Às vésperas do início do ciclo de cortes da Selic no Brasil, os investidores ainda se mostram cautelosos com a trajetória dos juros no médio e longo prazo, a despeito da recente queda das taxas mais curtas. Segundo a equipe de estratégia do Santander, no entanto, o prêmio de risco embutido na curva em prazos intermediários parece exagerado neste momento e excede, inclusive, o prêmio exigido pelo mercado nos últimos ciclos de afrouxamento do Banco Central.
“Os mercados precificam uma taxa terminal ainda restritiva com um prêmio elevado de inclinação pós-ciclo, reforçando nossa opinião de que o ponto final está supervalorizado. Continuamos otimistas em relação às posições aplicadas: os contratos com vencimento em janeiro de 2031 ainda oferecem cerca de 0,5 ponto percentual de compressão, e preferimos o FRA 28×31 [uma aposta na queda dos juros implícitos pelo mercado no trecho da curva entre 2028 e 2031]”, afirma o estrategista Daniel Cunha, do Santander.
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Segundo ele, a mecânica básica dos ciclos da política monetária pressupõe que um período de flexibilização monetária move a taxa de juros de um nível restritivo para um nível neutro. No entanto, ao longo da curva – particularmente na região de dois a cinco anos – é natural que os mercados incorporem algum prêmio, uma vez que, quando os cortes de juros terminam, a discussão pode mudar para uma eventual necessidade de subir as taxas novamente.
Cunha aponta que a magnitude deste prêmio pós-ciclo de cortes deve ser uma função da taxa terminal que os mercados esperam ao final do processo de flexibilização e a distância daquilo que é percebido como a taxa neutra de juros da economia.
“Se os mercados acreditarem que o ciclo levará a política monetária a um território estimulativo – abaixo da taxa neutra -, um prêmio pós-ciclo maior se justifica. Por outro lado, se a taxa terminal permanecer acima ou próxima da taxa neutra, esse prêmio deve ser menor”, aponta.
O ciclo de cortes de juros que se avizinha, nota Cunha, é aquele em que os mercados esperam uma taxa final da Selic que deixaria a política monetária no ponto terminal mais restritivo já registrado, em torno de 12%. Mesmo assim, após o fim do afrouxamento monetário, um prêmio considerável permanece incorporado na curva, o que o estrategista classifica como excessivo.
“Embora a elevada incerteza política justifique algum prêmio, os efeitos mecânicos do carrego e do passar do tempo, à medida que o BCB avança em sua estratégia de calibração, poderiam puxar as taxas de forma constante em direção à gravidade da política monetária, corroendo o excesso de inclinação incorporado nos contratos a termo. Essa assimetria parece particularmente atraente no setor de janeiro de 2028 a janeiro de 2031″, conclui.
Fonte: Valor Econômico
