Rogério Xavier, acumulava alta de 53% no ano até o fim de outubro, contra 8,9% do CDI no mesmo período.
A lição desses três ciclos, segundo o levantamento da DataBay, é clara: eleição não garante retorno. Ela garante dispersão. Nos três anos, a distância entre os melhores e os piores fundos se alargou dramaticamente. E é exatamente isso que está se repetindo agora.
2026: a retomada interrompida e a prova de fogo
O ano começou com a expectativa de virada para uma indústria que perdeu cerca de R$ 790 bilhões em resgates nos últimos quatro anos. Em 2025, o IHFA subiu cerca de 15% e superou o CDI (14,3%) pela primeira vez desde 2022, e o início do ciclo de corte da Selic em março reforçava o otimismo.
Mas o ataque dos Estados Unidos e de Israel ao Irã, no fim de fevereiro, pegou a maioria dos gestores no contrapé: levantamento da Elos Ayta com os 264 maiores multimercados mostrou que 71% tiveram desempenho negativo entre 28 de fevereiro e 16 de março. Em março, o IHFA recuou 3,42%, a maior queda mensal desde os 6,24% de março de 2020, no estouro da pandemia.
De novo, porém, a média esconde a dispersão. O IHFA fechou o primeiro trimestre praticamente no zero a zero (0,05%), contra um CDI de 3,5%, e apenas 26% dos 276 fundos que compõem o índice superaram o CDI no período.
Mas houve quem atravessasse bem a turbulência: o Verde conteve os danos e preservou resultado, sustentado por proteções ligadas à alta da inflação americana, enquanto a JGP, de André Jakurski, manteve ganho positivo com uma posição contrária no mercado de juros local, avaliando desde o início do ano que o ciclo de cortes seria curto.
A eleição entrou no preço e virou o posicionamento
O dado mais revelador do semestre, contudo, não está na rentabilidade, e sim no posicionamento. Pesquisa da XP com 25 gestoras de multimercado, realizada entre 8 e 12 de junho, registrou uma das reversões mais rápidas da série histórica: em abril, 100% dos gestores estavam vendidos em dólar, o maior consenso já registrado no levantamento. Em junho, 80% estavam comprados na moeda americana.
As posições compradas em real despencaram de 91% para 31%, e a exposição comprada em bolsa brasileira recuou de 71% para 60%. O chamado “kit Brasil”, que dominou as carteiras no início do ano, foi desmontado em questão de semanas.
Parte desse movimento reflete o choque de energia e commodities vindo do Oriente Médio. Mas a leitura dos próprios gestores incorpora cada vez mais a eleição de outubro: a expectativa para a Selic no fim de 2026 subiu para 14,1%, com inflação projetada em 5,2%. São números que embutem prêmio de risco fiscal e eleitoral, não apenas geopolítica.
O que observar até outubro
Para o investidor, a mensagem que emerge do comparativo histórico tem três camadas.
Primeiro: em ano eleitoral, a seleção de gestor importa mais do que a decisão de estar ou não na classe, já que a dispersão entre fundos tende a superar em muito a diferença entre a média da categoria e o CDI.
Segundo: os gestores que se destacaram em 2022 e no primeiro semestre de 2026 foram os que carregaram teses estruturais com proteções, e não os que tentaram acertar o resultado das urnas.
Terceiro: com CDI acumulado de 6,7% no semestre — contra 2,8% do IHFA —, o custo de oportunidade segue alto, e o multimercado precisa justificar seu espaço na carteira com gestão ativa de verdade.
A história sugere que os próximos quatro meses serão o período de maior oportunidade e de maior risco do ciclo. Foi assim em 2014, em 2018 e em 2022. A diferença é que, desta vez, a indústria chega ao teste eleitoral menor, mais selecionada e com muito mais a provar.
Fonte: E-Investidor
