Por Adriana Cotias e Liane Thedim — De São Paulo e do Rio
05/01/2024 05h02 Atualizado há 5 horas
O ano de 2023 terminou com uma grande rasteira para o setor de fundos de investimentos e 2024 não promete vida fácil para os gestores. Entre captações e resgates, R$ 194,1 bilhões deixaram as carteiras líquidas até 29 de dezembro, sendo 69,2% (ou R$ 134,3 bilhões) dos multimercados. Os dados são da Anbima, que representa o mercado de capitais e de investimentos. Os fundos de renda fixa tiveram saques de R$ 59,8 bilhões, e os de ações, R$ 17,0 bilhões.
Considerando-se o dinheiro que entrou e saiu dos estruturados – fundos de recebíveis de crédito (FIDC) e de participações em empresas (FIP) -, os resgates líquidos da indústria como um todo chegaram a R$ 127,9 bilhões.
Os números finais ainda podem ter alguma revisão, mas 2023, em termos de fluxo, mostra o pior desempenho dos multimercados desde o início da série histórica da Anbima, em 2006. E emplaca o segundo ano consecutivo de saques bilionários do setor de gestão de recursos de terceiros – em 2022, as saídas líquidas foram de R$ 129,2 bilhões. Entre um ano e outro, o patrimônio foi de R$ 7,5 trilhões para R$ 8,3 trilhões.
A fuga para títulos bancários e de dívida corporativa com isenção tributária para a pessoa física explica parte da história. Com a Selic em dois dígitos – a média do ano ficou em 13,04% – não havia muita razão para o investidor ficar à mercê de um diagnóstico de cenário que se convertesse em retorno para os multimercados. Em 2023 não faltaram eventos adversos que embaralharam a visão até dos mais experientes gestores – desde a indefinição da política monetária nos Estados Unidos e conflitos geopolíticos, passando pelos ruídos fiscais no Brasil na transição para o novo governo e os episódios de crédito corporativo, com Americanas, Light e outras reestruturações em série.
Para completar, a aprovação no Congresso da tributação dos fundos fechados exclusivos ou reservados a poucos cotistas em dezembro já provocou uma revisão de estruturas das famílias mais endinheiradas e até de investidores profissionais. Parcela majoritária dos portfólios destinados à gestão patrimonial dos ultrarricos estava sob a casca de multimercados, que passarão a ter neste ano o come-cotas, o imposto semestral, que já incide nos fundos condominiais.
A ver se o avanço nos cortes da Selic vai encorajar o investidor a voltar para a classe. A taxa básica de juros encerrou 2023 em 12,25% ao ano e as projeções do mercado no boletim Focus apontam 9% até o fim de 2024. Na teoria, a redução da Selic pode ajudar na recuperação dos fluxos para os “hedge funds” brasileiros, segundo Huang Seen diretor de renda fixa e multimercados da Schroders Brasil.
“O grande desafio para a classe em geral foi muita volatilidade, sem tendência definida ao longo do ano [de 2023], houve vários momentos de melhora e piora e, dependendo de como cada gestor estava posicionado, aquela mudança machucou vários deles”, diz. “Não foi o nosso caso, de certa forma a gente conseguiu surfar bem a turbulência, mas não acho que 2024 será um ano com tantas idas e voltas.”
“Enquanto o dinheiro estava no exclusivo, adiando IR, trocava de gestor; agora não tem mais amarras” — Wilson Barcellos
O fato de ter multimercados de baixa volatilidade ajudou nesse percurso, diz Fernando Cortez, diretor comercial da Schroders. Ele acrescenta que, se os bancos tirarem o pé do acelerador, com menor rolagem de títulos isentos, sobrará mais espaço para o setor. “Esse é um competidor difícil, principalmente para os fundos de ações e multimercados”, afirma. “Não dá para contar com isso, mas seria “o melhor dos cenários”.
Nos últimos dois a três anos, a entrega de performance dos multimercados não “brilhou aos olhos”, por isso os pares comparáveis da indústria de hedge funds encolheu, diz Fábio Dall’Acqua, sócio à frente da área de relações com investidores da Neo. Em meio a um mercado de renda fixa muito atrativo, turbinado pelos incentivados, pagar 2% de taxa de administração com 20% de performance para carteiras de baixa volatilidade, pode não se justificar olhando adiante.
“O setor passa por algumas transformações importantes. Com a reforma tributária que impôs o come-cotas, as conversas passam pela discussão de que sem o diferimento talvez não valha mais ter fundo exclusivo. Dentro dessa estrutura, o alocador qualificado tem aumentado a demanda para fundos que tomem mais risco”, diz Dall’Acqua.
Foi com base nessa procura que o multimercado da Neo captou cerca de R$ 1,7 bilhão ao longo de 2023, o melhor ano em uma década, com o fundo sendo fechado para captações em dezembro, quando a estratégia atingiu R$ 5 bilhões. Com um estilo de gestão que privilegia posições de valor relativo (compradas e vendidas em juros, moedas, bolsa e ativos globais), em oposição a grandes fundos direcionais, o executivo diz que a Neo tem conseguido retornos não correlacionados aos vaivéns do cenário e de outros multimercados que miram um adicional de retorno de 6% a 7% acima do CDI, o intervalo que a asset busca.
