O aumento das incertezas globais e a proximidade da eleição presidencial no Brasil levaram a Santander Asset Management a reduzir o grau de confiança nas apostas para o mercado doméstico. Embora continue moderadamente otimista com os ativos brasileiros, a gestora revela que as decisões de investimento ficaram mais táticas e que o ambiente exige bem mais cautela do que no início do ano, em um cenário que contempla, ainda, uma redução importante no espaço para cortes adicionais da Selic.
Em entrevista ao Intraday, blog sobre mercados financeiros do Valor, o diretor de investimentos (CIO) da Santander Asset, Mario Felisberto, observa que o ambiente externo segue relativamente benigno em meio a uma diminuição do risco de aumentos nas taxas de juros nos Estados Unidos, o que pode favorecer a visão de um dólar mais fraco à frente. Além disso, embora veja o cenário como bastante instável, o executivo dá ênfase às teses de inteligência artificial (IA) e revela que a casa tem mantido otimismo com esse segmento.
Veja, abaixo, os principais trechos da entrevista:
Valor: As tensões globais mudaram muito o posicionamento da Santander Asset neste ano?
Mario Felisberto: No começo do ano, nossa expectativa era a de um cenário global favorável. Como tivemos um aumento das tensões geopolíticas no Oriente Médio e uma alta dos preços do petróleo, a inflação virou uma preocupação mais forte para os bancos centrais, que tiveram que adotar uma postura mais cautelosa. E o Fed [banco central dos EUA] seguiu esse roteiro de maneira bem clara. Agora, entramos em uma fase de arrefecimento das tensões e enxergamos sinais benignos nos números de inflação.
Valor: Isso vai alterar a comunicação dos bancos centrais?
Felisberto: Acredito que eles devem manter uma postura mais cautelosa na comunicação por um tempo, mas, agora, vemos que o risco de uma alta nos juros nos EUA é pequeno. Já passamos pelo pior momento em relação ao comportamento da inflação e, se essa tendência mais benigna da inflação for se confirmando, esperamos que o Fed, em particular, mantenha os juros no patamar atual, e talvez no ano que vem volte a considerar alguma perspectiva de queda. Mas o mais importante, recentemente, é que essa probabilidade de alta de juros diminuiu. E, quando colocamos isso em contexto, continuamos tendo um ambiente global positivo para investimentos.
Valor: Isso se refletiu no posicionamento da casa?
Felisberto: No geral, mantivemos uma visão relativamente cautelosa no posicionamento e, em particular, para a renda fixa global. Não fizemos nenhuma posição mais convicta. O que temos mantido é uma visão positiva para as bolsas de forma geral, principalmente na bolsa americana.
Valor: Tem relação com o trade de inteligência artificial?
Felisberto: Sim, há um cenário favorável para as teses de IA. Às vezes elas são questionadas, mas têm se provado robustas, e essa combinação nos dá alguma convicção. Frequentemente temos visto questionamentos sobre a IA e há, de fato, alguns casos de ações um pouco caras, mas o movimento, na nossa visão, não está se esgotando e vamos ter uma sustentação olhando mais à frente.
Valor: A volatilidade está bem elevada, principalmente quando olhamos para semicondutores…
Felisberto: Apesar de termos uma visão favorável para a IA, não é possível descartar períodos em que eventos levam a um aumento da volatilidade no mercado, a uma rotação entre setores, pausas… Nossa recomendação positiva tem uma visão de médio prazo.
Valor: Temos visto o mercado também bastante comprado em dólar. É o caso de vocês?
Felisberto: Não temos uma visão de fortalecimento do dólar. Não estamos muito convictos ainda, mas temos um viés de enfraquecimento da moeda. No ano passado, esse movimento foi mais claro, mas não diria que isso irá se repetir agora, mas temos esse viés. Com essa visão mais benigna para o Fed, que não envolve um risco elevado de alta nos juros, a tendência que temos visto de diversificação sustentaria essa expectativa de dólar mais fraco.
Valor: Isso inclui o real?
Felisberto: Sim, estamos moderadamente otimistas com o real sobre seguir essa tendência. E é preciso ver que, em momentos de maior incerteza, o real se comportou muito bem. O nosso viés é para uma apreciação maior do real, principalmente pelos fatores globais. E, com os juros se estabilizando em um nível mais alto, o real vai continuar sendo apoiado.
Valor: No Brasil, o mercado também sofreu uma boa reprecificação, especialmente nos juros…
Felisberto: Sim. O movimento não foi exatamente igual ao do mercado global, mas existiu, de fato, um certo espelhamento com o que aconteceu lá fora. Do mesmo jeito que os eventos do cenário global acabaram gerando mudanças no comportamento dos juros lá fora, para o Brasil, o ciclo que seria moderado se transformou em um ciclo bem mais contido. O espaço total para redução dos juros, que para nós seria de 3 pontos, agora está mais para somente 1 ponto. Nós enxergamos a Selic no fim do ano entre 13,75% e 14%; só mais um ou dois cortes. Isso espelha muito o que nós vimos de reprecificação do cenário global. E também não é possível ignorar o fato de que temos uma eleição presidencial se aproximando. Isso sempre traz um aumento de incerteza e de volatilidade e requer uma postura mais cautelosa dos investidores.
Valor: E, com esse aumento de incerteza, vocês estão otimistas com os ativos brasileiros?
