O Brasil não deve se juntar ao restante da América Latina em sua guinada à direita. Na visão do Société Générale, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem 65% de chances de vencer as eleições, além de outros 5% de probabilidade da vitória ocorrer no primeiro turno. O banco francês atribui uma chance de 30% de vitória do senador Flávio Bolsonaro (PL), em um cenário que teria os desdobramentos mais positivos para os ativos domésticos.
A instituição separa uma eventual vitória de Lula em três cenários. O primeiro deles seria o menos provável — o de a eleição ser liquidada já no primeiro turno. Nesse ambiente, o real exibiria forte depreciação, com o dólar indo até a faixa dos R$ 5,50 a R$ 5,60; os juros nominais de dois anos saltariam a 16%, e os de 10 anos subiriam a 16,50%; a dívida/PIB continuaria crescendo e o BC interromperia o ciclo de cortes nos 13,75%. Além disso, as expectativas de inflação continuariam seu movimento de desancoragem.
Há, ainda, dois cenários em que Lula vence no segundo turno. A diferença entre eles estaria na orientação do Congresso. Com um Legislativo menos alinhado às propostas do governo, haveria maior resistência a propostas de afrouxamento fiscal. Assim, o dólar seria negociado na faixa entre R$ 5,25 e R$ 5,35; os juros de 2 e 10 anos iriam a 14,50% e 15%; a dívida PIB ainda subiria, mas o cenário permitiria ao BC cortar a Selic até 11,50%. As expectativas inflacionárias se manteriam nos níveis atuais.
Com um Congresso mais alinhado ao governo, o câmbio seria negociado na faixa de R$ 5,35 a R$ 5,45; os juros de 2 e 10 anos seriam de 15% e 15,50%; a dívida PIB subiria rapidamente e o BC teria que postergar os cortes de juros, com a Selic terminando 2027 aos 13%. Já o PIB projetado, neste cenário, seria maior — entre 2% e 2,5%, em comparação com uma estimativa de 1,5% a 2% em todos os outros cenários.
Em uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro, os ativos deveriam exibir um rali rápido, na visão do estrategista Brendan McKenna e do economista-chefe para América Latina do Société Générale, Dev Ashish. O dólar seria negociado entre R$ 4,75 e R$ 4,85; os juros de 2 e 10 anos cairiam a 13,50% e a 14%, respectivamente; haveria uma consolidação fiscal modesta; e o BC poderia cortar os juros rapidamente, até 10,25% no fim do ano, com uma ancoragem das expectativas de inflação.
Segundo o Société Génerale, o real, neste momento, pode não estar refletindo nem precificando os riscos políticos e fiscais relacionados a um quarto governo de Lula. “As condições macroeconômicas globais favoráveis ao ‘carry trade’ em moedas de mercados emergentes, em nossa visão, estão mascarando os riscos políticos e fiscais subjacentes do real. Im estímulo fiscal de “estilo populista” pode provocar uma depreciação do real antes das eleições maior do que esperamos e semelhante à forte desvalorização do real no fim de 2024”, apontam os profissionais do banco francês.
Mesmo assim, para eles, apesar do amplo déficit fiscal e da elevada e crescente carga da dívida, o Brasil evitará uma crise de solvência da dívida graças a um perfil bem estruturado da dívida soberana.
Fonte: Valor Econômico