Com a equipe que tem hoje, a casa não teria capacidade para duplicar de tamanho e tem preferido ganhar conhecimento no mercado internacional antes de aumentar a exposição fora do Brasil, como muitas gestoras fizeram, diz Dall’Acqua. Hoje, só 15% do risco estão em ativos globais.
A Clave Capital foi outro nome que viu seu patrimônio crescer em 2023, de R$ 7,2 bilhões para R$ 8,9 bilhões, com aumento de R$ 500 milhões no seu multimercado, segundo Rubens Henriques, CEO da asset. “As posições em Brasil foram importantes para superar o CDI no ano, com juros dando grande contribuição, e depois a bolsa, mais do que compensando as estratégias que não foram tão bem lá fora.”
Foi a tese antecipada de que os juros nos EUA tinham atingido o seu pico que fez “muitos gestores queimarem a mão”, diz Rodrigo Carvalho, executivo-chefe de investimentos (CIO) macro da Clave. “A gente vinha com a visão mais otimista do que a média em relação à desinflação pós-choque da covid, parte dela foi acertada com a revisão para baixo das posturas de política monetária dos bancos centrais, mas até três meses atrás não era consensual.”
Ricardo Cará, chefe da área de multimercados da EQI Asset, diz que o desempenho da classe deixou a desejar em 2023, mas ressalta que, se a análise for ampliada a 24 meses, o resultado é bom. Se abranger os últimos 15 anos, continua, batem consistentemente o CDI. Agora, ele vê uma mudança de ciclo com o fim mais claro do aperto monetário nos países desenvolvidos, provavelmente ao longo do segundo trimestre, com maiores chances de nos EUA a inflação cair sem recessão. “É o melhor cenário para emergentes, moedas e bolsas”, avalia.
Para o executivo, isso permitirá que os juros no Brasil continuem em queda, se a questão fiscal seguir controlada. “O mercado já espera 0,5% de déficit. Se não fugir muito disso, o BC pode até conseguir levar a Selic a algo entre 8% e 8,5%, o que seria uma taxa neutra, considerando a inflação de 3% a 3,5%.” Um contexto potencialmente favorável aos multimercados.
Ele lembra que a indústria de fundos é cíclica e que em alguns momentos os multimercados eram os “queridinhos” e, em outros, “sinônimo de palavrão.” Quando esse momento passa, voltam a engrenar. “É como estamos agora. Vai ser difícil ter mais uma onda de resgates nessa intensidade. E o lado bom é que o estoque está com a alocação abaixo da média, sobretudo pelo estrangeiro, que acaba colocando o Brasil no meio dos emergentes, sem diferenciação.”
Para Bruno Marques, sócio e cogestor dos multimercado da XP Asset, ficou difícil para o investidor que não acompanha de perto o mercado entender por que o ano foi tão duro para a classe. Segundo ele, não houve um grande acontecimento, e sim várias mudanças na perspectiva econômica. “Multimercados no geral tentam antecipar grandes tendências macroeconômicas e se posicionar, e elas foram erráticas ao longo de 2023.”
Ele lembra que a dúvida no fim de 2021 era até onde o BC americano precisaria subir os juros e qual o tamanho da recessão que teria que causar para segurar a inflação. “E a resposta é que os índices estão caminhando para a meta sem precisar gerar uma forte queda na atividade.”
Marques afirma que bons multimercados têm um histórico de entregar retornos consistentes de 3% a 5% acima do CDI em dez anos, e que períodos com rendimento abaixo disso precedem momentos de melhor desempenho. “Aqui na XP tem sido assim. Historicamente, ambiente de queda de juros é benéfico para os multimercados. O investidor deveria se antecipar a esse movimento e buscar agora diversificar sua carteira.”
Apesar do ano difícil para os fundos mistos, essa é uma classe em que a gestora de fortunas Est sempre mantém um posicionamento estrutural, segundo o chefe de investimentos Helder Bassi. “Correr atrás da [melhor] cota, sair da que subiu demais e entrar na que caiu, não é a melhor opção. Vale escolher bons gestores que ao longo do tempo batem o ‘benchmark’ [normalmente o CDI].”
Não é porque numa janela de 12 meses os multimercados não foram bem que os gestores “perderam capacidade de gerar alfa [retorno excedente]”, diz Wilson Barcellos, CEO da Azimut Brasil Wealth Management. “Com a tendência de mercado mais visível, eles vão ganhar muito mais que o CDI, há um potencial de meses fantásticos pela frente porque os gestores podem alavancar e colocar ativos de melhor assimetria.”
Ele diz que a tributação dos exclusivos e reservados com o come-cotas pode prejudicar o fluxo de capital para a categoria que também se alimentava da alocação via fundos de fundos. “Enquanto o dinheiro estava num fechado, postergando o imposto, só trocava de ‘A’ para ‘B’, e agora esses caras não têm mais amarras. Uma vez que pagou o IR, os recursos vão para LCI, LCA, ainda com uma boa relação risco/retorno”, diz.
Fonte: Valor Econômico

