Por Jenny Strasburg e Joe Wallace — Dow Jones Newswires
21/06/2022 05h02 Atualizado há 5 horas
A redução do fornecimento de gás natural da Rússia para a Europa coloca em risco o esforço da região para estocar combustível suficiente para o próximo inverno.
A Europa aproveita a baixa demanda por gás nos meses de verão para reabastecer sua vasta rede de armazenamento subterrâneo para os meses mais frios, quando o consumo dispara. Os depósitos de armazenamento incluem cavernas de rochas salinas ou porosas, aquíferos e campos de gás esgotados. Neste ano, esse esforço tornou-se um indicador da segurança energética da Europa acompanhado com muita atenção.
A tarefa ficou muito mais difícil desde a semana passada, quando a Rússia cortou quase pela metade o fornecimento por meio de seu principal gasoduto para a Europa. Como reação, no fim de semana a Alemanha adotou uma série de medidas de emergência, incluindo voltar a queimar carvão para produzir eletricidade e incentivos para que as empresas reduzam o consumo de gás natural.
Os fluxos do gasoduto Nord Stream, principal via de gás russo para a Europa, caíram drasticamente, segundo analistas. Kateryna Filippenko, da consultoria Wood Mackenzie, disse que se os fluxos permanecerem nos níveis atuais, a Europa terá dificuldades para atingir 70% de sua capacidade de armazenamento até novembro.
Isso ficaria abaixo da meta da União Europeia (UE) de chegar a 80% de armazenamento até 1º de novembro. Os países membros da UE já elaboram planos para o caso de não atingirem esse objetivo, como racionar o gás usado para aquecer residências ou restringir os fluxos para fábricas que fazem fertilizantes e outros produtos com uso intensivo de energia. Um inverno frio no ano que vem pode esgotar os suprimentos mais rapidamente do que o normal e criar o risco até de falta de gás.
Para piorar a situação dos estoques, um grande fornecedor americano de gás natural liquefeito (GNL) no Texas informou que um incêndio recente levaria à suspensão das atividades de uma unidade de exportação até perto do fim deste ano, o que reduzirá as remessas planejadas para a Europa.
Segundo dados da UE, juntos os países membros têm uma capacidade de armazenamento de 1.100 terawatts-hora – ou 100 bilhões de m3 -, distribuídos por 160 instalações subterrâneas em 18 países. Os dados mostram que normalmente o combustível estocado cobre de 25% a 30% da demanda de inverno. Mais de 70% dessa capacidade subterrânea está concentrada na Alemanha, Itália, Áustria, Holanda e França.
No fim de semana, o armazenamento em toda a UE estava em cerca de 54%, segundo a Gas Infrastructure Europe, associação representativa do setor. Embora isso esteja acima dos 44% registrados em igual período do ano passado, analistas dizem que as novas restrições de oferta põem em risco a meta para 1º de novembro. Os preços do gás natural no noroeste da Europa subiram mais de 50% na semana passada e estão mais de quatro vezes mais altos do que há um ano. Para Stuart Joyner, analista de energia da corretora Redburn, o mercado tem se movimentado mais por causa do temor de escassez do que pela necessidade imediata. “O que isso mostra é que realmente não temos nenhuma margem de erro quanto ao estoque europeu de gás.”
Durante a estação de outono/inverno de 2020-21, de outubro a março, foi retirado o maior volume de gás já registrado em um ano – 720 terawatts-hora – da rede europeia de armazenamento subterrâneo, segundo a Gas Infrastructure Europe. Isso significou que o bloco saiu do inverno com volumes de estoque muito baixos e precisou recuperar essa diferença, o que pôs mais pressão sobre um mercado mundial já apertado.
Na semana passada, a Gazprom, exportadora estatal de gás da Rússia, cortou o fornecimento diário por meio do Nord Stream para 40% de sua capacidade total, segundo analistas da RBC Capital Markets. A Gazprom alegou que a medida se devia a um atraso na manutenção por uma empresa alemã.
Autoridades europeias, executivos da área de energia e analistas rejeitaram essa explicação e afirmaram que a redução tinha como objetivo testar a determinação da UE em punir a Rússia com sanções por sua invasão da Ucrânia. Eles disseram que Moscou podia desligar o gasoduto completamente em qualquer momento.
A escassez de suprimentos na Europa terá implicações em todo o mundo ao sugar o gás para o continente e elevar os preços na Ásia e em outras regiões, segundo James Huckstepp, analista da S&P Global Commodity Insights.
A UE e o Reino Unido se tornaram o destino principal das exportações de GNL dos EUA neste ano. Quando os preços deram um salto no outono, os navios-tanque de GNL que iam para a Ásia foram redirecionados para abastecer o mercado europeu. Desde então, as coisas não se acalmaram. A Europa respondeu por 74% das exportações de GNL dos EUA nos primeiros quatro meses de 2022, segundo dados oficiais dos EUA.
Entre os países europeus, a Alemanha é especialmente vulnerável a qualquer insuficiência no fornecimento de gás. Para grande parte da Europa, a demanda diária de gás no inverno tende a ser cerca do triplo da demanda típica do verão, mas o enorme mercado interno da Alemanha e sua forte dependência do gás para aquecimento podem significar oscilações muito mais dramáticas, com um aumento na demanda de até seis vezes na estação fria, avalia Graham Freedman, analista da Wood Mackenzie.
Analistas afirmam que, se o racionamento se tornar necessário, os governos protegerão as famílias primeiro. “Você não quer que as pessoas congelem em suas casas”, disse Freedman. Para ele, o risco econômico é “ver grandes consumidores industriais de gás reduzirem muito seu consumo ou simplesmente fecharem”.
Fonte: Valor Econômico