Laboratório planeja manter expansão acima de 20% em todas as suas unidades de negócio
Por Stella Fontes — De São Paulo
21/03/2023 05h01 Atualizado há 2 dias
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Marques, presidente: “Estamos sempre avaliando ativos que tenham sinergia com a companhia, como foi o caso da Bayer” — Foto: Ana Paula Paiva/Valor
A União Química, uma das mais tradicionais farmacêuticas brasileiras, está avaliando novas aquisições no país e no exterior, como parte da estratégia de chegar a mais mercados – em termos de área terapêutica e de geografia – e manter o ritmo de expansão acima de 20% em todas as unidades de negócio. Crescer organicamente, via lançamentos e ampliação das vendas do portfólio atual de remédios, também está nos planos.
No ano passado, a companhia, cuja receita líquida subiu 12,6%, a R$ 3,8 bilhões, concluiu a compra de nove marcas e da fábrica de hormônios da Bayer Schering em São Paulo (SP), ampliando presença em mais de 30 países e se consolidando como líder em contraceptivos hormonais orais na América Latina.
“A aquisição vai facilitar a entrada com novos produtos nesses mercados e acelerar nosso processo de internacionalização”, disse ao Valor o dono e presidente da União Química, Fernando de Castro Marques. Pelo acordo, além de ficar com as nove marcas e a fábrica de Cancioneiro, a farmacêutica brasileira passou a produzir para a Bayer, no país, medicamentos que não foram vendidos no pacote, como os anticoncepcionais Yaz e Yasmin.
Bastante usada na Europa e nos Estados Unidos, a terceirização da produção (“outsourcing”) de remédios é menos comum no Brasil. Ainda assim, se tornou um negócio relevante para a União Química, que hoje é fornecedora de outros laboratórios brasileiros e de multinacionais como GSK, Novartis e Zoetis. No ano passado, as receitas com a produção para terceiros chegaram a R$ 663,2 milhões, equivalentes a 15% dos negócios no Brasil.
Eurásia e Oriente Médio estão entre as regiões de interesse do grupo, que participou de uma feira do setor em Dubai
Conforme Marques, com a aquisição de fábricas modernas e com certificação internacional, na mesma linha da operação acertada com a Bayer Schering, é possível produzir para atender ao mercado doméstico e, ao mesmo tempo, ampliar exportações.
Há novas conversas em curso neste sentido e a farmacêutica dispõe de recursos para uma eventual aquisição no curto prazo. Além de caixa próprio, emitiu R$ 600 milhões em debêntures no fim do ano passado e, neste ano, assegurou um empréstimo de R$ 330 milhões (US$ 65 milhões) junto à International Finance Corporation (IFC) – o apoio da instituição internacional tem papel relevante principalmente nos planos de começar a produzir vacinas no Brasil.
Na avaliação da Fitch, a União Química deve “manter seus indicadores de crédito em patamares adequados, com forte geração de caixa operacional e alavancagem abaixo de 2,5 vezes, mesmo durante o ciclo de elevados investimentos, que deve durar até 2024”.
No ano passado, a empresa teve resultado antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda) de R$ 779,3 milhões, com crescimento de 9,4%, e lucro líquido de R$ 367,4 milhões.
Com as marcas recém-incorporadas e a possibilidade de ampliar exportações, a expectativa é que as vendas da farmacêutica ao exterior, que no ano passado ficaram em US$ 8 milhões, cresçam com maior velocidade daqui para a frente. “Muitos países têm uma dependência grande de fornecimento de medicamentos e o mercado, como um todo, está buscando fornecedores alternativos. O Brasil tem condições de competir”, afirmou.
Eurásia e Oriente Médio aparecem entre as regiões de interesse do grupo, que marcou presença em janeiro em uma feira do setor em Dubai, nos Emirados Árabes. A percepção é que há abertura para estreitar relações comerciais nesses mercado e o plano é explorar sobretudo as oportunidades em produtos hormonais e injetáveis, incluindo o atendimento a programas de governo.
Potenciais aquisições, por sua vez, estão sendo prospectadas na Europa e nos Estados Unidos. “Estamos sempre avaliando ativos que tenham sinergia com a companhia, como foi o caso da Bayer, dentro e fora do país”, disse Marques.
Hoje, a União Química tem nove fábricas no Brasil. Além disso, o empresário controla uma unidade fabril de produtos veterinários nos Estados Unidos, na Geórgia, que ainda não foi incorporada ao grupo. A intenção é seguir ampliando presença geográfica e portfólio tanto em saúde humana quanto animal.
A perspectiva de crescimento mais moderado do mercado farmacêutico nacional em 2023 reforçou o foco nos planos de internacionalização. Ainda assim, indicou o executivo, há oportunidades de crescimento em diferentes segmentos, tanto em prescrição média quanto em medicamentos isentos de prescrição (OTC, na sigla em inglês). “
Em 2022, a União Química investiu R$ 220 milhões, ou 5,9% da receita líquida, em pesquisa e desenvolvimento, o que se refletiu em aceleração do ritmo de lançamentos: foram 87 novos produtos, com alta de 55% frente ao ano anterior, e os produtos com até dois anos de lançamento representaram 15,6% as vendas. A ambição é manter o ritmo de expansão que vem sendo registrado nos últimos anos.
“A produção em território brasileiro não é uma das mais baratas. Carga tributária, encargos sociais e outros custos, tudo isso pesa. Mas temos conseguido recuperar isso”, ponderou Marques.
Fonte: Valor Econômico