Felisberto: Dá para ter um viés positivo se o cenário lá fora continuar benigno. Os juros vão ter uma queda mais tímida e vamos ter a incerteza eleitoral, mas temos mantido o viés positivo, embora com menos convicção.
Valor: É uma visão mais geral ou específica para algum mercado?
Felisberto: É algo mais geral, até porque a nossa visão específica sobre cada ativo tem oscilado muito. Estamos bastante táticos. Às vezes, estamos enxergando potencial de valorização na bolsa, ou então consideramos que a bolsa andou demais e que a renda fixa pode ter mais prêmio. Não temos uma preferência neste momento, mas, de forma geral, mantemos uma visão moderadamente positiva, mas com menos convicção.
Valor: Vimos a bolsa brasileira favorecida no começo do ano pelo fluxo estrangeiro. Esse exterior benigno vai trazer de volta esse fluxo?
Felisberto: Fluxo é sempre algo mais difícil de conseguir prever, até porque existem todas essas questões de rotação das carteiras lá fora. Em geral, o Brasil é caracterizado como um ‘play’ de commodities, enquanto o Sudeste Asiático é mais associado ao setor de tecnologia. A rotação, agora, tem sido mais para o lado das techs e menos para commodities. Não temos uma visão clara sobre se esse fluxo irá retornar nem por esse fator mais estrutural de associação com as commodities e nem pelas questões mais específicas da economia brasileira.
Valor: O investidor local consegue sustentar a bolsa?
Felisberto: O local está com um viés bem mais pesado para a renda fixa. E, com os juros no patamar atual, acredito que o investidor local pode até fazer um pouco essa migração, mas será algo muito mais limitado. Ainda assim, acredito que existe espaço para uma valorização da bolsa, até porque os preços em diversos setores e segmentos estão muito descontados. No entanto, existe uma falta de tração e de apetite dos investidores aqui e lá fora. Claro, nós recomendamos aos investidores que se aproveitem de uma diversificação, mas hoje vemos essa diversificação de forma mais convicta nas bolsas lá fora.
Valor: O mercado de crédito também tem sido um pouco instável…
Felisberto: Essa foi, com certeza, a classe de ativos que teve a performance mais consistente e os fluxos mais positivos dos últimos dois anos no Brasil, decorrente dos juros elevados e dos spreads dos papéis, que estavam em níveis muito atrativos e que vieram caindo ao longo do tempo. As questões associadas à isenção fiscal tiveram peso relevante, mas foi muito claro o quanto essa classe foi favorecida nos últimos anos de forma geral. A nossa expectativa no início do ano não era de uma performance ruim, mas sim de menos concentração e menos apetite diante de uma busca por outros ativos de risco com os juros caindo. O que acabou acontecendo foi que, neste ano, tivemos um pouco mais de oscilação nos spreads e um fluxo negativo em algumas categorias de fundos, até porque os spreads caíram demais.
Valor: Tivemos também alguns eventos de crédito…
Felisberto: Sim, principalmente no fim do ano passado e no começo deste ano, mas foram casos mais isolados e sem um impacto muito grande sobre a classe como um todo. A volatilidade se deu, principalmente, por causa dos spreads baixos. Quando ocorre uma abertura, há uma performance mais desfavorável para esses ativos. E, depois dessa correção que vimos no segundo trimestre, hoje os spreads já estão em um nível mais adequado de forma geral. Nossa visão é a de que, daqui em diante, os ativos de crédito devem ter uma performance mais favorável e mais estável. Vemos com bons olhos os investimentos em crédito.
Valor: E esse otimismo também se dá no mercado de juros e nos títulos públicos?
Felisberto: Existe prêmio. Ao mesmo tempo, temos uma incerteza grande pela frente e um cenário que não permite muito otimismo. Neste momento, não vemos uma grande diferenciação entre os prefixados e a NTN-B, nem entre diferentes prazos. Temos uma visão mais ou menos parecida para todos os prazos. E também estamos vendo um ciclo de política monetária que parece estar próximo do fim. Um corte a mais, um corte a menos… Isso tende a ter impacto muito limitado no mercado. Para vermos um movimento mais consistente, precisaríamos de uma revisão mais clara, como a que tivemos quando as projeções para a Selic foram de 12% para 14%. Se for por diferenciação de um ou outro corte, não haverá impacto muito relevante na curva.
Valor: Vocês têm visto momentos de disfuncionalidade no mercado de NTN-B?
Felisberto: Essa questão acontece em momentos pontuais. E acreditamos que, se o Tesouro enxergar uma disfuncionalidade, ele irá atuar de alguma forma. Em geral, o mercado tem reagido a mudanças de cenário, de expectativas, melhora ou piora da aversão a risco. Hoje, nós consideramos que o mercado está com algum prêmio, o que é natural dada essa situação de maior incerteza que estamos vivendo, mas não há um fator mais claro que aponte para uma distensão.
Valor: A eleição já está fazendo preço? Vocês estão com alguma posição mirando o cenário eleitoral?
Felisberto: Acredito que a visão do mercado sobre as eleições já está afetando o comportamento dos ativos e dos investidores e estamos levando isso em consideração, muito na linha de que a eleição provoca um aumento de incerteza e de volatilidade. É uma coisa que temos de levar em consideração. E, de forma geral, estamos com essa visão moderadamente favorável para os ativos locais e temos rodado isso de forma muito tática, mas em uma justificativa clara de estarmos preferindo um ativo ou outro.
Fonte: Valor Econômico
