Por Agências Internacionais
21/12/2022 05h01 Atualizado há 5 horas
A onda de casos de covid-19 na China, na sequência do súbito abandono da política de tolerância zero, está gerando temores em outros países pelo potencial impacto dessa crise na economia global e nas cadeias de suprimentos, e pelo risco de gerar novas variantes preocupantes do coronavírus.
O presidente do Banco do Japão, Haruhiko Kuroda, citou o ressurgimento dos casos de covid na China como algo que está pressionando a economia mundial, enquanto Taiwan listou a disseminação do vírus na China como uma grande incerteza para a sua economia.
O presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, sinalizou suas preocupações na semana passada. “A China enfrenta uma situação muito desafiadora na reabertura”, disse ele, acrescentando que sua cadeia de fabricação, exportação e fornecimento continua crítica. “É uma situação de risco.”
Europeus e americanos estão conduzindo negociações cuidadosas nos bastidores com seus colegas chineses, oferecendo assistência para conter uma crise crescente com implicações econômicas e de saúde globais e domésticas de uma maneira que o governo chinês esteja disposto a aceitar.
Autoridades de Washington e Pequim discutiram como lidar com a covid-19 no início deste mês em conversas na China para preparar para a visita do secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken no início do próximo ano. “Deixamos claro que estamos preparados para ajudar da maneira que eles considerem aceitável”, disse o porta-voz do Conselho de Segurança Nacional dos EUA, John Kirby, mas sem dar detalhes, citando “canais diplomáticos sensíveis”.
“Queremos que a China acerte com a covid”, disse Blinken no início deste mês. “É do interesse do povo chinês em primeiro lugar, mas também é do interesse de pessoas de todo o mundo.”
O porta-voz do Departamento de Estado, Ned Price, disse ontem que o que acontece na China tem implicações para a economia global e que é importante para a continuidade da recuperação que Pequim consiga controlar o surto.
O rápido aumento de casos e o caos trazido pela mudança na política há cerca de duas semanas levou o Banco Mundial a cortar ontem suas estimativas de crescimento para a segunda maior economia do mundo. A instituição agora vê a economia da China crescendo 2,7% neste ano e 4,3% em 2023, de 2,8% e 4,5%, respectivamente, previstos em setembro.
A economia dos EUA “já está sendo impactada” pelos últimos desenvolvimentos da covid-19 na China e pela escassez de energia na Europa, disse ontem o vice-secretário do Tesouro, Wally Adeyemo, em entrevista à Reuters.
Especialistas em saúde temem que a nação de 1,4 bilhão de pessoas não esteja adequadamente vacinada e possa não ter as ferramentas de saúde para enfrentar uma onda que pode matar mais de um milhão de pessoas até 2023.
Uma preparação antecipada do sistema de saúde, coleta de dados precisa e compartilhada e uma comunicação aberta são importantes para combater a pandemia, dizem especialistas em saúde de países fora da China que enfrentaram suas próprias ondas de covid. Mas a China parece não ter muitos desses elementos, dizem eles.
O presidente Xi Jinping há muito insiste que o sistema de partido único do país é o mais adequado para lidar com a doença e que as vacinas chinesas são superiores às contrapartes ocidentais, apesar de algumas evidências em contrário.
Depois de três anos seguindo uma rígida cartilha de restrições de Pequim, agora, com o súbito abandono da covid-zero, os governos locais e fábricas da China se ressentem da falta de uma orientação para reabertura. Várias cidades e regiões – incluindo o centro industrial ocidental de Chongqing, Guiyang, capital da província de Guizhou, e a cidade de Wuhu na província de Anhui – têm orientado pessoas com casos leves de covid a ir trabalhar. As fábricas agora enfrentam uma nova realidade: seus trabalhadores, no geral, estão doentes ou trabalhando ao lado de colegas infectados.
O resultado é que muitas fábricas enfrentam uma grave escassez de pessoal e lutando para manter seus funcionários saudáveis.
“Operacionalmente, as fábricas estão uma bagunça”, disse Cameron Johnson, da consultoria Tidal Wave Solutions em Xangai. Ele disse ter ouvido falar de um fornecedor de plásticos e outros insumos na cidade industrial de Dongguan, no sul, onde até 85% dos trabalhadores estão com covid.
Para Jörg Wuttke, presidente da Câmara de Comércio da União Europeia na China, a reabertura repentina, embora turbulenta, oferece um caminho melhor do que os lockdowns prolongados, que paralisaram as cadeias de suprimentos e tornaram o planejamento de negócios quase impossível.
“A única boa notícia é que depois de sete a 10 dias as pessoas estão fora de perigo e podem voltar”, disse ele. “Isso contrasta com uma política de lockdown que começou no fim de março e deixou você se perguntando o que estaria por vir nos próximos 60 ou 80 dias”.
Especialistas em saúde alertam que pode ser tarde demais para evitar uma tragédia. “O que você faz para um furacão de categoria 5 quando está a uma hora e meia da costa? Se ainda não o fez, é tarde demais”, disse Michael Osterholm, diretor do Centro de Pesquisa e Política de Doenças Infecciosas da Universidade de Minnesota.
Acredita-se que mais de 160 milhões de pessoas na China tenham diabetes, e há oito milhões de chineses não vacinados com mais de 80 anos, disse Yanzhong Huang, especialista em saúde do Council on Foreign Relations. Esses são fatores de risco para a covid grave.
Oficialmente, a China reportou 2.656 novos casos e cinco mortes na segunda-feira, número considerados muito subestimados pelos especialistas. Entrevistas com trabalhadores de fábricas chinesas indicam que muitos adoeceram com o relaxamento das regras.
Fonte: Valor Econômico
