Essa preocupação aparece, por exemplo, nos resultados da Pesquisa de Inovação Semestral 2023 (Pintec), realizada com 9,8 mil indústrias médias e grandes pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e pela Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI). Dados preliminares divulgados em setembro mostram que 89% delas adotam práticas de proteção ambiental. O Valor ouviu lideranças de oito empresas sobre as estratégias adotadas para investimentos em PD&I. Entre os temas considerados prioritários estão eficiência energética, reciclagem e reúso. As novidades que irão chegar em breve ao mercado incluem um aerogerador eólico gigante, um motor a hidrogênio e um novo processo para reaproveitar baterias.
No caso da WEG, cuja receita é 60% proveniente de produtos lançados nos últimos cinco anos, a transição energética é considerada uma prioridade. A empresa vai construir a primeira planta-piloto da Petrobras para geração de hidrogênio renovável, em Alto do Rodrigues (RN), conta o diretor da divisão de motores elétricos industriais, Rodrigo Fumo. Outro projeto com a Petrobras é um aerogerador eólico de 7 megawatts, que será o maior já fabricado no Brasil, com 220 metros, o equivalente a seis estátuas do Cristo Redentor empilhadas. Uma estrela no portfólio de produtos que contribuem para a descarbonização é o motor elétrico W23, apresentado como o mais eficiente do mundo. A WEG também desenvolveu o sistema automotivo Range Extender (Rex), lançado em setembro, em parceria com a Horse, subsidiária da Renault, que combina propulsão elétrica com um motor de combustão interna.
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Já na Tupy, a sustentabilidade foi o destino de mais da metade dos R$ 84,4 milhões investidos em pesquisa e desenvolvimento em 2023 (crescimento de 130% em relação ao ano anterior). A empresa de bens de capital tem projetos de motores a hidrogênio e de reciclagem de baterias com tecnologia hidrometalúrgica, um processo que usa substâncias líquidas para recuperar metais. O novo negócio dará suporte ao crescimento da mobilidade elétrica e da matriz solar fotovoltaica. Outro projeto inovador é o de bioplantas para geração de biocombustíveis e fertilizantes a partir de resíduos orgânicos de suínos. “Acreditamos que o mundo vai ser multicombustível e queremos nos posicionar para nos colocar nesse mercado”, diz o vice-presidente de inovação e novos negócios da Tupy, Gueitiro Matsuo Genso. A economia circular é a base de todos os empreendimentos da companhia, que recicla 95% dos metais utilizados na produção.
“Os investimentos em P&D do grupo Electrolux são guiados pela experiência do consumidor, pela sustentabilidade e pelo olhar voltado para o humano”, diz o diretor-presidente da empresa para a América Latina, Leandro Jasiocha. “Desenvolvemos produtos com alta eficiência hídrica e energética, olhando para a circularidade da matéria-prima. Ele cita a linha Electrolux EcoPlus, que até o fim do ano deve economizar 1,4 bilhão de litros de água e 300 milhões de quilowatts de eletricidade, o equivalente ao consumo de 150 mil residências. Outra inovação é a tecnologia AutoSense, que usa inteligência artificial (IA) para ajustar a temperatura e a umidade do refrigerador à rotina do usuário. O Brasil se tornou um polo estratégico para a empresa, informa o executivo. “Nacionalizamos três centros de inovação para algumas categorias de produtos que resultaram de projetos globais com alta participação brasileira.”
A Whirlpool, por sua vez, baseia a estratégia de inovação em pesquisas com mais de 300 mil pessoas por ano. “Envolvemos os consumidores em diversas fases de desenvolvimento dos produtos, sem perder de vista o nosso compromisso com a sustentabilidade”, afirma o diretor de relações institucionais para a América Latina, Eduardo Vasconcelos. A empresa investe de 3% a 4% do faturamento em inovação. Nos últimos três anos, colocou no mercado mais de cem produtos, que correspondem a 60% da receita, como lavadoras de roupa que reaproveitam água, fogões com tecnologia airfryer e resinas recicladas. Das 8,1 mil patentes concedidas globalmente à companhia de eletroeletrônicos, 533 são do Brasil.
Três frentes de atuação orientam as iniciativas da Dexco, companhia brasileira do setor de materiais de construção, reforma e decoração. A primeira é o fundo de capital de risco DX Ventures, que tem R$ 250 milhões para investir em startups e scale-ups promissoras. “Buscamos empresas que estão protagonizando a transformação em nosso mercado”, explica o diretor de tecnologia da informação, Daniel Lopes Franco. Uma das investidas é a Brasil ao Cubo, que faz construção modular de prédios em “ritmo chinês”, com estruturas metálicas que reduzem o tempo da obra e o impacto ambiental. A segunda frente é o programa de inovação aberta Open Dexco, voltado para desafios específicos; e a terceira é o programa Imagine, que incentiva o intraempreendedorismo. Neste ano, as ideias geradas pelos funcionários levaram à economia de R$ 65 milhões. A companhia também desenvolve produtos capazes de retardar a propagação de chamas, evitar a proliferação de bactérias e economizar água.
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A Claro Brasil tem o desafio de buscar novas soluções além da atividade-fim, ressalta seu diretor de inovação, Rodrigo Duclos. Ele fundou o beOn, centro de inovação aberta que atua em áreas como IA, 5G, internet das coisas e aprendizado de máquina. Um dos novos negócios da companhia de telecomunicações é a plataforma Claro Geodata, que analisa dados anônimos de movimentação da rede móvel para fornecer informações sobre fluxo de pessoas, ajudando no planejamento de cidades inteligentes, por exemplo. Em relação à sustentabilidade, o foco principal da empresa está na eficiência energética e na utilização de fontes renováveis em suas operações.
Há 14 anos, o grupo Stefanini mudou o foco de atuação dos serviços de TI para a aplicação de tecnologias disruptivas aos negócios. Hoje com 38 mil funcionários e 15 mil clientes em 41 países, a empresa brasileira se tornou um caso de sucesso de internacionalização. Em torno de 60% da sua receita anual vem dos negócios digitais. “Investimos na capacidade de desenvolver inovação pragmática”, diz seu fundador e CEO global, Marco Stefanini. Um diferencial para o desempenho do grupo foi a adoção precoce da IA, por meio da aquisição da Woopi em 2012. O grupo tem as certificações ISO 14001, norma internacional de gestão ambiental, e CarbonNeutral, que atesta o compromisso com o uso de energia renovável e a compensação das emissões de carbono.
“Inovação farmacêutica exige consistência, resiliência e persistência”, sintetiza a vice-presidente de inovação da Eurofarma, Martha Penna. “Nada é concluído em menos de quatro anos, e as inovações radicais podem levar até 15 anos para se concretizar.” Em 2023, a multinacional brasileira fez um aporte de R$ 615 milhões em P&D, o maior em pesquisa entre as farmacêuticas brasileiras. Parte dos projetos é desenvolvida no Eurolab, um ecossistema de laboratórios localizado em Itapevi (SP). Nos próximos cinco anos, serão investidos US$ 100 milhões em 25 “biotechs”, por meio do fundo Eurofarma Ventures. Uma das empresas apoiadas é a Gen-t, que está mapeando o genoma de 200 mil brasileiros para criar o maior banco genético da América Latina.
Fonte: Valor Econômico