Por Lucianne Carneiro — Do Rio
26/10/2022 05h00 Atualizado há 3 horas
As contratações de trabalhadores temporários pelo comércio no fim de 2022 devem ser maiores do que as de 2021. O desempenho será determinado, principalmente, pela retomada da força do consumo presencial, mas limitado, ao mesmo tempo, pela inflação ainda alta. Juros elevados e endividamento e inadimplência expressivos também devem contar para o resultado.
Projeção da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) antecipada com exclusividade ao Valor é de que 109,4 mil trabalhadores sejam contratados nesta temporada pelo varejo em todo o país, acima dos 97 mil em 2021 e o maior nível desde 2013 (115,5 mil). Este ano, além da Black Friday e do Natal, a Copa do Mundo fora de época é aposta dos empresários para alavancar as vendas.
O trabalho considera que as vendas neste período devem crescer 2,1% no fim de 2022 frente a igual período do ano passado. No fim de 2021, houve queda de 2,1% ante igual período de 2020. A chegada da variante ômicron em meados de dezembro do ano passado afetou as vendas do comércio, depois que muitos trabalhadores temporários já tinham sido contratados.
A melhor previsão para trabalhadores extra desde 2013, no entanto, é acompanhada por uma expectativa de queda da renda real média desse grupo. Segundo a CNC, a remuneração média desses trabalhadores temporários deve ser de R$ 1.626, o que significa variação nominal de 2,5% frente aos R$ 1.587, mas uma queda real de cerca de 4%.
“O varejo está apostando na consolidação do consumo presencial de volta à realidade. Tivemos um longo período de isolamento social e a volta do consumo presencial está por trás dessa melhora”, diz o economista sênior da CNC Fabio Bentes, responsável pelo estudo.
“A gente vê um crescimento contínuo dessas contratações nos últimos anos, se desconsiderarmos 2015/2016 e 2020. Em 2014, foram 76,4 mil e agora prevemos 109,4 mil para 2022. São 33 mil vagas a mais, é um crescimento positivo, mas não é tão espetacular”, reconhece.
O cálculo da CNC para trabalhadores temporários leva em consideração apenas as contratações sazonais, sem incluir os trabalhadores que tradicionalmente são incluídos no mercado de trabalho mês a mês. O trabalho usa os dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) como ponto de partida e, por isso, inclui apenas os empregos formais, com carteira de trabalho assinada.
Na avaliação dele, pesam sobre as perspectivas de vendas fatores macroeconômicos como a inflação e a escalada de juros. “A inflação em 12 meses está acima de 7%. Já foi maior, mas ainda pesa no bolso do consumidor. E com a escalada nas taxas de juros, o financiamento para pessoa física está no maior patamar desde 2018”, explica.
Assessor econômico da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP), Jaime Vasconcellos também cita o endividamento dos consumidores e a inadimplência elevados como fatores restritivos ao varejo, além da inflação elevada e da alta específica dos preços de alimentos, acima da média da inflação. O setor de alimentação, lembra ele, responde por um terço do faturamento bruto do varejo paulista.
“A inflação alta ainda é relevante para afetar o consumo, mesmo que a gente tenha visto três meses de deflação. E a questão do endividamento e da inadimplência também é importante. A dívida em si não é um problema, mas o que se vê é o crescimento da inadimplência. É a pessoa que tem dívida e não consegue pagar”, diz Vasconcellos.
A previsão da FecomercioSP é de que o Estado deve gerar 47.500 vagas de trabalho assinadas no setor de comércio neste último trimestre de 2022, mesmo patamar de igual período de 2021 (47.472).
Previsão da Confederação Nacional do Comércio é de 109,4 mil vagas, maior nível desde 2013A Casa & Vídeo — rede de varejo com 225 lojas em Rio de Janeiro, Espírito Santo, Minas Gerais e São Paulo — é uma das que pretendem contratar neste fim de 2022. A diretora de gente & gestão, Marcia Lassance, revela que serão 400 vagas temporárias ao todo neste fim de ano, sendo 100 para os centros de distribuição e as demais para as lojas (caixas, atendimento e organização de estoques). Isso representa cerca de 13% do quadro atual de funcionários da rede.
“Não temos orçamento fechado para 2023, mas historicamente nossa taxa de aproveitamento de temporários é de 30%, seja para novas vagas ou para substituição”, diz ela.
Diretor comercial da Casa & Vídeo, Afonso Mendes prevê um aumento entre 12% e 15% das vendas da rede no quarto trimestre de 2022 frente a igual período de 2021, considerando a mesma base de lojas. Se considerar as novas lojas, esse número sobe para algo entre 20% e 30%.
“Acreditamos que a Copa fora de época vai ajudar nas vendas desse fim de ano e estender a demanda da Black Friday por semanas. Nossa perspectiva é otimista, apesar de uma restrição no número de parcelas do financiamento por causa do custo do dinheiro. Parte do componente que ajuda a explicar as vendas é também o preço médio”, afirma Mendes.
Nem todos os empresários do comércio, no entanto, estão decididos a contratar temporários, como mostra sondagem feita pelo Instituto Fecomércio de Pesquisas e Análises do Rio de Janeiro (Ifec RJ) e também antecipada com exclusividade ao Valor. A pesquisa aponta que menos de um terço (27,9%) dos empresários na cidade do Rio pretendem contratar profissionais para essa época do ano, enquanto 60% revelam que não vão contratar.
Entre os que vão contratar, 40,2% afirmam que os temporários devem ser todos ou quase todos aproveitados até janeiro de 2023. Outros 20% devem estender esse período de contratação para fevereiro de 2023 ou depois. O levantamento foi feito em 912 estabelecimentos na cidade do Rio de Janeiro no início de outubro e inclui empresários dos setores de comércio e serviços. Por causa de diferenças na metodologia usada em anos anteriores, não há dados comparáveis para esses indicadores do Ifec RJ.
“A gente tem uma recuperação muito forte de emprego este ano. Essa parcela de menos de um terço que vai contratar poderia dar uma conotação negativa, mas é preciso ser claro que não temos esse parâmetro, não há um padrão histórico. Chama a atenção o fato de que mais de 60% dos que vão contratar temporários consideram ampliar o quadro de funcionários”, afirma o diretor executivo do Ifec RJ, João Gomes.
O cenário de juros altos tende a beneficiar setores do varejo que não dependem de crédito para alavancar suas vendas, avalia Fabio Bentes. Isso favorece hipermercados e supermercados e lojas de vestuário e calçados e limita vendas de eletroeletrônicos, por exemplo.
Fonte: Valor Econômico