Por Nikkei Asia — Istambul
11/05/2023 07h11 Atualizado há 2 horas
A Turquia realiza eleições históricas neste domingo, com o governo de 20 anos do presidente Recep Tayyip Erdogan em jogo, já que as pesquisas mostram que ele está em uma corrida cabeça a cabeça contra o candidato de esquerda Kemal Kilicdaroglu.
A inflação galopante, o alto desemprego e as consequências de um terremoto mortal são as principais preocupações de cerca de 64 milhões de turcos habilitados a votar em seu novo líder, com 600 assentos parlamentares também em disputa.
Aqui estão cinco coisas para saber sobre a eleição deste fim de semana:
Quem está concorrendo a presidente?
Erdogan, de 69 anos, que lidera o Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP) da Turquia, entra na disputa como candidato da coalizão de direita, a Aliança do Povo.
Kilicdaroglu, um ex-funcionário público e economista de 74 anos, é presidente do principal partido da oposição, o Partido Republicano do Povo (CHP), de centro-esquerda. Ele é o candidato conjunto de meia dúzia de partidos políticos chamados Aliança da Nação, que inclui social-democratas, nacionalistas e conservadores religiosos, entre eles alguns ex-aliados de Erdogan.
Outros candidatos presidenciais incluem Muharrem Ince, 59, presidente do recém-fundado Partido da Pátria e ex-membro do CHP que perdeu sua candidatura à presidência em 2018.
Sinan Ogan, um nacionalista de direita de 55 anos que representa a Ancestral Alliance, também está se candidatando ao cargo.
Espera-se que Ince e Ogan ganhem uma pequena parcela do total de votos, mas as pesquisas sugerem que eles podem levar a eleição presidencial para um segundo turno em 28 de maio se nenhum dos quatro candidatos obtiver mais da metade das cédulas.
Quais são as questões mais urgentes para os eleitores?
Em uma palavra, inflação. Os preços dos mantimentos e outros bens de consumo, bem como da habitação, dispararam com a taxa de inflação chegando a 85% em outubro. Esse número de provocar lágrimas desde então moderou. Mas com a inflação ainda acima de 40%, uma crise de custo de vida emergiu como um obstáculo fundamental para a tentativa de reeleição de Erdogan.
Outro foco é um terremoto de fevereiro que matou mais de 50 mil pessoas e deixou milhões desabrigados. O custo econômico do desastre superou US$ 100 bilhões. O governo de Erdogan recebeu críticas pela velocidade de sua resposta de emergência. Embora não pareça haver uma grande reação dos eleitores em todo o país, a participação pode ser menor nas regiões atingidas pelo terremoto.
O destino de cerca de 4 milhões de refugiados na Turquia – a maioria dos quais fugiu pela fronteira com a Síria devastada pelo conflito – é outra questão eleitoral candente. A pressão pública está aumentando para mandá-los para casa. Todos os quatro candidatos presidenciais apoiam a ideia em graus variados.
Os blocos de oposição da Turquia estão se comprometendo a cortar um modelo presidencial executivo introduzido por Erdogan em 2018. Críticos dizem que a medida acelerou uma erosão de freios e contrapesos ao concentrar o poder nas mãos de Erdogan.
Quem são os influenciadores?
O pró-curdo Partido Democrático do Povo (HDP), que está entrando nas eleições sob a bandeira do Partido da Esquerda Verde, é visto como o principal influenciador no equilíbrio de poder da Turquia, tanto para a presidência quanto para o parlamento.
O HDP faz parte de uma aliança que endossou Kilicdaroglu e com certeza será o terceiro maior grupo no parlamento, transformando o bloco em uma força para aprovar legislação se as outras duas alianças não obtiverem a maioria.
Mais de 5 milhões de eleitores pela primeira vez se tornaram habilitados para votar desde a última eleição. Os pesquisadores dizem que Erdogan não é um sucesso entre os eleitores mais jovens, então um alto comparecimento entre esse bloco-chave pode mudar a forma dos resultados da eleição.
O que está em jogo?
A Turquia possui uma localização geopoliticamente estratégica ao conectar a Ásia, a Europa e o Oriente Médio, e possui o segundo maior Exército entre os membros da Otan depois dos Estados Unidos.
O país é visto como um jogador-chave em qualquer resolução da guerra na Ucrânia, uma vez que abrange os dois lados, cultivando laços amistosos com o líder russo Vladimir Putin e assumindo uma posição neutra no conflito.
As estreitas relações de Erdogan com Putin alarmaram alguns membros ocidentais da Otan, mas ele também usou a posição da Turquia para intermediar um acordo de exportação de grãos com a Ucrânia.
Sob Erdogan, a Turquia exibiu sua força militar com intervenções na Síria e o lançamento de uma ofensiva contra militantes curdos no Iraque. Enviou apoio militar à Líbia e ao Azerbaijão.
Mas nos últimos dois anos, a Turquia embarcou em um caminho de reaproximação após confrontos diplomáticos com potências regionais, incluindo Egito, Emirados Árabes Unidos, Israel e Arábia Saudita.
Outrora um queridinho dos mercados emergentes, o G-20 e membro da OCDE com uma economia de US$ 900 bilhões irritou os investidores internacionais ao adotar políticas econômicas pouco ortodoxas que a oposição prometeu reverter, incluindo a restauração da independência do banco central.
O que acontece se Erdogan perder?
Erdogan, ex-prefeito de Istambul que sobreviveu a uma tentativa de golpe militar em 2016, não perde uma eleição há décadas. Ele acumulou imenso poder como o líder mais antigo da Turquia – esmagando a dissidência e os direitos civis no processo, dizem os críticos.
Mas o partido de Erdogan perdeu cidades importantes, incluindo Istambul e a capital Ancara, nas apertadas eleições municipais de 2019, quando uma crise cambial provocou uma breve recessão.
Alguns observadores políticos temem que uma derrota eleitoral estreita neste fim de semana possa levar o governo de Erdogan a pressionar o Conselho Eleitoral Supremo da Turquia para influenciar o resultado – como foi acusado de fazer na corrida para prefeito de Istambul em 2019, que a oposição acabou vencendo.
Ibrahim Kalin, principal conselheiro e porta-voz de Erdogan, rejeitou essa ideia em uma entrevista recente à mídia local, dizendo: “Qualquer que seja o resultado da eleição, nós o respeitamos”.
Fonte: Valor Econômico