Por Ben Holland, Reade Pickert e Richard Miller, Bloomberg
10/01/2023 16h12 Atualizado há 18 horas
O foco dos mercados financeiros no ano passado foi quando e onde a inflação dos Estados Unidos atingiria o pico. A versão de 2023 provavelmente será onde e com qual rapidez os preços caem. Economistas podem não concordar com a resposta, mas há certo consenso sobre onde procurá-la.
A trajetória da inflação será determinada em algumas áreas cruciais da economia. Algumas estão no mercado doméstico – o que acontece nos mercados de trabalho e imobiliário dos EUA será fundamental – e outras são globais, à medida que as cadeias de suprimentos são reconfiguradas e os blocos comerciais reorganizados em meio às tensões entre as grandes potências.
A inflação dos EUA começa a recuar depois de atingir 9%, o maior nível em quatro décadas. O CPI (Índice de Preços ao Consumidor) de dezembro, previsto para esta quinta-feira, deve ter subido a um ritmo de 6,5% no fim do ano. Praticamente todo mundo tem uma grande aposta sobre o próximo passo da inflação.
Milhões de famílias necessitam de uma pausa na pressão causada pelo aumento do custo de vida. O Federal Reserve precisa descobrir até onde ir com os aumentos dos juros, que já ameaçam causar uma recessão – e, em algum momento, saber quando revertê-los. Trilhões de dólares em ativos financeiros dependem do resultado.
O fator recessão
É uma verdade fundamental da economia que a demanda mais fraca geralmente significa inflação mais baixa, já que consumidores reduzem os gastos que ajudam a elevar os preços. Esse é o cenário esperado em 2023. Economistas consultados pela Bloomberg projetam uma recessão nos EUA.
Uma economia desaquecida é o que o Fed busca para domar a inflação – e o impacto total de seu aperto monetário no ano passado ainda não foi sentido.
Por enquanto, a economia parece crescer em um ritmo saudável, com poucos sinais de que os consumidores americanos recuaram. Isso ocorre em parte porque muitos deles ainda podem tirar proveito das economias feitas durante a pandemia – e, acima de tudo, porque muitos deles estão empregados e recebendo aumentos salariais.
Salários na mira
A taxa de desemprego fechou 2022 no menor nível em cinco décadas. A mão de obra é escassa, o que obriga empresas a pagar salários mais altos para atrair talentos. Alguns indicadores salariais sugerem que os trabalhadores, depois de ganharem abaixo do custo de vida por meses, agora têm uma chance de recuperar o atraso.
Isso poderia alimentar a inflação, pois o aumento da renda também eleva o poder de compra. Ao mesmo tempo, com custos salariais mais altos, empresas avaliam reajustar preços para preservar as margens.
Ainda assim, há razões para pensar que uma espiral de preços e salários como a que desencadeou uma inflação vertiginosa na década de 1970 não acontecerá desta vez. O relatório de empregos de dezembro mostrou desaceleração dos reajustes salariais. Companhias americanas registraram lucros recordes desde a chegada da covid, dando-lhes espaço para aumentar os salários sem subir os preços.
Cadeias de suprimentos e competição de grandes potências
Um dos principais fatores de impulso da inflação na pandemia foi o colapso das redes logísticas globais. Agora, à medida que as cadeias de suprimento voltam ao normal, os custos de frete estão em queda e os prazos de entrega, mais curtos.
E a geopolítica ainda é uma ameaça nos mercados de commodities.
A guerra da Rússia contra a Ucrânia, após a crise da covid, ajudou a impulsionar os preços globais de energia e alimentos. Desde então, ambos recuaram de seus picos pós-invasão, e o declínio ajudará a frear a inflação este ano.
Reabertura da China
Como a China é o maior importador mundial de muitas commodities, especialmente de petróleo, a trajetória de sua economia será uma parte crucial da história da inflação nos EUA em 2023.
Após dois anos impondo rigorosos lockdowns sob uma política de “covid zero”, a China reverteu abruptamente o curso e busca a reabrir a economia. No momento, a transição tem sido traumática, em meio a uma onda de casos e hospitalizações que tem reduzido a produção.
Mas Anna Wong, economista-chefe da Bloomberg Economics, diz que a probabilidade é que a economia chinesa esteja totalmente aberta pelo menos no segundo semestre de 2023 – o que poderia elevar os preços da energia em cerca de 20% e acelerar a inflação nos EUA. Nesse caso, diz, “o CPI dos EUA atingiria um fundo no meio do ano antes de subir novamente no segundo semestre”.
Fonte: Valor Econômico

