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O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), inflação oficial do Brasil, interrompeu uma sequência de leituras mais favoráveis e voltou a subir acima do esperado em maio. O indicador traz os primeiros impactos das enchentes no Rio Grande do Sul sobre os preços, além de reforçar o desconforto de economistas com métricas ligadas à economia aquecida.
O IPCA acelerou a alta de 0,38% em abril para 0,46% em maio, informou ontem o IBGE. O resultado ficou acima da mediana de 0,41% colhida pelo Valor Data e no teto das apostas. Em 12 meses, o IPCA voltou a ganhar fôlego, de 3,69% para 3,93%, após sete leituras em desaceleração. O movimento já era esperado, mas também foi mais forte do que a mediana das projeções, de 3,87%, indicava.
“Não gostei do que vi e acabei mudando o número [do IPCA] do ano”, afirma Fábio Romão, economista da LCA Consultores, que ajustou sua projeção de 3,7% para 3,9% em 2024.
O J.P. Morgan também revisou suas projeções de IPCA após a divulgação do IBGE, de 3,7% para 4% neste ano e de 3,5% para 3,7% em 2025. Os novos números parecem mais consistentes com “a combinação de mercado de trabalho apertado, expectativas crescentes de inflação, taxa de câmbio mais depreciada e preços mais elevados dos alimentos”, dizem, em relatório, o economista Vinicius Moreira e a economista-chefe para Brasil do banco, Cassiana Fernandez.
Cinco das nove classes de despesas registraram desaceleração da inflação entre abril e maio: alimentação e bebidas (de 0,70% para 0,62%); artigos de residência (de -0,26% para -0,53%); vestuário (de 0,55% para 0,50%); saúde e cuidados pessoais (de 1,16% para 0,69%) e comunicação (de 0,48% para 0,14%). Por outro lado, houve aceleração em habitação (de -0,01% para 0,67%); transportes (de 0,14% para 0,44%); despesas pessoais (de 0,10% para 0,22%) e educação (de 0,05% para 0,09%).
Com as enchentes no Rio Grande do Sul, a inflação na região metropolitana de Porto Alegre passou de 0,64% em abril para 0,87% em maio. Foi o maior índice entre as dez regiões metropolitanas e seis cidades acompanhadas pelo IBGE. A coleta de preços de forma remota (por telefone ou internet) na região subiu do padrão histórico de 20% para cerca de 65% em maio, segundo o gerente do IBGE responsável pelo IPCA, André Almeida.
O IPCA teria avançado menos, 0,42%, se o índice fosse reponderado sem considerar o Estado, diz Alexandre Maluf, economista da XP. Almeida explica que o instituto não estima o IPCA sem a influência de uma ou outra região, ao contrário dos subitens, para os quais calcula a influência individual.
A principal contribuição (0,57 ponto percentual) para a inflação no Rio Grande do Sul veio dos preços de alimentos no domicílio, especialmente alimentos “in natura”, laticínios, aves e produtos relacionados ao trigo, segundo Maluf. No IPCA geral, o arroz subiu 1,47% em maio, “ainda mais rápido que o apontado pelas coletas”, diz a Terra Investimentos em relatório. Em abril, houve deflação de 1,93%.
O efeito das enchentes gaúchas começou a aparecer na inflação medida pelo IPCA especialmente em alimentos, mas, como as fortes chuvas afetaram as cadeias produtivas em geral, consequências para bens industriais ou serviços ainda podem surgir, diz Almeida.
Ainda que tenha desacelerado ante abril, o grupo alimentação e bebidas exerceu a maior influência altista no IPCA de maio, de 0,13 ponto percentual, ou 28,2% da alta do índice. “A despeito da desaceleração, a taxa registrada é alta sazonalmente”, afirma Romão.
Maluf, da XP, diz que, em linhas gerais, a aceleração do IPCA em maio, ante abril, se deveu a itens mais voláteis, como passagem aérea (5,91%, de -12,09%), alguns bens industriais (0,29%, de 0,21%) e itens administrados (definidos por contrato ou órgão público), como energia (0,94%, de -0,46%). Também contribuíram alguns serviços ligados ao ciclo econômico, aponta, como serviços pessoais (0,31%, de 0,19%) e alimentação fora do domicílio (0,50%, de 0,39%).
