Com uma redução nos juros americanos dada como certa nesta quarta-feira, o mercado tem se atentado às indicações do Federal Reserve (Fed) de que está gerenciando riscos, o que reforçou as apostas de que o processo de redução do balanço patrimonial do banco central dos Estados Unidos pode chegar ao fim em breve.
Esse sinal já havia sido dado pelo próprio presidente do Fed, Jerome Powell. Porém, diante de uma maior preocupação dos agentes financeiros com uma crise de liquidez nos mercados monetários do país, ganhou força a sensação de que o banco central pode querer encerrar já o programa de aperto quantitativo (QT, na sigla em inglês).
No CME Group, os contratos futuros dos Fed funds precificam 99,9% de chance de redução de 0,25 ponto percentual nas taxas de juros hoje. No entanto, há uma divisão bastante relevante entre as instituições financeiras sobre o que acontecerá com o balanço do banco central americano.
Em 14 de outubro, Powell deu uma indicação ao mercado de que o aperto quantitativo derivado da redução da carteira de ativos estava próximo do fim. No entanto, pressões nos mercados monetários e sinais de escassez de liquidez começaram a fazer com que parte dos investidores defendesse o fim imediato do QT como uma solução para reverter o processo de redução do funding de curto prazo.
Boa parte da explicação dos problemas nos mercados monetários guarda relação com a atuação do Tesouro americano na gestão da dívida. Recentemente, o Tesouro tem preferido concentrar suas emissões em T-bills, ou seja, títulos de curtíssimo prazo (com vencimento em até um ano), o que drena a liquidez dos bancos e dos fundos de mercados monetários, já que os investidores podem deslocar recursos das reservas bancárias e das repos (similares às compromissadas no Brasil) para comprar as T-bills, que costumam ter taxas mais atrativas.
“Isso deixa o Fed em uma encruzilhada: deve encerrar o QT agora ou aguardar até a reunião de dezembro? Acreditamos que o ‘encanamento’ do sistema financeiro está funcionando como planejado e que os dirigentes podem relutar em abandonar o processo diante dos primeiros sinais de taxas das ‘repos’ [acordos de recompra] mais altas e de uso da Standing Repo Facility”, diz o estrategista de juros Samuel Earl, do Barclays, ao se referir à SRF, um instrumento criado em 2021 para dar liquidez ao mercado em caso de algum estresse de liquidez ou aumento excessivo das taxas das repos.
“Na nossa avaliação, as pressões decorrem mais da emissão [de T-bills] e da alavancagem do que da demanda por reservas e, por isso, a redução incremental do balanço entre as reuniões de agora e de dezembro seria pequena demais para ter impacto relevante”, afirma.
A pressão pelo fim do enxugamento do balanço do Fed ganhou força, justamente, porque nos últimos dias algumas taxas relevantes para o mercado começaram a subir a níveis vistos como mais preocupantes, ao mesmo tempo em que as reservas bancárias passaram a cair ainda mais. Como exemplo, a SOFR, a repo que é a taxa de juros de referência global em dólar, ultrapassou o nível da IORB, a taxa de juros sobre o saldo de reservas bancárias, que é definida pelo próprio Fed e está em 4,15%.
E, como as repos são os instrumentos que, na prática, transmitem a política monetária, há um aperto na liquidez. No fim da semana passada, nos cálculos do Jefferies, a SOFR estava em torno de 4,25%, enquanto outra compromissada importante, a “tri-party repo”, estava em torno de 4,20%. Na prática, as duas estavam acima da IORB, que funcionaria, na teoria, como um teto para as taxas das repos. Assim, a taxa de juros efetiva tem subido, mesmo após o Fed ter cortado os juros em setembro.
“Não é preciso muito para passar de ‘preocupação’ para ‘crise’. Portanto, quanto mais tempo continuarmos a ver esses spreads entre a SOFR e a IORB positivos, mais me preocupo que estejamos nos aproximando da ‘crise’”, alerta Jim Bianco, fundador da Bianco Research.
“O que significa uma crise? As taxas de curto prazo estão subindo. Esses mercados estão desfazendo o corte de 0,25 ponto de setembro. Cerca de metade do corte foi ‘desfeita’ pela redução de liquidez. O risco é a falta de liquidez produzir juros de mercado muito mais altos.”
É nesse sentido que o economista-chefe para EUA do Jefferies, Thomas Simons, também avalia que o Fed deve anunciar o fim da redução do balanço em novembro “ou, no mínimo, sinalizar a intenção de fazer isso na próxima reunião”.
“As pressões de funding já se dissiparam e é possível que tenham resultado de uma confluência de fatores além da redução do balanço patrimonial e da queda das reservas bancárias. A liquidação de leilões de Treasuries e o pagamento de imposto de renda de pessoas físicas com declaração em atraso podem ter contribuído”, diz.
Para ele, contudo, embora as reservas ainda não estejam “escassas”, o fato de as taxas das repos poderem se deslocar para o limite superior da taxa de juros do Fed “sugere que o risco de continuar reduzindo o balanço supera quaisquer potenciais benefícios”. “Além disso, passar de um ritmo de redução de US$ 5 bilhões por mês em Treasuries para zero traria pouco ou nenhum risco de pressionar a inflação”, argumenta o economista.
Em comentário, Jill Cetina, ex-vice-presidente do Fed Dallas, acredita que é hora de encerrar o QT, ao avaliar que o balanço do Fed “foi excessivamente enxugado”. Para ela, a subida da taxa de juros efetiva; o maior uso de empréstimos junto ao Fed por meio do uso da SRF; e o fato de as reservas bancárias estarem em níveis abaixo daqueles vistos quando houve a quebra de bancos regionais em 2023 “são claros sinais de alerta”.
“Os riscos podem ser administrados se o Fed encerrar o QT e também fechar a ON RRP [instrumento para absorver liquidez do sistema] hoje. Espero um corte de 0,25 ponto, com uma chance significativa de que o Fed precise reverter esse corte no próximo ano.”
Fonte: Valor Econômico