Jerome Powell: “Tínhamos uma projeção de inflação para o fim do ano e ela meio que desmoronou” — Foto: Al Drago/Bloomberg
Para os mercados, o presidente do Federal Reserve (Fed, banco central americano), Jerome Powell, é o Grinch que roubou o Natal. Mas a correção nos bônus, moedas e ações agora em andamento, depois dos pronunciamentos mais recentes do banco central dos Estados Unidos, é uma minicrise criada pelos próprios investidores.
As reuniões do Fed, e as minúcias de suas declarações públicas, são sempre eventos importantes para os investidores, estabelecendo o tom em todas as grandes classes de ativos. A reunião de quarta-feira, a última de 2024, trazia o potencial de um impacto maior, dado o momento – bem na iminência do segundo mandato de Donald Trump na Casa Branca.
A decisão sobre juros – um corte de um quarto de ponto na taxa referencial – estava dentro das expectativas. Mas a coisa piorou a partir daí, já que a aparente resistência do banco central em relação a novos cortes no ano que vem – uma alusão ao impacto potencialmente inflacionário das políticas econômicas de Trump – caiu como uma torta de Natal mofada.
As ações americanas despencaram, eliminando quase todos os ganhos do S&P 500 desde a reeleição de Trump. A manhã seguinte também trouxe uma maré vermelha parecida para as ações asiáticas e europeias. O dólar subiu, fazendo o euro e o iene caírem desajeitadamente, e os bônus do governo dos EUA perderam força, levando o rendimento dos Treasuries de 10 anos para mais de 4,5%.
O presidente do Fed está enfrentando algumas críticas aqui. Seu comentário na entrevista de imprensa após a reunião, de que a projeção de fim de ano para a inflação “meio que desmoronou”, não é o tipo de autoafirmação que os investidores buscam em um presidente do Fed. Além disso, o aumento em algumas medidas de inflação antecede confortavelmente a nova posse de Trump.
Mas os mercados estão passando por momentos difíceis em grande parte porque o consenso entre os investidores sobre os próximos passos se tornou extremamente rígido – girando em torno dos temas de excepcionalismo americano nas ações e da superação da inflação, que vinham sustentando bem os bônus. O caminho para uma trajetória tranquila nos mercados em 2025 ficou excepcionalmente estreito e extremamente saturado de visões alinhadas, sendo necessário apenas um leve empurrão do Fed para desequilibrar tudo.
O espetáculo anual das perspectivas de mercado para o ano que vem dos grandes bancos e gestores de ativos demonstrou um conjunto quase unânime de visões. O Deustche Bank está entre os mais otimistas, com sua previsão de que o índice S&P 500, de grandes ações dos EUA, subirá para os 7.000 pontos até o fim do próximo ano. Após o choque da última noite, essa projeção representa um aumento de 20% em relação ao nível atual. É uma estimativa ousada, mas não totalmente fora da curva. Diferenças fundamentais significativas de opinião são difíceis de encontrar.
“O grau de uniformidade nas projeções para o próximo ano quebrou todos os recordes anteriores”, observa Dario Perkins da TS Lombard.
O problema com isso era duplo. Primeiro, significava que muito, se não tudo, da narrativa já estava precificada. Segundo, aglomerar-se em torno de temas centrais tende a exagerar a escala das reações do mercado quando as coisas dão errado. Aí entra Powell, pela esquerda do palco.
“As carteiras de todos estão voltadas para o excepcionalismo dos EUA”, disse Mike Riddell, um gerente de portfólio do Strategic Bond Fund da Fidelity, falando com alguma previsão na semana anterior à decisão do Fed. “O consenso pode estar certo e não vemos muito que o tire dos trilhos. Mas se você vir algo que mova a narrativa, poderá ter movimentos de mercado realmente violentos.”
Já estivemos nesse ponto antes, em uma série de mercados diferentes, mas isso não impede os investidores de cometerem o mesmo erro repetidamente. Nessa mesma época no ano passado, Powell pegou o mercado desprevenido na direção oposta, dando uma dica de cortes nas taxas de juros que os investidores passaram a exagerar enormemente e fora de proporção.
As apostas concentradas entre investidores também causaram prejuízos no começo de agosto, quando um relatório desanimador sobre o mercado de trabalho dos EUA impactou diversas apostas populares e correlacionadas. No fim de setembro, as ações chinesas, amplamente desprezadas, dispararam depois que Pequim anunciou medidas de estímulo para tentar reverter a economia e os mercados debilitados. Os investidores haviam evitado a China de forma tão significativa que as ações subiram 40% em poucos dias, à medida que os fundos se aglomeraram em uma entrada estreita.
Os últimos distúrbios são um lembre útil de que, apesar da simplicidade encantadora do tema do excepcionalismo americano, há armadilhas espalhadas por todo o mercado para os investidores no ano que vem.
A suposição de que a economia dos EUA passará sem problemas pelo primeiro ano de Trump 2.0 é ousada. Ignorar as armadilhas (na verdade, bastante óbvias), especialmente em torno da inflação, é a “negociação definitiva do ‘confie em mim’”, diz Greg Peters, diretor adjunto de investimentos do fundo PIGM Fixed Income. “Isso me parece estranho.”
Agora, os investidores não devem presumir que a temporada de festas de fim de ano resolverá toda essa angústia. Como mostraram os últimos dias de 2018, os portfólios podem oscilar, e realmente oscilam, de forma selvagem, mesmo quando muitos mercados importantes estão fechados, funcionando em ritmo reduzido. No mínimo os volumes de negociação reduzidos nesta época do ano podem piorar as coisas.
Alguns gestores de fundos estarão se sentindo incomodados com essa surra de fim de ano. Mas Powell fez um favor a todos nós ao nos lembrar que o ano que vem não será para os fracos de coração, e a sabedoria das multidões nem sempre é nossa amiga.
Fonte: Valor Econômico