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Por outro lado, a alta de 0,45% da gasolina foi menor do que o esperado pelos economistas. Combustíveis (0,45%, de 1,74%) e alimentação no domicílio (0,66%, de 0,81%), especialmente “in natura” (0,99%, de 3,66%), moderaram a alta em maio, ante abril. O problema é que os economistas esperavam um avanço bem menor para a alimentação no domicílio – 0,37% no caso da Terra e 0,44% na XP, por exemplo. O resultado veio “bem acima” e “com surpresas altistas generalizadas”, afirma Maluf.
Marcela Rocha, economista-chefe da Principal Claritas, destaca a alta de 0,29% dos bens industriais, acima da sua expectativa de 0,27%. “Não é uma surpresa tão significativa, mas, na média móvel trimestral anualizada e dessazonalizada, saiu de queda de 0,1% para alta de 0,4%, o que ainda é super baixo, mas é outro indicador de que o processo não é mais tão de notícias favoráveis”, afirma. A média móvel de três meses anualizada e dessazonalizada é uma forma de suavizar movimentos mensais, mas ainda captar a tendência “na ponta”. “Diferentemente dos últimos dois meses, essas medidas subjacentes tiveram um comportamento pior”, diz Rocha.
O avanço maior do que o esperado em bens industriais, puxado por produtos de higiene pessoal e automóveis novos, segundo Maluf, contribuiu para que a média dos núcleos (medidas para suavizar itens voláteis) acompanhados pelo Banco Central subisse 0,39% em maio, de 0,26% em abril, de acordo com a MCM Consultores, acima da previsão da XP (0,34%), por exemplo. Houve aceleração, ante abril, de todos os cinco núcleos, observam Victor Beyruti e Yuri Alves, economistas da Guide.
Em 12 meses, a média dos núcleos acelerou de 3,53% para 3,55%, segundo a MCM. “Voltou a mostrar uma inflação maior pela primeira vez desde junho de 2022”, dizem Beyruti e Alves em relatório.
Na média móvel de três meses, os núcleos foram de 3,1% em abril para 3,2% em maio, “desviando da tendência cadente observada nos meses anteriores”, afirma Maluf.
A inflação de serviços acelerou de 0,05% em abril para 0,40% em maio, muito pela alta da passagem aérea, a primeira no ano. Mais relevantes para as análises econômicas, os serviços subjacentes subiram 0,41% em maio, de 0,33% em abril, segundo a MCM e acima das expectativas da Principal Claritas (0,32%) e da XP (0,36%). Na média móvel trimestral, houve avanço de 4,9% para 5,1%.
“Ainda é um nível abaixo daquele do começo do ano, quando os números de serviços vieram bem acima do esperado e chegaram a 5,6% em março, por essa métrica. Mas mostra uma parte qualitativa da inflação não tão favorável como tinha sido observado e reforça o cenário de cautela e preocupação do Banco Central”, afirma Rocha.
Os serviços intensivos em mão de obra, outra medida monitorada de perto pelo BC, desaceleraram de 0,53% em abril para 0,38% em maio, “sem dúvida o único (ainda que importante) alívio na abertura”, afirma a equipe da Terra. A notícia, dizem, impressionaria mais se acontecesse em um contexto de desaceleração do mercado de trabalho, o que não é o caso.
“Em meio a taxa de desemprego abaixo do equilíbrio, aceleração dos salários e estagnação da taxa de participação, precisaremos de mais para nos convencermos de que há uma nova tendência em curso”, escrevem João Maurício Rosal, economista-chefe da Terra, e os economistas Homero Guizzo e Luís Gustavo Bettoni. Na média móvel trimestral, os serviços intensivos em trabalho rodam em 6%.
O índice de difusão, que mede a proporção de itens em alta na cesta, subiu para 57,3% em maio, de 57% em abril, segundo o Valor Data. A dispersão “veio chata”, afirma Romão, da LCA, observando que ela não só superou a de abril como também foi maior que a de maio do ano passado. O mesmo vale para os serviços subjacentes. “É um incômodo, uma luz amarela”, diz.
Para junho, as projeções de inflação giram ao redor de 0,3%. Mas a expectativa dos economistas é que os preços dos alimentos subam ainda mais, principalmente por causa das enchentes no Sul.
Fonte: Valor Econômico