O primeiro mês do ano encerrou com um fluxo forte de investimentos vindo do exterior. Em janeiro, o Brasil atraiu R$ 6,2 bilhões, maior volume dos últimos cinco anos. E fevereiro não deve ser diferente. Apenas na primeira semana do mês entraram no país R$ 5,4 bilhões, mais da metade do registrado no mesmo mês do ano passado.
Esse caminhão de dinheiro tem levado a bolsa brasileira a atingir recordes consecutivos e auxiliado o desempenho de ativos de maior risco em um ambiente de juros nos níveis mais altos em quase duas décadas. Além de beneficiar as empresas listadas, o movimento provoca a apreciação do real, que diminui a inflação e dá mais espaço para a queda dos juros, o que pode ajudar o país a crescer mais.
Agora, diante de um corte iminente dos juros em março, frisado pelo Banco Central, esse movimento benéfico para a economia brasileira pode ganhar mais força, aponta Fernando Honorato, economista-chefe do Bradesco. “Além dos altos juros do país e bolsa barata, a queda dos juros também é um catalisador para investimentos de estrangeiros no Brasil porque ajuda no desempenho de ativos de risco, como a bolsa. Ao mesmo tempo, o movimento de busca pela renda fixa deve se manter, pois prevemos que as taxas encerrem 2026 a 12% ao ano, o que ainda é um nível alto”.
No entanto, não dá para projetar até onde esse movimento deve se sustentar, já que ele depende de fatores como a política monetária americana e a do governo de Donald Trump de manter o dólar mais fraco. Em um ambiente de alta incerteza em relação às eleições presidenciais brasileiras e problemas fiscais persistentes, a reversão desse fluxo global é o maior risco para a economia em 2026, na visão de Honorato, já que a deixaria mais “exposta” a esses problemas.
Veja abaixo a entrevista completa de Fernando Honorato à Forbes Brasil:
Por que o Brasil está recebendo o fluxo de investimentos que está saindo dos Estados Unidos?
Fernando Honorato: Há uma diversificação para além do dólar, não uma desdolarização que está sendo impulsionada por questões geopolíticas, incertezas tarifárias e a dinâmica esperada de juros do Fed (Federal Reserve, o BC americano). Há expectativa de cortes nas taxas por lá, o que produz essa diversificação. Muitos ativos têm se beneficiado desse movimento: ouro, bitcoin, ações de emergentes e moedas.
Quando Kevin Warsh foi nomeado para a presidência do Fed, a notícia mexeu com alguns ativos. Warsh é qualificado, o que reduziu o risco da indicação de alguém que não siga a cartilha padrão da autoridade monetária. Ele deve cortar os juros quando assumir, seja por inclinação pessoal, já que foi indicado pelo presidente americano (Trump vem pressionando o Fed a reduzir os juros), seja porque a economia vai demandar. Essa confluência de motivações ajuda a ter cortes de juros sem ruídos. Por outro lado, Warsh tem posição historicamente firme na redução do balanço do Fed, o que também colocou limites para a valorização de alguns ativos, como o bitcoin.
E como esse cenário impacta o câmbio?
Fernando Honorato: Não vemos elementos para um fortalecimento do dólar agora; ele pode até se enfraquecer mais. Projetamos R$ 5,35 para o fim do ano. Mas, pelo menos até setembro ou outubro, há o risco, por conta do fluxo, de o valor do câmbio ficar mais baixo do que essa previsão.
A valorização dos preços dos ativos no Brasil vem do movimento global?
Fernando Honorato: Sim. Não parece haver elementos locais suficientes para explicar essa valorização. Quando você olha para bolsa, moedas e juros de países pares você verifica que o Brasil andou bastante, em alguns casos até mais do que outros países. Existem elementos de preço que ajudam a explicar a atratividade: juros muito altos e uma bolsa que estava muito barata antes da alta recente. Ou seja, o dinheiro não está vindo porque o Brasil resolveu o tema fiscal ou terá crescimento exuberante.
Por que o Brasil está atraindo tanto fluxo entre os emergentes? O destaque são os juros?
Fernando Honorato: Hoje os juros fazem muita diferença. Além disso, a economia é naturalmente diversificada. O fluxo parece proporcional entre os países; não é que o Brasil esteja recebendo muito mais. Mas juros altos e bolsa barata ajudam.
Se você olhar a performance da bolsa brasileira em 12 meses, ela foi a quinta que mais subiu globalmente. Parece contraditório, porque juros altos normalmente reduzem a atratividade das ações, mas a bolsa estava muito barata quando esse movimento começou.
Então já começa a fechar um pouco a janela? O que você espera para o fluxo neste ano, ainda mais com eleições chegando?
Fernando Honorato: Temos Selic de 12% ao final do ano, uma queda de cerca de 3 pontos percentuais. Alguns veem 12,25%, outros 12,50%. A queda de juros também é catalisadora do fluxo. Parece contraintuitivo, mas à medida que os juros caem eles ajudam a bolsa. Na renda fixa, 12% ainda é muito juros. Portanto, o estrangeiro continua interessado.
O grande driver do fluxo é global. Se está perto do esgotamento, ninguém sabe responder. Basta olhar as grandes empresas de tecnologia nos EUA que valem trilhões de dólares. Uma pequena migração desses recursos para países emergentes já sustentaria um fluxo forte. Como as questões geopolíticas não vão cessar e o Fed deve continuar cortando juros, não é óbvio que esse movimento esteja perto do fim.
Como a eleição no Brasil pode afetar esse fluxo?
Fernando Honorato: Tenho insistido que a volatilidade cambial em anos eleitorais não é estatisticamente maior do que em anos não eleitorais. Se você olhar os últimos 24 anos, desde 2002, a volatilidade é muito semelhante. O estrangeiro olha isso de forma pragmática. Ele enxerga continuidade na política econômica ao longo de décadas. Mas o Brasil tem vulnerabilidades fiscais e déficit externo, e se o fluxo global mudar essas fragilidades aparecem rapidamente.
O fluxo global é mais importante do que o debate eleitoral para os preços dos ativos?
Fernando Honorato: Pelo menos nos próximos meses, sim. O maior risco para a economia é a interrupção do fluxo global. Eleições de meio de mandato nos EUA e outros eventos podem mexer com isso. No lado doméstico, o risco é não haver uma agenda consistente para estabilizar a dívida pública a partir de 2027. Candidatos e nomes para a Fazenda vão ser importantes para sinalizar isso.
E as projeções gerais do banco?
Fernando Honorato: Temos PIB crescendo cerca de 1,5% neste ano, desacelerando em relação ao anterior por causa do aperto monetário. Há estímulos do governo, como programas habitacionais e crédito, mas ainda assim a economia desacelera. Esse crescimento permite inflação comportada, com IPCA perto de 3,8%, próximo ao centro da meta.
Se o câmbio continuar apreciando — hoje está perto de R$ 5,18 — pode ampliar a desinflação e permitir juros um pouco mais baixos, o que ajudaria o crescimento. Mas é cedo para cravar.
Existe preocupação com o mercado de trabalho?
Fernando Honorato: O desemprego está baixo e salários estão acelerando, o que exige monitoramento da inflação de serviços. Há mudanças estruturais: trabalho por aplicativos, reforma trabalhista e previdenciária, que tornaram o mercado mais flexível. Isso pode manter o desemprego baixo sem necessariamente gerar grande inflação, mas é algo que precisa ficar no radar.
Fonte: Forbes Brasil