Uma nova guerra comercial desencadeada pelo confronto entre Estados Unidos e União Europeia a respeito da Groenlândia pode arrastar a economia mundial para sua pior desaceleração desde a crise financeira global, alertaram nesta segunda-feira (19) economistas.
A consultoria Oxford Economics afirmou que, se os EUA cumprirem a ameaça de impor uma tarifa adicional de 25% sobre países europeus — e forem alvo de retaliação equivalente — isto reduziria o produto interno bruto (PIB) americano em 1% no pico de seu impacto. O efeito na zona do euro seria semelhante, porém mais prolongado.
Com outros países sentindo os reflexos, o crescimento do PIB global desaceleraria para 2,6% em 2026 e 2027 — a taxa anual mais fraca desde 2009, excluindo o período da pandemia.
A consultoria afirmou que ainda é cedo para alterar suas projeções, já que as tensões podem ser rapidamente dissipadas.
Mas, com o presidente dos EUA, Donald Trump, aumentando a pressão sobre a Dinamarca para entregar a Groenlândia à sua administração, houve sinais nesta segunda-feira de investidores vendendo ativos americanos e buscando portos seguros.
O euro subiu 0,4% em relação ao dólar, enquanto o ouro avançou 1,7%, para US$ 4.670 por onça troy, um recorde histórico. Os mercados acionários europeus caíram, com o Stoxx Europe 600 recuando 1,2%.
As repetidas ameaças de Trump de anexar a Groenlândia também tiveram reflexos no campo militar. A Dinamarca enviou tropas adicionais à Groenlândia nesta segunda-feira, depois que Trump recusou-se a descartar o uso da força para assumir o controle da vasta ilha ártica.
As Forças Armadas dinamarquesas informaram que uma aeronave com uma “contribuição substancial” de soldados — sem precisar quantos — e o chefe do Exército do país pousaria em Kangerlussuaq, no oeste do território autônomo.
Sites de rastreamento de voos indicaram que o avião era uma das duas aeronaves Hercules dinamarquesas a caminho da Groenlândia.
Tropas dinamarquesas vêm liderando um exercício multinacional na ilha, o que levou Trump a anunciar, no fim de semana, que imporia tarifas adicionais a partir do próximo mês aos oito países participantes — entre eles Alemanha, França e Reino Unido.
Em resposta, capitais da União Europeia avaliam se devem impor tarifas no valor de 93 bilhões aos Estados Unidos ou restringir o acesso de empresas americanas ao mercado do bloco.
Nesta segunda-feira, Alemanha e França pediram uma resposta europeia “clara” às ameaças tarifárias de Trump, ao mesmo tempo em que defenderam a desescalada.
“Não seremos chantageados”, disse o ministro das Finanças da Alemanha, Lars Klingbeil. Em entrevista à NBC também hoje, ao ser questionado se usaria a força para adquirir a Groenlândia, Trump respondeu: “Sem comentários”.
Perguntado se levaria adiante suas ameaças de impor tarifas à Europa na ausência de um acordo sobre a Groenlândia, Trump disse: “Vou, 100%”.
No Reino Unido, o primeiro-ministro Sir Keir Starmer afirmou que usaria “toda a força do governo, em casa e no exterior”, para defender o direito internacional, ao classificar a ameaça tarifária de Trump contra aliados como “completamente errada”.
No entanto, Starmer sinalizou que o Reino Unido não tem interesse em impor tarifas unilaterais e sugeriu que a ameaça de Trump de invadir a Groenlândia não é séria.
Já o ministro da Defesa sueco, Pål Jonson, afirmou que, no que diz respeito à Dinamarca e à Groelândia, a Suécia está do lado dos dinamarqueses e dos habitantes da ilha.
Presidente da Finlândia, Alexander Stubb disse tabém hoje não acreditar que os Estados Unidos assumirão o controle da Groenlândia militarmente.
Na próxima quinta-feira (22), os líderes da União Europeia se reunirão em Bruxelas em uma cúpula de emergência para discutir sobre a atual situação da Groenlândia.
A União Europeia continua a dialogar “em todos os níveis” com os EUA, ao mesmo tempo em que prepara sua resposta à nova ameaça tarifária do presidente americano, afirmou o porta-voz chefe adjunto da Comissão Europeia, Olof Gill.
Segundo ele, a UE está pronta para utilizar todas as ferramentas à sua disposição para proteger os interesses econômicos do bloco, acrescentando que a possível utilização do instrumento anticoerção da UE não está descartada.
Embora o principal objetivo da UE continue sendo evitar uma escalada, a resposta será “firme e responsável”, disse Gill.
“O principal objetivo do instrumento anticoerção da UE é atuar como elemento de dissuasão; apenas mencionar a possibilidade de seu uso já pode ter o efeito desejado”, afirmou.
Fonte: Valor Econômico
