O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou nesta terça-feira (20) que “não há volta” em seu objetivo de controlar a Groenlândia. O republicano se recusou a descartar a tomada da ilha ártica pela força e atacando aliados, enquanto líderes europeus lutam para reagir.
A ambição de Trump — exposta em postagens nas redes sociais e em imagens geradas por inteligência artificial — de retirar a soberania da Groenlândia da Dinamarca, país membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), ameaça implodir a aliança que sustenta a segurança ocidental há décadas.
Ela também ameaça reacender uma guerra comercial com a Europa, que abalou mercados e empresas por meses no ano passado, embora o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, tenha rechaçado o que chamou de “histeria” em torno da Groenlândia.
“Como deixei claro para todos, de forma muito direta, a Groenlândia é imprescindível para a segurança nacional e mundial. Não pode haver retorno — e, quanto a isso, todos concordam!”, disse Trump após conversar com o secretário-geral da Otan, Mark Rutte.
Para reforçar a mensagem, Trump publicou uma imagem gerada por IA em que aparece na Groenlândia segurando uma bandeira dos Estados Unidos. Outra o mostrava falando com líderes diante de um mapa que incluía o Canadá e a Groenlândia como parte dos Estados Unidos.
Separadamente, ele divulgou mensagens vazadas, inclusive do presidente francês, Emmanuel Macron, que questionava o que Trump estava “fazendo em relação à Groenlândia”. Trump, que prometeu impor tarifas a países que se colocassem em seu caminho, havia ameaçado anteriormente impor tarifas de 200% sobre vinhos e champanhes franceses.
A União Europeia ameaçou reagir com medidas comerciais. Uma das opções é um pacote de tarifas sobre 93 bilhões de euros (US$ 109 bilhões) em importações dos EUA, que poderia entrar automaticamente em vigor em 6 de fevereiro, após uma suspensão de seis meses.
Outra opção é o Instrumento Anticoerção (ACI, na sigla em inglês), que ainda nunca foi utilizado. Ele poderia limitar o acesso a licitações públicas, investimentos ou atividades bancárias, ou restringir o comércio de serviços — setor no qual os Estados Unidos têm superávit com o bloco, incluindo os lucrativos serviços digitais prestados por gigantes da tecnologia norte-americanas.
“Esta não é uma questão sobre o Reino da Dinamarca; trata-se de toda a relação transatlântica”, disse a ministra da Economia da Dinamarca, Stephanie Lose, a jornalistas antes de uma reunião de ministros da Economia e das Finanças da UE em Bruxelas.
“Neste momento, não acreditamos que nada deva ser descartado. É uma situação séria que, embora queiramos desescalar, há outros que estão contribuindo para a escalada agora, e, portanto, teremos de manter todas as opções sobre a mesa à medida que avançamos.”
Bessent, à margem do Fórum Econômico Mundial, em Davos, afirmou que será encontrada uma solução que garanta a segurança nacional tanto dos Estados Unidos quanto da Europa.
“Já se passaram 48 horas. Como eu disse, sentem-se, relaxem”, afirmou. “Estou confiante de que os líderes não irão escalar a situação e que isso será resolvido de uma forma que termine em um desfecho muito positivo para todos.”
Questionado sobre a possibilidade de uma guerra comercial prolongada entre Estados Unidos e Europa, Bessent respondeu: “Por que estamos indo direto para isso? Por que levar ao pior cenário?… Acalmem a histeria. Respirem fundo.”
No entanto, em seu próprio discurso em Davos, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, afirmou que a série recente de choques geopolíticos forçará a UE a construir uma nova Europa independente.
“Só conseguiremos aproveitar essa oportunidade se reconhecermos que essa mudança é permanente”, disse ela.
Trump também participará nesta semana do encontro em Davos que reúne a elite política e empresarial global. O jornal suíço NZZ informou que manifestantes marcharam em Zurique, na noite de segunda-feira, carregando uma faixa gigante com os dizeres: “TRUMP NÃO É BEM-VINDO. NÃO AO WEF! [Fórum Econômico Mundial, na sigla em inglês] NÃO À OLIGARQUIA! NÃO ÀS GUERRAS IMPERIALISTAS!”
O ministro das Relações Exteriores da Rússia, país que observa com satisfação a iniciativa de Trump de adquirir a Groenlândia ampliar divisões com a Europa, afirmou nesta terça-feira que a Groenlândia não é “uma parte natural” da Dinamarca.
As renovadas ameaças tarifárias de Trump contra aliados europeus reacenderam o debate sobre a estratégia conhecida como “Sell America”, que surgiu após a imposição de tarifas abrangentes por ele em abril do ano passado.
Fonte: Valor Econômico
