Nos mercados financeiros, está em pleno vigor o chamado “Trump trade”, levar em conta nas operações de compra e venda o que se espera de um governo Trump. O que se espera desse “fator Trump”, porém, está um pouco sem rumo e bem confuso.
Há meses, a chance de que Donald Trump consiga voltar à Casa Branca tem sido um possível grande choque de mercado sobre o qual ninguém quer falar. Quando perguntados a respeito, investidores profissionais, em geral, balbuciam algo vago sobre impostos e gastos.
“Bem, os programas fiscais são mais ou menos os mesmos que os de Joe Biden, então não vemos muito impacto de um modo ou de outro e, você sabe, historicamente as eleições não importam tanto assim”. Esse é o roteiro.
Isso sempre foi estranho. Por um lado, especialistas em política estão convencidos de que esta será a eleição de nosso tempo mais binária e com mais consequências e, por outro, os investidores dizem que não importa realmente quem vencerá.
Sem dúvida, nenhum dos candidatos tem feito muito alarde na defesa da redução dos déficits. Ainda assim, agora está ficando mais difícil manter a postura dos investidores de ficar em cima do muro (explicada em parte, suspeito eu, por uma relutância em irritar o vingativo candidato republicano caso ele, de fato, vença), uma vez que a plataforma de política econômica de Trump vai se tornando mais clara e que corretores e investidores viram a terrível tentativa de assassinato como um impulso para as chances de sucesso eleitoral dele.
O maior ponto de consenso entre os investidores é que o Donald Trump 2.0 é inflacionário. Um grande aumento nas tarifas de importação, uma série de cortes nos impostos para pessoas físicas ricas e pessoas jurídicas, a desregulamentação e uma repressão rigorosa à imigração são, sem dúvida, uma receita clara para a valorização das ações, mas também para uma inflação mais alta, o que é ruim para os preços dos títulos de dívida.
O mercado de ações está se atendo a esse roteiro. Continuam em alta, apesar de todas as preocupações habituais quanto ao alto valor relativo das cotações. O impacto da questão da inflação, porém, é muito mais intrincado.
Pegue, por exemplo, as variações dos mercados na segunda-feira – o primeiro dia de negócios após a tentativa de assassinato. De início, o preço dos títulos de longo prazo caiu, mas a queda não se manteve. Ao contrário, na verdade. Os rendimentos dos títulos de dez e de dois anos estão caindo para seu ponto mais baixo desde março, à medida que os preços dos papéis sobem, assim como a demanda por eles.
Isso toca no cerne das muitas contradições de uma possível segunda presidência de Trump que tornam tão difícil para os investidores saberem como lidar com isso. A ameaça inflacionária é real, mas entra em conflito com dados mostrando que, por enquanto, há desaceleração na alta dos preços, e entra em conflito com a postura populista, que Trump encarnou por completo com sua escolha de J. D. Vance como companheiro de chapa.
Para a Ucrânia, essa opção vice-presidencial “Estados Unidos em primeiro lugar” é um sinal amargo. Dadas as declarações anteriores de Vance sobre o conflito, a escolha sinaliza que o apoio à defesa do país se esfacelará, e rápido. Também indica uma longa retórica agressiva contra a China, que Vance descreveu em entrevista na segunda como a maior ameaça mundial aos EUA. Não é grande surpresa, portanto, que os investidores procurem segurança na forma de títulos do governo dos Estados Unidos – o ativo preferido em tempos de estresse geopolítico. Da mesma forma, Vance já declarou predileção por um dólar fraco, embora uma nova onda inflacionária, se as condições econômicas se mantiverem, teria impacto positivo no dólar.
Então, xeque-mate. O “Trump trade” torna-se, nas palavras de uma recente nota do Rabobank, um “Chump trade”, uma operação “ingênua”, que engana constantemente qualquer um em busca de uma narrativa limpa e clara.
Há dois pontos, no entanto, que estão claros. Primeiro, o impacto de uma segunda presidência de Trump – que, devemos lembrar, ainda não é uma certeza – deverá ser mais forte nos mercados financeiros fora dos EUA. Para muitos investidores internacionais, a China já é inviável para investir, mas, se um Trump e um Vance bem-sucedidos se ativerem à linha deles, isso poderá continuar assim por anos. E a preferência mundial por ações dos EUA em detrimento às da Europa provavelmente se estenderá, em especial se Trump retirar o apoio tanto à Ucrânia quanto à Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan, a aliança militar ocidental).
Segundo, os investidores precisam considerar como reagiriam se Trump cruzasse a mais vermelha das linhas vermelhas do mercado e interferisse na independência do Federal Reserve (Fed, banco central dos EUA). “Se ele tocar nisso, teremos incerteza e um tumulto nos mercados”, disse Michael Strobaek, diretor de investimentos do Lombard Odier.
A credibilidade institucional é difícil de quantificar e de levar em conta nas cotações. Ela é, nas palavras de Salman Ahmed, chefe global de macroeconomia da Fidelity International, “um estado de espírito”. No entanto, uma vez que ela se evapora, “os vigilantes dos títulos [sempre atentos para vendê-los] despertam”.
Quantos décimos de ponto percentual de rendimento dos bônus valeria um Federal Reserve em versão “Maga” [acrônimo em inglês de um dos lemas de Trump, “Tornar os EUA Grandes de Novo”]? Como isso se contrabalançaria diante de uma provável busca por segurança entre gestores de fundos tensos? A longo prazo, são dúvidas cujas consequências seriam ainda maiores do que a de saber até que patamar as ações dos EUA podem subir se Trump cortasse os impostos das empresas.
É alarmante saber que os investidores sabem que não sabem as respostas. Ainda pior, eles sabem que há apenas uma maneira de descobrir. Ficar em cima do muro até lá pode, de fato, ser a melhor estratégia.
Fonte: Valor Econômico